Abandono, desgaste do tempo, queda de pedaços do telhado, invasão e furto de colchões e fios são fatos que representam as memórias mais recentes do prédio antigo da Unesp (Universidade do Estado de São Paulo), localizado na rua Campos Salles, no Centro de Franca.
Mas a novela está prestes a ter um novo capítulo. A empresa L. R. Reis Construtora Ltda. ganhou a licitação feita pela universidade, no valor de R$ 320.566,32, e deve iniciar obra de reforma nas próximas semanas, começando pelo bandejamento ao redor do prédio, que foi instalado em 2019 e está deteriorado.
Segundo a diretora do Campus da Unesp de Franca, Fernanda Melo Santana, a universidade não conseguirá fazer a reforma total. “Infelizmente, a Universidade não tem condições de investir valores estimados em mais de 20 milhões de reais para a reforma total do imóvel. Chegamos a realizar audiências com vários setores da sociedade para discutirmos a situação do prédio. Mas não conseguimos nenhum apoio”, explicou.
A Unesp desocupou o prédio em 2009, quando transferiu suas atividades para o Jardim Petráglia. Na ocasião, o prédio foi cedido ao Governo do Estado, que instalou repartições ligadas à Secretaria de Desenvolvimento Regional, inclusive um posto fiscal da Secretaria de Fazenda do Estado. O sistema de concessão estava previsto para durar 20 anos, mas foi encerrado antes. “Em junho de 2022, o Governo do Estado de São Paulo abandonou o prédio, fomos surpreendidos com a notícia de que o Governo pretendia rescindir unilateralmente o contrato de forma antecipada”, comentou.
Neste período, a Unesp acelerou o processo de elaboração de um projeto para instalação de um “Centro de Educação, Cultura e Economia Solidária e Criativa”, porém, no início o projeto seria liderado pelo Governo do Estado e a Universidade seria parceira. “Foram realizadas articulações em busca de apoio junto ao poder público municipal, lideranças empresariais e da sociedade civil. Ocorreram audiências com dois Secretários de Estado, com o chefe de Gabinete da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, e com o então Governador João Doria em busca de uma solução. Entretanto, o Governo do Estado não se dispôs a liderar o projeto nem a fazer os investimentos necessários”, explicou.
A universidade ainda afirma que durante os anos em que esteve no imóvel, o Governo do Estado não realizou as reformas necessárias, apenas instalou o bandejamento para proteção dos pedestres, que é uma obra preparatória para a reforma. “Entre o período que o Estado abandonou o prédio e o fim de 2023, a Universidade deve gastar mais de R$ 1,5 milhão em vigilância e obras emergenciais. O bandejamento instalado em 2019 está deteriorado e a Unesp está arcando inteiramente com a reforma dele, que deve começar em breve”, comentou.
O prédio chegou a ser invadido no ano passado, e agora a Universidade mantém três vigias durante o dia e três vigias durante a noite para evitar novas invasões.
Uma tentativa de diálogo entre a universidade e a administração municipal também foi feita, porém, as propostas foram recusadas. “A Prefeitura disse que teria interesse no prédio apenas se a instituição realizasse a reforma, o que não tem chances de acontecer. Pois, além desse prédio, a Unesp ainda mantém todo o campus do Petráglia”, finalizou.
Histórico
O prédio que já foi sinônimo de educação elitista chegou a virar “depósito” de repartições públicas do Governo do Estado. Mas sua criação foi feita por meio do esforço de Monsenhor Rosa, que buscava entregar uma formação educacional religiosa comparada àquelas existentes na Europa.
Foi quando um grupo da Congregação das Irmãs de São José de Chambéry chegou à Franca em 1888. E o casal Major Claudiano Ferreira Martins e sua esposa Mariana doou um sobrado, onde foi adaptado um colégio. A inauguração do prédio aconteceu em novembro daquele mesmo ano. Durante anos, o colégio atendeu meninas da elite francana.
A estrutura sentiu os efeitos do tempo, e a fachada do prédio histórico foi interditada para reforma em 2019. Devido ao valor histórico, a capela e a fachada são tombados pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico).
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