Mais uma vez, como um roteiro que se repete, o país testemunhou recentemente um ataque violento em uma escola. Foi no município de Cambé, no Paraná, onde um homem de 21 anos entrou no Colégio Estadual Professora Helena Kolody e fez disparos com uma arma de fogo, antes de ser contido por um funcionário, numa segunda-feira, 19 de junho.
Nos últimos 20 anos, foram 24 ataques do gênero no Brasil. Se em 1999, quando o massacre de Columbine, nos Estados Unidos, chocou o mundo, esse tipo de crime estava distante do nosso cotidiano, hoje essa violência está disseminada no Brasil. Foi no Rio de Janeiro que, em 2011, um homem, ex-aluno, se apresentou em uma escola de Realengo e matou 12 crianças.
Diversos fatores são apontados como catalisadores para esse tipo de ataque. Facilidade para comprar armas de fogo, acesso irrestrito a conteúdos violentos na internet e distúrbios mentais são muito apontados. Mas um fator une os massacres de Columbine, de Realengo, o ataque em Cambé e tantos outros: em todos, os autores alegaram vingança após anos de bullying sofrido nas escolas.
Nos Estados Unidos e no Rio, os criminosos cometeram suicídio ainda dentro das escolas. No Paraná, após tirar a vida de um casal de namorados, o atirador foi encontrado morto na cadeia, aparentemente após se enforcar. O bullying na infância e na adolescência tem um papel tão devastador na formação desses jovens que, mesmo após anos, eles guardam o sentimento de humilhação e vingança.
Na idade adulta, sofrendo com os transtornos mentais decorrentes da violência psicológica sofrida durante anos, voltam à escola onde vivenciaram o abuso e descarregam seu ódio sobre crianças inocentes para, enfim, tirar a própria vida.
"Precisa esforço constante"
Para a estudiosa Ana Paula Siqueira, mestre em Direito Civil, professora universitária e diretora da ClassNet Consultoria, ampliar a segurança nas escolas trata a consequência, mas não elimina a origem. “O Brasil precisa urgentemente implantar adequadamente as medidas preventivas e corretivas previstas pela Lei 13.185/2015, a Lei do Bullying. Escolas, pais e professores precisam estar preparados para identificar e neutralizar casos de bullying e cyberbullying. O bullying não pode ser tratado como um simples tema de palestra, uma vez por ano. É preciso um esforço constante e permanente de implantação de uma cultura de paz na rede de ensino”, explicou.
Segundo ela, toda escola tem a obrigação legal de manter um plano estruturado de combate ao bullying. “Além da própria instituição, professores e diretores podem ser responsabilizados em caso de omissão, como ocorreu com um diretor de São Paulo, afastado de seu cargo por não responder de maneira adequada ao bullying sofrido por uma aluna de 6 anos. É preciso conscientizar a sociedade de sua responsabilidade no combate ao bullying. Sem isso, estamos apenas aguardando onde e quando o próximo capítulo dessa triste história vai acontecer”, finalizou.
Psicóloga: relacionamentos sociais tóxicos e contatos sociais violentos
A reportagem do GCN conversou com a psicóloga Luciana Guedes Ortiz, 52 anos, formada pela Faculdade Federal de Uberlândia e concursada na Prefeitura de Cristais Paulista há 18 anos. Segundo ela, tudo o que acontece na formação de uma criança e adolescente em seus contatos sociais pode influenciar na sua formação.
“Sabemos que o desenvolvimento emocional humano acontece a partir de suas relações sociais que ela tem, inicialmente com sua família e depois com seus colegas nas escolas. E nisso, o ambiente escolar tem muita responsabilidade na formação. Se a criança viver relacionamentos sociais tóxicos e contatos sociais violentos, sem respaldo de ninguém, isso impacta na sua formação e muda seu conceito de certo e errado. Levando ela a entender que se ela sofre agressão, deve ser agressiva. E se ela é humilhada deve humilhar independentemente da situação”, destacou.
Para ela, as escolas devem desenvolver projetos e ações que permitam que as crianças e adolescentes entendam a gravidade da prática do bullying, e as que são vítimas se sintam confortáveis para buscar ajuda.
Desejo consciente de maltratar outra pessoa
A graduanda em psicologia Stella Follis Camargo, 21 anos, desenvolve um projeto voluntário chamado “Bullying: para combater tem que entender”, nas escolas públicas e particulares. “Desenvolvo dinâmicas para reconhecer como é a cultura do bullying em cada classe, levo discussões sobre psicoeducação do bullying (conceitos), o reconhecimento das pessoas envolvidas, rodas de conversas preventivas e estratégias para que cada aluno possa desenvolver seu próprio recurso de combate, tanto agressores, quanto vítimas e espectadores”, explicou.
O bullying é o desejo consciente de maltratar outro indivíduo. Quando não é consciente, não se pode falar em bullying. “Ele se caracteriza pela persistência, uma perseguição, e deve ter alguém se sobressaindo a outro, ou seja, um desvio de poder. Entre meninos, geralmente se caracteriza por uma violência mais física, entre meninas pode ocorrer mais exclusão social”, exemplificou.
Stella aborda em seus estudos os efeitos que a prática do bullying pode causar na vida da vítima. “Sofrer bullying na infância e adolescência pode afetar o desenvolvimento tanto emocional quanto cognitivo. A vítima pode sentir dificuldades em se relacionar com outras pessoas, há muitos prejuízos sociais, a autoestima pode ficar baixa ao ponto de auxiliar no desenvolvimento de transtornos mentais, como a depressão e a ansiedade. Além disso, o desenvolvimento acadêmico pode baixar, gerar vácuos de aprendizado e de atenção, ou pensamentos como ‘não sirvo para nada mesmo, não adianta nem aprender? trabalhar’. Mas, ao contrário do senso comum, não só a vítima pode sofrer com prejuízos. Há fortes evidências que registram que uma intervenção não feita na infância ou adolescência, pode levar a comportamentos ilegais de agressores na fase adulta, bem como uso de substâncias”, explicou.
Para Stella, cabe à família e à escola ficar atentos para identificar possíveis vítimas. “O principal é a mudança de comportamento. A criança ou o adolescente podia se portar como muito alegre, feliz, tagarela, sociável e gostava de ir para escola, mas aos poucos esse comportamento começa a mudar, ser mais tímido, apresentar muito medo. Muitas das vezes a criança não consegue apresentar ao adulto seu sentimento, então pode dizer que toda vez que vai à escola, o estômago fica ruim, ou a cabeça dói, se não for algo físico, pode ser emocional e correlacionado ao bullying”, alertou.
Ela cita outro exemplo. “Como uma pessoa que tirava notas sempre medianas, mas começa a ficar superpreocupado com as notas, com a aparência, com provas, pode ser que a criança queira se afirmar como 'bom' para evitar o bullying. A palavra-chave é estarem atentas às mudanças.
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Comentários
1 Comentários
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Luis 09/07/2023Na minha época, e não faz 30 anos, tinha um monte de apelidos e morava em cidade grande, onde tinha q me defender na rua e na escola, tinha um monte de apelidos e se não gostasse, era do esperar na saída. Agora tudo é bulling, tudo é racismo, não pode mais falar nada q da processo, q geração mais cristal chata, onde todo mundo tem direitos e ninguém tem deveres!!! Não tem mais homen e mulher, agora virou tudo igual, glbtqi+, não binário, entre outros, que palhaçada , ainda bem q daqui a pouco eu morro e não fico vendo essa palhaçada, e isso q falaram q essa geração q ia mudar o mundo, estou vendo, para pior né???