MUDANÇAS

Foco na prevenção: 'Allan Kardec' muda abordagem de atendimento de doenças mentais

Por Pedro Baccelli | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Sampi/Franca
Reprodução
Presidente da Fundação Allan Kardec, Mario Arias
Presidente da Fundação Allan Kardec, Mario Arias

Em uma época em que é comum se deparar com situações em que a aparência supera a essência e muitas vezes a busca por curtidas no mundo virtual é uma obsessão, a importância do cuidado com a saúde mental ganha evidência. Em Franca, há cem anos a Fundação Allan Kardec presta atendimentos nesse campo, sendo referência em todo país.

Ao longo da história, a sociedade mudou e a medicina também. A instituição que já foi conhecida por tratar de "loucos", hoje foca na prevenção de possíveis casos de doenças mentais, como a depressão, frequentemente chamada de "mal do século".

Seguindo esse roteiro, o hospital psiquiátrico caminha a passos largos para ser extinto. Alas do prédio já estão sendo ocupadas pelo CPMS (Centro de Promoção de Saúde Mental), com três projetos já anunciados pelo presidente da fundação, Mario Arias: SOS Depressão, Estrelinhas e o Horto Medicinal.

"A ideia é evitar que o paciente chegue às unidades de saúde (...) você já alivia toda a rede de saúde pública e antecipa problemas que poderiam acontecer no futuro", pontua o presidente da fundação, Mario Arias.

Os programas se integram a uma ampla rede de atendimento disponível ao público. O Caps (Centro de Atenção Psicossocial) oferece tratamento para dependência química e transtornos mentais com acesso aberto. O Caps Florescer é dedicado a transtornos psicóticos e funciona 24 horas.

Para internação psiquiátrica, a UBS encaminha para o pronto-socorro de saúde mental, e a Siresp (Sistema Informatizado de Regulação do Estado de São Paulo) cuida das vagas. Novos programas, como SOS Depressão e Estrelinhas, terão seus processos de acesso divulgados em breve, incluindo parcerias com escolas e organizações locais. Os pais podem buscar ajuda no hospital se notarem problemas em seus filhos.

Uma fundação que se atualiza com o decorrer do tempo para realizar com maestria uma missão: cuidar de pessoas.

Leia a entrevista completa com o presidente da Fundação Allan Kardec, Mario Arias:

GCN: Como começou a história da Fundação Allan Kardec?
Mario: Começou quando o seu fundador se deparou com uma pessoa com um transtorno mental na rua. A pessoa estava brigando com os meninos, ele foi intervir e tomou uma pedrada no rosto. Sentiu-se compadecido, pegou essa pessoa que era portador de transtorno mental e levou para casa dele. Começou a acolher outras pessoas. A casa dele estava cheia do que eram denominados "loucos". Não existia hospital psiquiátrico. Ele recebeu a doação daquele terreno onde é o hospital hoje, ali foram construídas algumas casas e fundou-se o Allan Kardec.

Quando a atual gestão chegou ao hospital, e como se encontrava?
Chegamos ao Allan Kardec em 2015. Éramos um grande hospital, tínhamos algo próximo a 300 leitos e 100 moradores que habitavam o hospital, que eram pessoas que não tinham vínculos familiares.

Quando surgiu essa necessidade de modificar o foco da Fundação?
Começamos a compreender que a saúde mental, o direcionamento da saúde mental do Ministério da Saúde, caminhava para o outro lado. Caminhava para um tratamento sem grandes hospitais, um tratamento mais voltado para a parte ambulatorial, de prevenção. Também havia a luta antimanicomial que precisava que as pessoas não poderiam morar nos hospitais, que eram chamados manicômios, apesar de não terem as características. Naquele momento, a gente já previu uma necessidade de uma grande reformulação.

Como começou essa mudança?
A primeira coisa que nós tínhamos que fazer era a desinstitucionalização dos moradores que ali estavam. Mas, para isso, precisava ser montada a rede de atenção psicossocial. Fizemos uma parceria com a Prefeitura Municipal de Franca e com o Ministério Público e assumimos a gestão do Caps e o Caps Florescer, que é o primeiro equipamento que vai possibilitar a saída dos moradores do hospital.

Como aconteceu o esvaziamento do hospital psiquiátrico?
Foi montada uma residência pela Prefeitura de Guará, onde dez pacientes foram para lá. Depois, a Fundação Judas Iscariotes fez um convênio com a Prefeitura de Franca e montou mais cinco residências terapêuticas, saindo mais 50 pacientes. O Allan Kardec fez um convênio com a Prefeitura e assumimos a gestão de mais cinco residências terapêuticas, saindo os outros pacientes que moravam no hospital.

Quais os trabalhos desenvolvidos nas oficinas?
Criamos um departamento chamado Desenvolvimento Humano, que são oficinas de geração de trabalho e renda. Hoje, temos 70 pessoas que são atendidas nessas oficinas. O pessoal chega, trabalha o dia todo, tem treinamento, recebem alimentação, produzem verduras, fazem reciclagem de eletrônicos e fazem costura manual e couro.

E o Caps AD?
Montamos o Caps Álcool e Drogas, que atua com a população que tem alguma situação de dependência química. Também tem convênio com a prefeitura.

Como será o SOS Depressão?
Vamos tratar depressões crônicas com uma técnica de magnetismo, que está dentro do rol do SUS no contexto da imposição de mãos, como o Reiki e outras técnicas.

Como funcionará o Estrelinhas?
Vamos atender a população de escola, de centros comunitários e de associações para levar para essas pessoas a promoção de saúde mental. Um instrumental para que os professores, pais e atores que cuidam das crianças possam identificar problemas de saúde mental na sua fase inicial. A criança dando qualquer tipo de alteração no comportamento, essas pessoas já vão ser capacitadas para poder identificar.

E o Horto?
O Horto de Plantas Medicinais está sendo remontado, votando ao nosso propósito inicial da fundação, que é fazer filantropia, atuar aonde o estado não chega.

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