MEMÓRIA

'Você precisa de uma cozinha que tenha a sua cara', disse Palmirinha à revista do GCN

Por Jéssica Reis | da Redação
| Tempo de leitura: 6 min
Instagram/Vovó Palmirinha
Palmirinha em 2012 para a revista Morar do GCN: 'A cozinha boa não é aquela que é chique, que é fina'
Palmirinha em 2012 para a revista Morar do GCN: 'A cozinha boa não é aquela que é chique, que é fina'

A apresentadora e cozinheira Palmira Nery da Silva Onofre, mais conhecida como Palmirinha, morreu neste domingo, 7, em São Paulo, aos 91 anos, em decorrência de um agravamento de problemas renais. Ela estava internada no Hospital Alemão Oswaldo Cruz desde o dia 11 de abril.

Em março de 2012, Palmirinha foi entrevistada pela revista Morar, do GCN. A entrevista exclusiva e especial foi feita em São Paulo pela então repórter Melissa Toledo, atualmente editora do grupo. Palmirinha ficou conhecida como a vovó do Brasil, através de seu trabalho por décadas como apresentadora de programas culinários na televisão aberta e fechada. Sua história de vida e superação ficou bastante conhecida pelo público, e sua morte repercutiu em todo o país. Como forma de homenagear essa que é um ícone da televisão brasileira, e relembrar as suas tiradas culinárias, reproduzimos abaixo a entrevista produzida há 11 anos. Leia na íntegra:

Vovó Palmirinha: a popstar das cozinhas

Da infância em Bauru (SP), passando pela cozinha do governador Ademar de Barros na capital, Palmira Onofre conta como se tornou “estrela das panelas” no Brasil

Nem em seus sonhos mais ousados quando saiu de Bauru (SP) para se radicar de vez em São Paulo, a então jovem Palmira Nery da Silva Onofre imaginava que um dia faria sucesso como a cozinheira mais pop da TV brasileira. Hoje, aos 80 anos, ela coleciona em sua história receitas de bolos, assados, guloseimas, superação e sucesso - e se prepara para uma possível volta à TV. Em uma entrevista exclusiva feita na cidade que a recebeu para viver, São Paulo, Vovó Palmirinha, como é conhecida na mídia, contou como se tornou estrela atrás das panelas.

A voz firme que sai do corpo miúdo de pouco mais de um metro e meio de altura faz Palmirinha fugir do estereotipo de “vovozinha”. Outra evidência de que ela está longe de cadeira de balanço é sua intimidade com a tecnologia - ela acompanha de perto as atualizações de seu site e a movimentação de sua conta no Twitter, onde já arrebanhou 42,7 mil seguidores.

A vovó popular não faz confusão com as palavras, escuta muito bem e teoriza com clareza que a desinibição e intimidade com as câmeras vem da infância ao lado de uma espécie de tutora francesa com quem viveu em São Paulo entre os seis e os 14 anos. “Eu era muito fechada, depois que vim para São Paulo e essa senhora francesa que me criou (como dama de companhia) começou a me ensinar a falar ao telefone, a atender as pessoas e eu comecei a me soltar, a ser mais falante, alegre, mais ativa. Tudo que ela falou para meu pai que iria me dar, ela fez”, disse.

O trato chique aos pratos que foi aprendendo a preparar tem a mesma origem. A influência da cultura francesa garantiu conhecimentos refinados, segundo a culinarista. “Ela me levava para as melhores casas de chás, os melhores restaurantes, para eu aprender a comer, a lidar com as pessoas. Ela também falava muito em francês comigo e eu aprendi bastante.”

As experiências na capital a gabaritaram para criar, ainda que informalmente, seu próprio bufê. A vivência também a credenciou a poder dar expediente na cozinha de “gente importante”, como a da casa do governador de São Paulo Ademar Pereira de Barro (1901-1969). “Eu tinha uma cunhada que era modista na casa do Ademar de Barros e pedi que ela me arrumasse um emprego para cozinhar. Eu ia uma vez por semana e preparava comida para a semana toda”, afirmou.

Da rotina a beira do fogão ela tirava seu próprio sustento e o das três filhas, que criou sozinha depois que o marido a abandonou na capital. A história amarga que ao que tudo indica foi justamente a razão de seu debut na TV e, por que não, a responsável por tornar sua vida mais adocicada. “Eu fazia congelados para a diretora do programa da Silva Popovic, na Band, e um dia ela disse que precisava de uma pessoa falante que tivesse a vida que eu tive (o tema era “como criar os filhos sozinha”). Eu fui e levei uma cestinha de massa cheia de empadinhas de presente para a Silvia.”

Estava dada a largada. Popovic mostrou o mimo para as câmeras e divulgou um telefone de contato de Palmirinha. Não demorou até para que os pedidos de encomenda triplicassem; também foi rápido o contato para que ela passasse a integrar o programa Note & Anote, de Ana Maria Braga, na TV Record, onde trabalhou por quase seis anos.

De lá para cá, sua biografia é quase toda pública. Afastada da TV desde agosto de 2010 quando pediu para encerrar o contrato na TV Gazeta após 11 anos de casa, ela prepara seu retorno à telinha.

A reportagem apurou que ela negocia um quadro sobre culinária no novo programa de Fátima Bernardes que estreará em breve na Rede Globo. Palmirinha e sua assessoria não confirmam nada, mas também não desmentem. As palavras de ordem são “sigilo” e “silêncio”. A única afirmação é que a vontade de voltar a TV existe. E uma cozinha-estúdio está sendo construída supostamente para isso. “No momento não posso falar nada, mas vocês serão os primeiros a saberem”, limitou-se a dizer Palmirinha.

Enquanto isso, a vovó popstar dá atenção especial à família - entre os parentes diretos são três filhas, seis netos e duas bisnetas -, aprecia bons restaurantes, filmes e passeios, incluindo destinos do interior, como a vizinha Orlândia, onde uma das filhas tem família.

A COZINHA

“Você precisa de uma cozinha que tenha a sua cara”. Esta é, para Palmirinha, a melhor definição de uma cozinha perfeita. Segundo a apresentadora-culinarista, a disposição dos móveis, a qualidade dos mesmos e os equipamentos que “combinam com a dona” definem o quão funcional é uma cozinha.

Palmirinha afirma que a cozinha-estúdio que está construindo no Bairro Vila Mariana, em São Paulo, é um bom modelo do que funciona no ambiente que se tornou estrela dos projetos modernos de arquitetura de imóveis residenciais. “A cozinha boa não é aquela que é chique, que é fina. Na que tem a minha cara - e que está sendo feita pela Todeschini - é tudo simples, mas bonito.”

Bem humorada, com um remelexo nos quadris ela mostrou como julga que as gavetas dos armários têm de ser fechadas: “facilmente, com um toquinho”, disse às gargalhadas.

A vovó seguiu aconselhando que não pode faltar no espaço “uma bela de uma batedeira, um belo de um liquidificador, panelas e eletrodomésticos que também tenham a cara da dona”.

Desde que não se afaste de sua batedeira veterana e de uma boa colher de pau, ela está aberta às novidades tecnológicas e cita um equipamento que a conquistou assim que surgiu no mercado. “O que veio para ajudar é o forno elétrico porque ele é quase igual ao forno que a minha mãe tinha no sítio em Bauru, a lenha. Ele esquenta inteirinho, deixando tudo assado por igual”, afirmou.

Ela lembra também que é importante que tudo esteja sempre muito bem organizado, limpo e sempre a mão. Com seu jeito e vocabulário simples, Palmirinha segue ensinando inclusive, como ela diz sorrindo, “as meninas que se casam e não sabem nem fazer um arroz”.

E para essas moças ela te uma dica nada convencional para que não errem na cozinha em ocasiões especiais: “comprem as minhas revistas nas bancas ou acessem o meu site (risos). Mas se você não sabe mesmo e quer fazer, ligue para a sua sogra”.

Entrevista exclusiva publicada com a apresentadora Palmirinha em março de 2012 pela revista Morar, do GCN, edição 7
Entrevista exclusiva publicada com a apresentadora Palmirinha em março de 2012 pela revista Morar, do GCN, edição 7

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