“Numa folha qualquer, eu desenho um sol amarelo. E com cinco ou seis retas, é fácil fazer um castelo”. A infância da francana Ana Laura Alvarenga, 30, pode ser descrita assim como a música de Toquinho. Nessa brincadeira de transportar o real para a tela em branco, ainda pequena ela descobriu que a tinta tinha cheiro de felicidade.
Nas idas à casa da tia Ziza, até então a única artista da família, passava o dia desenhando, pintando e descobrindo novas formas de criar por meio de artesanato. “A casa dela tinha um monte de material artístico, e ela me incentivava a pintar”, diz Ana.
Já adulta, notou que queria ilustrar livros infantis durante o projeto de conclusão da graduação de Design Gráfico. Porém, pouco tempo após o final do curso, no ano de 2018, a vida de Ana tornou-se preto e branco ao descobrir um câncer na perna. “Um dia fui na esteira andar, minha panturrilha inchou. Fui para o vascular e ele disse que eu estava com trombose. Eu fiz a biópsia, e deu tumor malígno”.
Durante a jornada de quimioterapia e radioterapia, conheceu muitas pessoas especiais. Compartilhavam a mesma luta, mas também passaram a compartilhar momentos de diversão, de empatia e muito amor para tornar esse período tão delicado um pouco mais leve. Principalmente com Susu, a conexão entre as duas parecia de outras vidas.
Ana já estava no fim do tratamento quando o quadro de saúde da melhor amiga piorou. Susu não resistiu e morreu em 2019. Além dela, Ana perdeu mais três amigos, Andressa, Matheus e Jéssica. O baque de perder tantas pessoas queridas, a deixou entristecida. “Eu ficava só deitada, não fazia nada”, recorda.
Buscou na arte uma alternativa de amenizar a dor. Após alguns meses da morte de Susu, deixou Franca e se mudou para uma república em São Paulo, capital. Ana inscreveu-se em três cursos de desenho ao mesmo tempo. “Nos finais de semana, eu colocava minhas pinturas e os meus quadros na Avenida Paulista no chão para vender. Tudo para ocupar a minha cabeça”, lembra.
Porém, como não tinha um trabalho fixo, decidiu retornar à cidade natal pouco antes do início da pandemia. Quando as medidas protetivas contra a Covid-19 foram impostas, aproveitou para colocar em prática todo aprendizado com a técnica aquarela. “Comecei a postar muito no Instagram”, diz ela, até receber um convite inesperado. “Uma editora me chamou para poder fazer meu primeiro livro”.
Depois de terminar o trabalho do livro intitulado O Papagaio, mostrou à editora uma história escrita por ela. “Eles gostaram e disseram: ‘a gente quer publicar o seu texto com sua ilustração’”. foi assim que nasceu o livro Sr. Gentil. “Para mim, ser ilustradora era um sonho tão distante. Na hora que você vê impresso, dá um quentinho no coração”, comenta.
Um livro atraiu o outro. A escritora Ana Rapha Nunes conheceu o trabalho de Ana Laura e a convidou para ilustrar Ela Nasceu Clarice. “Ela procurou meu contato, não sei por onde, e me chamou pelo WhatsApp falando que tinha uma história, se eu queria fazer uma parceria. Eu aceitei”.
O desenho do livro baseado na vida de Clarice Lispector foi finalista na categoria conjunto de ilustrações pela AEILIJ (Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil). Em apenas três anos, foram 22 livros infantis ilustrados e publicados.
Ana Laura retornou a São Paulo em fevereiro deste ano e pretende ampliar os horizontes. “Eu quero pintar o que sai de dentro, o que estiver sentindo, e fazer disso uma arte”, completa.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.
Comentários
6 Comentários
-
Ana Livia 03/11/2023Você é luz por onde passa amiga! Que orgulho de você! -
Felipe 31/10/2023Show, minha amigona! -
Gabiroba 29/10/2023Carlos tem toda razão! O gcn precisa trazer conteúdos mais bem elaborados visualmente. Nesta matéria caberia tranquilamente um carrossel com algumas obras da artista. Os textos são importantes, mas falta umas matérias diferentes para sair do trivial. -
Sérgio Costa 29/10/2023Que matéria bacana, parabéns !!! -
Carlos 28/10/2023Muito talentosa, dá pra deduzir nessa pequena amostra. Aliás o jornal deveria ter caprichado e nos brindado com mais trabalhos. -
Marco Antônio 28/10/2023Parabéns e muito sucesso para você.