Nascido na vizinha Cristais Paulista, Hugo Mendes, de 21 anos, trabalha no Magazine Luiza e desde pequeno já demonstrava seu fascínio pelo céu e por tudo o que voa.
Com aquela típica infância "raiz", Hugo passou boa parte do seu tempo de criança entre a escola e a diversão com os amigos. “Na parte da manhã, eu ia na escola e, na parte da tarde, ficava na rua com os amigos fazendo tudo que vinha na cabeça. Apertávamos a campainha dos vizinhos e saímos correndo... Esporte nunca foi comigo, sempre fui mais intelectual”, contou.
Hugo se lembra de como sua infância influenciou sua trajetória e escolhas. “Sempre gostei de tudo que voa. Quando criança, meu brinquedo favorito era um helicóptero de controle remoto. Eu tinha uma prima que estudava em Cuba. Quando ela vinha nos visitar, meus tios me levava até o aeroporto de Ribeirão Preto para buscá-la. A gente sempre chegava com algumas horas de antecedência, e eu ficava o tempo todo colado no vidro do saguão do aeroporto vendo os aviões. Tudo era fascinante”, disse o futuro piloto.
Foi aos 14 anos que ele passou a ficar mais em casa no computador e videogame, sempre em jogos e simuladores de voos. “Sempre fui fascinado por simuladores de voo. Ficava o dia todo com alguns amigos ‘voando’ virtualmente”.
Voando pela primeira vez
Hugo conseguiu sua primeira oportunidade de voar aos 18 anos, e lá teve todas as certezas que precisava. “Foi um voo comercial, mas para mim foi a confirmação que era aquilo que eu queria para a minha vida. Desde o clima do aeroporto até a adrenalina na hora da decolagem, tudo me fez ter a certeza que era aquilo que estava no caminho que realmente me faria feliz”, explica.
Na ocasião, Hugo teve uma grande oportunidade de conhecer mais sobre seu sonho. “Lembro que cheguei a conversar com o comandante do voo, entrei na cabine e fiquei mais fascinado ainda. Até então, eu só via os aviões pelos simuladores que eu jogava em casa, tudo era muito maior, mais detalhado. Simplesmente fascinante.”
Memórias
Com uma família simples, nem todas as oportunidades foram fáceis. “Lembro que teve uma época em Cristais, que vinha um helicóptero para fazer voo panorâmico com as pessoas. Ele pousava em um campo em frente da minha casa. Meus pais não tinham condições de pagar para eu ir, eu chorava que só! Ficava o dia todo na calçada fascinado, como aquilo era possível?”
Mas as dificuldades só fizeram Hugo buscar se entender melhor e saber que teria que se dedicar muito para realizar o seu sonho de se tornar um grande piloto. “Na adolescência, ficava vendo vídeos de aviação, filmes, revistas e tudo mais. Jogava simulador de avião com os amigos virtualmente também”, contou.
Primeiro passo
Para realizar seu sonho, Mendes buscou lugares onde pudesse aprender mais e dar seus primeiros passos. “Hoje estou fazendo meu curso prático no Aeroclube de Franca. Uma escola super tradicional e uma das melhores, se não a melhor que temos na região”, comentou.
A caminhada para se tornar um piloto é grande e necessita de muita dedicação, investimento financeiro e empenho. “O primeiro passo é fazer um curso teórico pra obter os conhecimentos necessários para realizar o seu curso prático e principalmente pra passar na Banca da ANAC (Avaliação de conhecimentos teóricos que é aplicada pela ANAC)”, explicou.
O curso teórico conta com cinco matérias que são cobradas na prova. São elas: Navegação Aérea, Conhecimentos Técnicos, Regulamentos de Tráfego Aéreo, Meteorologia e Teoria de Voo. E ele tem uma duração de aproximadamente 4 a 5 meses. Após a finalização do curso teórico e da aprovação na Banca da ANAC, o candidato precisa fazer um exame médico aeronáutico (CMA - Certificado Médico Aeronáutico), onde é avaliado se está apto ou não a pilotar uma aeronave.
“Após passar na Banca e realizar o CMA, você já pode iniciar sua aulas práticas. A primeira parte do curso prático é chamada de Piloto Privado. São em média 40 horas de voo para finalizar essa etapa e tirar o 'brevê'. Com essa carteira de Piloto Privado, você já é um piloto habilitado, porém não pode ser remunerado por isso”, explicou.
Para quem, como Hugo, sonha em seguir carreira, essa é só a primeira etapa. Após se tornar piloto privado, é necessário uma segunda carteira, de piloto comercial.
Essa parte consiste em média de 110 horas de instrução. “Aí sim, tendo as duas carteiras (piloto privado e comercial), você já pode trabalhar como piloto. Claro que algumas áreas pedem algumas outras especializações como habilitação para pilotar avião multimotor (com mais de um motor), habilitação para pilotar avião por instrumentos e etc. Ou seja, além das duas carteiras "bases" (piloto privado e comercial), dependendo da área que você for atuar, precisa ainda se especializar”, detalhou.
A aviação tem inúmeras áreas para atuação de um piloto. Linha Aérea, Executiva, Agrícola, Instrutor de voo e inúmeras outras áreas de atuação. No caso de Hugo, seu objetivo é linha aérea. E ele sabe o quanto isso pode custar. “A aviação ainda é muito elitizada no Brasil. Hoje em dia, para você realizar o curso completo, você vai gastar na faixa de uns 100 mil reais. Esse valor, eu estou incluindo tudo, curso teórico, CMA, curso prático e etc”, exemplificou.
Hugo ainda explica que para conseguir horas de voo é necessário muito investimento. “A parte mais cara, claro, é a parte prática. Pois, basicamente, você está pagando o combustível do avião. Se hoje em dia combustível de automóvel está caro, imagine o de aviação. Minha família me apoia com o que pode, é claro. Estou indo aos poucos, pois o valor é bem elevado realmente. Mas eu sei que quem quer dá um jeito e não arranja desculpas. Tenho certeza que eu vou conseguir, pode demorar 5, 10, 15 anos, mas vai dar certo. Um dia após o outro, um voo aqui, outro ali, e assim vou indo.”
Mesmo com muita dificuldade, ele não desiste e permanece focado em seu sonho. “Atualmente estou com aproximadamente 32 horas de voo (quase terminando a primeira habilitação - piloto privado). O avião que estou voando atualmente (Aeroboero 115), custa aproximadamente R$ 580 cada hora de voo. Por isso, quanto menos recursos você tem, mais lenta é sua formação. Mas meu objetivo é ser comandante de linha aérea e eu chegarei lá”, finalizou.
Primeiro voo sozinho
Há uma longa jornada até que o piloto possa e consiga voar sozinho. Para Hugo essa é uma das suas mais importantes memórias. “Na minha 21° hora de voo, eu fiz o tão esperado voo solo. É uma das etapas mais esperadas de qualquer piloto aluno, pois será a primeira vez que você vai voar sozinho literalmente (sem a companhia do Instrutor no avião). Esse voo é inesquecível pra qualquer piloto. Lembro que assim que eu pousei, dei aquela olhadinha pra trás para confirmar se realmente o instrutor não estava comigo e comecei a berrar sozinho no avião que eu tinha conseguido”, contou emocionado.
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