SAGA

Homem caminha rumo a Fortaleza com 5 cães; jornada começou há um ano

'Forrest Gump' brasilieiro passou por Franca, diz que caminha há um ano e que jornada ainda leva 7 meses.

Por Denise Silva | 02/03/2024 | Tempo de leitura: 4 min

Editora da Rede Sampi

Reprodução

Ederson Crispim Mário e os cães: caminhada rumo a Fortaleza
Ederson Crispim Mário e os cães: caminhada rumo a Fortaleza

O que faria você largar tudo, casa, família, amigos e cair na estrada? É comum que eventualmente a gente pense em deixar tudo para trás nas crises da vida, mas é muito incomum quem realmente coloca a ideia em prática. Aos 42 anos, Ederson Crispim Mário é uma dessas histórias vivas. Ele foi flagrado andando próximo a Franca por um grupo de ciclistas, que entraram em choque com seu relato. Ele diz que está há um ano e um mês caminhando. Saiu de Meridiano, na Argentina, com destino a Fortaleza.

São muitos os motivos que fizeram com que sua vida tomasse o rumo que tomou, mas, segundo ele, o objetivo é muito claro: rever a mãe depois de mais de 30 anos.

Ederson nasceu em São Paulo, no bairro da Pompeia. Filho de um relacionamento complicado entre uma cearense e um argentino, desde muito cedo ele passa a vida nas ruas. “Aos 12 eu já preferia ficar na rua”, lembra. Saiu de casa cedo, se envolveu com as drogas e aos 17 acabou preso. “Com 25 gramas de maconha, para uso próprio”, garante. Por alguma razão que não é exatamente clara na narrativa dele, ele só saiu do CDP com 19 anos. Disposto a retomar a vida, ele se dedicou a uma paixão de infância: fazer crochê. Arte que ele aprendeu com a mãe ainda na infância e que acabou se tornando o sustento de Ederson, que vendia o que tecia pelas praças públicas.

Seis meses depois, em uma feira de artesanato, conheceu a mulher que mudaria a vida dele – pelo visto, mais de uma vez: Tailas, uma jovem filha de um coronel, também argentino, como o pai do próprio Ederson, também ligada ao crochê e à pirografia.

Não foi preciso muito tempo para que eles se casassem. Na primeira gestação, vieram três meninas idênticas, e na segunda, dois meninos. Para o casal de artesãos, com cinco crianças pequenas, restou ao coronel ajudar quando as contas apertavam.

Entre altos e baixos, a relação até que durou. A venda de artesanatos deixou as praças públicas e ganhou um ateliê próprio na cidade de Meridiano. Anos depois, o casal ainda teve mais uma filha. Mas o relacionamento não resistiu ao passar dos anos e, segundo Ederson, ao ciúme da mulher. Ele conta que ela teria tentado matá-lo duas vezes. A primeira, colocando chumbinho na comida dele, e a segunda ao sufocá-lo com um travesseiro enquanto ele dormia. Era mesmo hora de terminar.

Mas Ederson diz que ainda tentou retomar o casamento por ao menos seis meses depois de sair de casa. Não deu certo. Em meio ao conturbado divórcio, a separação do ateliê, da casa e dos filhos, a mãe sofreu um AVC no Ceará. Foi quando a ideia ganhou força: ir embora para reencontrar a mãe. Ele garante que preparou os filhos, pegou os cinco cachorros (Caramelo, Raposo, Marley, Brisa e 55) e simplesmente foi.

O primeiro trecho foi de bicicleta. Mas em algum lugar do Paraguai, amarrou a bicicleta em um poste e, quando voltou do almoço, só tinha sobrado a corrente cortada. O jeito era seguir a pé. Foi o que eles fizeram. Cruzaram o Paraguai e foram cortando os estados do sul do Brasil. O trajeto que ele conta ter escolhido é no mínimo intrigante: passaram pelo Paraguai, Foz do Iguaçu, Curitiba, Brasília, Uberaba e agora, Restinga. São cerca de 25 km por dia, evitando o sol a pino, “para não queimar as patas dos cachorros”. Para garantir ração e comida, Ederson vendia seus crochês nas praças das cidades por onde passava.

Mas como desafio pouco é bobagem, em Uberaba (mais uma vez, o caminho que ele percorre rumo a Fortaleza é bastante questionável, mas essa é a história do Ederson, então…), ele conta que foi assaltado por três homens perto da rodoviária da cidade. Levaram duas bolsas com linhas e crochês prontos, a carteira com documentos e o celular. Ou seja, sua fonte de renda e a única maneira pela qual ele ainda se comunicava com o sogro e o pai, na Argentina, e com a mãe, em Fortaleza.

Neste sábado, Ederson foi flagrado vagando na região do Clube de Campo por um grupo de ciclistas de Franca. Foram eles que orientaram Ederson a parar na praça central de Restinga, ajudaram com uma marmita, roupas e ração e, o mais importante, orientação espacial para ele retomar o rumo certo. Mas o "Forrest Gump" da vida real tem três sonhos: uma carrocinha de recicláveis para colocar os cachorros e, ele acredita, andar mais rápido; linhas fio 6, para voltar a produzir e a vender pelas cidades onde passa; e um celular, para tentar retomar o contato com a família. A jornada ainda é longa. Segundo ele, ainda faltam 7 meses para a caminhada terminar.

Não é possível confirmar os detalhes do relato do viajante, mas é fato que ele perambula acompanhado apenas pelos cães. Talvez a melhor explicação venha do próprio personagem Forrest Gump. "Não sei se cada um tem um destino ou se só flutuamos sem rumo, como numa brisa...mas acho que talvez sejam ambas as coisas. Talvez as duas coisas aconteçam ao mesmo tempo”.

Ajuda
Quem quiser ajudar, Ederson deve ficar na praça central de Restinga até a segunda-feira, 4.

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5 COMENTÁRIOS

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  • RP
    06/03/2024
    Coitados dos cachorros.
  • Maria Gabriela
    05/03/2024
    Bom dia, preciso saber onde esse rapaz está. O cachorro com ele parece a minha que sumiu a 1 ano, preciso saber se é fêmea, um contato ou alguma localização pra mim ir ate ele.
  • aparecida donizete de freitas
    04/03/2024
    Tiago, mal cheiro não vem dos cachorros, vem da podridão dos irresponsáveis que abandonam os animais. E do Poder público que não toma nenhuma providencia para punir estes irresponsáveis.
  • Tiago
    04/03/2024
    Poderia ter levado daqui mais uns cem junto com ele. Tem cachorro demais: muito barulho e mau cheiro.
  • José Roberto
    02/03/2024
    Esse aí está em Nárnia. Boa sorte!