OPINIÃO

Escola cívico-militar é justificar ter um sistema falido

Por Marília Martins | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução

Sou professora desde 2008. Minha primeira experiência na rede estadual de São Paulo foi tão traumática que me manteve afastada da sala de aula por dez anos.

A escola em que eu trabalhava, no meu próprio bairro, carregava uma má fama antiga. Logo ao chegar, estranhei a rotina de inspecionar mochilas dos alunos antes da saída, medida adotada após uma “guerra de maçãs” que havia causado danos a bens de profissionais e moradores da comunidade.

Em apenas cinco semanas como professora substituta, atravessei uma sucessão de episódios que adoeceriam qualquer trabalhador: uma sala de professores tomada por conflitos e desconfiança; uma ameaça de bomba no banheiro; uma briga quase generalizada no intervalo; e conversas de crianças de 12 anos explicando os inomináveis “negócios de família” que, segundo elas, garantiriam mais dinheiro e qualidade de vida do que estudar ou trabalhar. E, naquele contexto, elas não estavam erradas.

Havia professores falando mal uns dos outros, uma direção que preferia chamar a polícia a dialogar, ensinar mediação de conflitos ou preparar aqueles jovens para lidar com problemas reais — inclusive com o tráfico, que já fazia parte da realidade familiar de muitos.

Até que, em um dia, fui arremessada contra um armário. Uma briga explodiu atrás de mim e, com as carteiras sendo empurradas, o efeito dominó foi inevitável contra meu 1,5m de altura. Quando consegui me levantar e respirar, ouvi apenas a ordem: “professora, retire-se imediatamente.”

Meu coração disparou. Os gritos dos alunos continuaram até a chegada de outros trabalhadores. Saí dali com a certeza de que aquilo não era justo com ninguém — nem com os alunos, nem com os profissionais.

Naquele momento, cheguei a concordar que a presença policial dentro da escola parecia necessária. Mas nunca acreditei que fosse a solução. Hoje, com ainda mais convicção, sei que não é.

Anos depois, atravessei a pandemia acompanhando uma mãe professora, vivenciei a transição tecnológica e cheguei a me entusiasmar com a ideia de que, apesar de tudo, sairíamos desse período mais preparados para uma nova era educacional. Mudou, sim — mas infelizmente, para pior.

Voltei à sala de aula em 2021. Os equipamentos eram insuficientes, as aulas híbridas frias e confusas, muitos alunos não conseguiam acessar as plataformas. Após um ano de isolamento, um luto coletivo por tantas mortes e a intensificação da polarização política, os estudantes retornaram com enormes fragilidades sociais e emocionais.

A violência doméstica aumentou, a pobreza se aprofundou, pais e mães exaustos tentavam garantir comida e ainda aprender para ensinar seus filhos. Talvez, pela primeira vez, muitos tenham compreendido melhor o que significa ser professor.

No ano seguinte, o governador carioca de São Paulo Tarcísio de Freitas, — nomeia o paranaense Renato Feder, empresário da tecnologia, para comandar a educação do estado. Feder havia deixado a rede de seu próprio estado, batendo os pés na saída.

Usando sua “expertise”, o secretário distribuiu tablets para toda a rede e impôs aulas padronizadas em slides repletos de erros, aberrações pedagógicas e conceituais, exigindo que professores utilizassem ainda mais tecnologia, sem condições reais. Inventou uma avaliação de desempenho, com critérios duvidosos, que passou a ser usada contra os próprios professores. Enquanto isso, professores adoecem e são punidos; 5% do orçamento da educação é cortado; estudantes da educação especial são penalizados sob o discurso de que professor especializado é muito gasto para manter o que ele considerou “privilégio”.

Auxiliares são substituídos por cuidadores sem formação adequada. Diplomas passam a ser tratados como algo de “cada vez menos relevância” segundo as palavras do próprio governador. A atribuição de aulas vira um processo amador e desrespeitoso.

É nesse contexto que surgem as escolas cívico-militares, apresentadas como solução para a crise educacional. Policiais aposentados passam a atuar nas unidades escolares, recebendo salários superiores aos de professores em início de carreira. Estudantes são obrigados a bater continência, usar fardas, seguir códigos rígidos de comportamento e, em alguns casos, sofrem punições físicas e simbólicas incompatíveis com qualquer projeto pedagógico democrático.

Relatos de músicas de exaltação à violência entoadas em ambiente escolar e de práticas de humilhação e controle do corpo infantil não podem ser tratados como casos isolados. Eles expressam um modelo que substitui educação por adestramento e gestão pedagógica por lógica de quartel. Militares com formação deficitária que erram ortografia como das palavras “descançar e continêcia” diante de registros.

Canta-se em ambiente escolar músicas que dizem:
“Sou taticano maldito, e vou pegar você.
 Se eu não te matar, eu vou te prender.
 Vou invadir sua mente, não vou deixar cê dormir.”

Punir crianças não resolve conflitos sociais. Militarizar a escola não enfrenta a desigualdade, a fome, o racismo estrutural, a evasão, a precarização do trabalho nem o aliciamento pelo crime. Pelo contrário: reforça a lógica do medo, da obediência cega e da negação do pensamento crítico.

Educação exige método, mas também afeto. Exige escuta, diálogo, mediação de conflitos, construção de autonomia e respeito às fases do desenvolvimento humano. Exige investimento público, valorização dos profissionais e políticas intersetoriais que enfrentem as causas reais da violência.

A defesa desse modelo revela uma concepção autoritária de educação, que confunde autoridade com violência, disciplina com silenciamento e ordem com negação de direitos. Mudar o rumo define como será a próxima geração de adultos. Como disse Mahatma Gandhi, “olho por olho, dente por dente, e o mundo acabará cego e sem dentes”

Talvez muitos dos adultos que hoje decidem a vida de milhões tenham sido crianças excessivamente reprimidas ou mimadas, agora, investidas de poder, carregam ganância por dinheiro e influência, sem se importar com quem é massacrado no caminho.

Este projeto em curso não aparece nas propagandas eleitorais. Mas está acontecendo — todos os dias — dentro das escolas.

Marília Martins é professora, produtora cultural, foi membro do Conselho de Políticas Culturais, do Conselho da Condição Feminina e atualmente é vereadora em Franca pelo Psol e Procuradora da Mulher da Câmara Municipal de Franca.

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Comentários

16 Comentários

  • Darsio 13/02/2026
    E, não vamos nos esquecer que de acordo com o próprio projeto, se o aluno mantiver qualquer ato de desagravo e, se advertido não mudar a postura, ele será transferido compulsoriamente. Ou seja, a escola tende a manter somente alunos com maior disciplina para estudos, se livrando do que chamaria de dores de cabeça. Afinal, é preciso passar a imagem de que o modelo é um sucesso. Que as escolas regulares mais próximas que se cuidem, pois tendem a receber todas essas dores de cabeça. Os idiotas estão sendo manipulados eleitoreiramente por esses espertalhões que nadam de braçada na onda extremista. É a mais pura alienação. OS ALUNOS DOS PAÍSES NÓRDICOS QUE SE CUIDEM, POIS SEUS GOVERNOS PODEM IMPORTAR ESSE MARAVILHOSO MODELO DE ESCOLA.
  • Alex 12/02/2026
    Usar o PISA serve para defender o método PAULO FREIRE, mas para defender outros métodos de ensino não serve.
  • Darsio 12/02/2026
    Não poucas as críticas que partem de muitos educadores e pesquisadores da educação, das principais universidades e centros de pesquisa. Mas, prevalece o senso comum de muitos que mal devem ter concluído o ensino médio, e que se colocam a altura para opinarem e debaterem determinantemente sobre essa ideia de doutrinar militarmente crianças e jovens. Algo parecido em tempos de covid, quando muitos desses criticavam a vacina, mas sem ao menos ter qualquer formação médica ou no campo da biologia. Não percebem que, estão sendo usados eleitoreiramente por esses políticos que surfam nessa onda de extrema direita, mas que se preocupam apenas com seus cargos políticos e os privilégios que deles obtém. Afinal, será que o Tarcísio de Freitas e outros governos que defendem o projeto, mantém filhos e ou netos em uma escola pública com esse perfil? Obviamente que não, pois o próprio Tarcísio disse que pobre não precisa de diploma universitário.
  • Darsio 11/02/2026
    Vejo a defesa desse modelo, mas em momento algum alguém citou alguma pesquisa calcada por um método científico que, comprove se tratar de um modelo de sucesso. São os achismos de sempre. E, aqui quero chamar a atenção para resultados em avaliações como o ENEM ou em vestibulares de grandes universidades. Até porque, se investigarmos a educação nos países mais bem ranqueados no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), constataremos que não há espaço para a militarização da sala de aula, pois ao contrário disso, nas escolas as crianças vivenciam experiências que buscam despertar a curiosidade e a criatividade e outras habilidades que, no futuro as colocarão alinhadas ao mundo do trabalho e da cidadania. .
  • Darsio 11/02/2026
    Respeito, disciplina e educação eu aprendi com os meus pais e, e faço disso a escola na educação dos meus filhos. Agora, pessoas defenderem que um estranho ensine esses valores a seus filhos, é para qualquer sujeito dotado de razão, o atestado de pais fracassados.
  • Flávia Rodrigues 11/02/2026
    A meu ver todas as escolas públicas deveriam ser Cívico-Militares. Alunos indisciplinados que não respeitam professores (como a senhora mesma exemplificou), devem ser disciplinados por quem é conhecedor do assunto. Não tem nada de cantar o que a senhora disse acima. Eles cantam SIM o Hino Nacional todos os dias, que aliás se perdeu no tempo nas escolas estaduais convencionais. A senhora está completamente equivocada em seu argumento. Vá procurar ao menos se informar sobre o que acontece dentro dessas escolas, depois venha escrever algo que realmente acrescente ao invés de se limitar a ser apenas \"a turma do contra\".
  • Adriana Cristina 11/02/2026
    Procure se familiarizar antes sobre as escolas cívico-militares antes de discorrer conteúdo equivocado. Vá a escola Sudário Ferreira e se informe melhor sobre o sistema que a meu ver é o ideal para ensinar DISCIPLINA e RESPONSABILIDADE aos jovens desregrados de hoje em dia.
  • Jales 08/02/2026
    É impressionante: comunista não aceita nada que funciona de verdade.
  • ERALDO CLAUDIO AMARAL 07/02/2026
    Esses professores formam alunos q não sabem ler ,, e agora vem criticar um método que funciona bem no Brasil todo,, quanta hipocrisia
  • ANDERSON CLAYTON DAMASCENO DE SOUSA 07/02/2026
    Pra quem apoia que é correto adolescentes roubarem um celular pra tomar uma cervejinha, e, em alguns casos até matar, estranho seria se vc fosse à favor do projeto!
  • Claudio Monteiro 06/02/2026
    Li e reli o texto e realmente a vereadora do PSOL não disse nada com nada, só encheu linguiça
  • Alex 06/02/2026
    De acordo com o comentário do Rui não vai mudar nada, pois os professores e a grade de matérias serão as mesmas que já existem nas escolas. KKKKK. Mas ao menos serão jovens obedientes e com limites, coisas que faltam na maioria deles em nossos dias.
  • Rui 06/02/2026
    Tem gente que diz que os indicadores do desempenho dessas escolas cívico-militares são melhores, o que é uma grande mentira. Colocar militares para ensinar a bater continência e outras ações do gênero não melhoram em nada o desempenho escolar. Ao contrário ensinam a serem obedientes , sem nenhuma reflexão e criatividade.
  • MARCIO ALVES CARDOSO 05/02/2026
    Respeito a opinião da vereadora, mas ela desconhece o programa de escolas cívico-militares, no Brasil. Está confundindo esse programa com as Academias Militares de Forças de Segurança Estaduais e Federal. Conheço o programa nos estados de Goiás, Minas Gerais e Paraná. As vagas para as escolas contempladas são concorridas e o indicadores de desempenho escolar são muito maiores que a média nacional, segundo os dados IDEB.
  • Jesuino Salgado 05/02/2026
    A tradicionsl e secular filosofia militarista responsável por alguns golpes travestidas com o pomposo e deglutível nome de revolução, e tantas outras intervenções na sociedade brasileira, desta vez camufladas de manter a lei e as ordens, criaram uma casta armada e poderosa, poderosa pelas armas, mas não por valores culturais, querem perpetuar as suas auto-proglamadas prerrogativas, produzindo novas gerações de cidadãos com essas mesmas funções e poderes. E como o modelo atual, de pegar um da rua, vestir uma farda nele, dar uma arma pra ele e dizer pra ele ir lá e resolver o pobrema, sic, pobrema, não está dando certo, vide o número de policiais envolvidos com ilicitudes de toda a ordem, crimes reiterados, todo dia tem, é só ler um jornal ou assistir TV que vai ver, todos os dias tem. Então resolveram, nos moldes do que o nazismo fez com a juventude hitlerista, pegar jovens na tenra idade e incutir neles esse espírito militarista que eles militares tanto amam para recruta-los depois para as suas fileiras. E se o rapaz, ou a moça, se formas nesses valores de disciplina de bater continêcia e descançar já estará aprovado para ir para as ruas fardado, armado e, sic, fazer cumprir a lei e a ordem. Então um pai e uma mãe, que tiveram uma vida difícil, que não quer que os seus passem o que eles passaram, vai achar que entregar os seus para esse tipo de formatação militar, visto que as escolas regulares estão cheias de maus exemplos, será a garantia de um bom emprego e renda para os seus filhos. E como quase ninguém quer ser polícia, polícia nunca foi exemplo de boa profissão, pois não, os militarista no poder se recorrem a formar alunos nos mesmos moldes que uma música chamada The Wall do conjunto Pink Floyd diz com todas as letras o que será o tipo de formatação das cabeças desses e dessas nessas tais escolas cívico-militarista.
  • Lucas Augusto 05/02/2026
    Tinha que ser do psol ,