Aos 69 anos de idade, Ana Claudia de Oliveira mora em São Paulo, onde é publicitária e professora de semiótica na PUC.
Na metrópole, Ana Claudia estudou as manifestações de graffiti, pixo e pixação, mas não se esqueceu das origens de sua escolarização, na zona rural de Ribeirão Preto e Sales de Oliveira, as quais inspiraram o capítulo “A Experiência da Construção do Saber”, que abre a obra Histórias de Quintal, a ser lançada nesta quinta-feira, 26.
Trata-se de um projeto interdisciplinar. O livro é dividido em quatro partes – Raízes, Florestas, Semear e Plantio, com um total de 25 coautores, prefácio de Kathia Castilho e apresentação de Diana Tatit.
Construção do saber
Em seu capítulo, Ana Claudia começa pela Escola Mista da Fazenda Santa Terezinha da Labareda, em Ribeirão Preto, onde aprendeu letras e números com a professora Alice.
“Minha avó materna enviou-me um embornal – tipo de saco no qual se alocam alimentos, mas usados para guardar objetos e coisas – de algodão rústico e minha avó paterna me mandou lápis preto, uma caixa de seis lápis de cor, um caderno pautado e outro sem pauta”, escreve ela. “Para uma menina da roça, encontrava-me muito equipada e, sinto ainda a alegria intensa de ter recebido esses objetos que fizeram de mim uma aluna aos três anos”.
Ato seguinte, passou a frequentar a Escola Mista da Fazenda Conquista, na rodovia Altino Arantes, em Sales Oliveira. Tornou-se aluna de Luzia Mei de Oliveira, sua mãe, professora envolvida na construção do saber de primeira a quarta série reunidas na mesma sala, hoje com 94 anos, e a quem dedica o texto e faz reverência.
“O método de ensino dessa normalista formada no Colégio Interno Santa Úrsula, de Ribeirão Preto, que tocava violino, cantava e conhecia de cor uma grande variedade de poetas que nos recitava e levava-nos a repeti-los de memória, marcou fortemente o meu modo concreto de apalpar o mundo para senti-lo para, daí, saltar para a sua representação”, diz ela.
“Localizava-se a escola, abaixo das quadras do terreiro de secagem dos grãos do café, após a sua lavagem nas águas do lavador, no alto, e sua distribuição por um sistema de canaletas nas quadras atijoladas por apropriadas carriolas cujas perfurações deixavam vazar as águas na distribuição das cerejas por linhas paralelas”, descreve. É com esse olhar focado na vivência que Ana Claudia vai construindo o seu texto, um mergulho no rico passado das escolas rurais do interior paulista, com o viés da semiótica da qual é especialista.
As letras e a cidade grande não afastaram seu vínculo com a terra. Ana Claudia possui propriedade rural em Restinga, cujo escritório fica em Franca, cidade que seus dois filhos mais velhos, Daniel e Juliana Thompson, escolheram para viver depois da faculdade. Seu pai, Saulo, é natural de Batatais, e a mãe, Luzia, de Orlândia. Ana Claudia morou em Paris de 1990 a 1994, onde fez dois pós doutoramentos com o criador da semiótica no final da década de 60, Algirdas Julien Greimas. Segundo ela, os filhos voltaram querendo viver em uma cidade em que pudessem ter mais liberdade de ir e vir.
"Vasculhar o passado"
Kathia Castilho, uma das organizadoras do livro, afirma que o capítulo da Ana abre o livro pela grande relevância da abordagem referindo-se não apenas à sua formação como ao trabalho de educadora de sua mãe e também o nascimento da escola da fazenda. "Ele traz duas gerações de mulheres que atuaram e atuam na educação de modo exemplar", afirma.
Sobre o conjunto dos artigos, Kathia diz que "pensávamos em resgatar práticas e dialogar com memórias que poderiam ser inspiradoras para leitores e escolas, mas não prevíamos que o resultado fosse criasse vínculos e sensibilidade tanto os leitores". Segundo ela, "vasculhar o passado e resgatar memórias foi um exercício muito bonito entre os autores".
Valores da comunidade
A condição dos pais para Ana Claudia cursar Língua e Literatura Vernáculas era fazer também uma profissão mais valorada no mercado. Em 1972, começou Letras na PUC-SP e, em 1973, Publicidade e Propaganda na ESPM. Foi da primeira turma de curso Superior da ESPM na rua 7 de abril,região central da Capital, São Paulo.
Em 1976, por meio de uma pesquisa sobre Comunicação e Expressão Verbal implementada no primeiro ano dos cursos de graduação da PUC-SP, iniciou o magistério e fez Mestrado e Doutorado no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica.
Exerceu a Consultoria de Mercado das Marcas durante décadas e pôde sempre problematizar os dados do mercado das marcas e do consumo de produtos e dos comportamentos do consumidor pela teoria semiótica. “Como teoria do sentido que edifica o social, a semiótica se funda em como as várias linguagens articulam nos seus discursos os valores que marcam uma comunidade, uma cidade, uma região”, diz ela. “Quando falamos não é só a voz que expressa, mas os gestos e a movimentação do corpo com seu ritmo”, pontua.
Na teoria semiótica, a professora segue o desenvolvimento de um colaborador de Greimas, Eric Landowski, que já foi várias vezes em Franca e com o qual ela tem acordo de colaboração na pesquisa.
Semiótica de linha francesa
Professora titular da Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Arte da PUC de São Paulo, Ana Claudia afirma que o seu capítulo “trata pela teoria semiótica de linha francesa do valor da experiência na construção do saber que envolve sensibilidade, intencionalidade e assumir os riscos da construção do saber”.
Nesse conceito, a semiótica é definida como o estudo dos procedimentos da apreensão e do entendimento do sentido. O mundo das pessoas é observado pela prática. “Estuda a construção do sentido, com elementos das várias linguagens, como espacial, visual, fotografia, pintura, audiovisual”, diz ela. “O valor da experiência é tornar aquilo que está ensinando (conhecimento) uma experiência de vida”.
Como exemplo, a escritora afirma no livro que “para concretizar ainda mais os sentidos de que o que se planta torna-se alimento, ou seja, um bem, uma mercadoria com valor socioeconômico, lembro-me de ter sido incitada a preparar um pudim com a rara baunilha que era cultivada pelos povos mesoamericanos pré-colombiano. Sabíamos desenhá-la por uma série de cópias que fizemos de uma gravura que a professora expôs na sala de aula”.
Quem é a autora
A ribeirão-pretana Claudia de Oliveira é professora titular da Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Arte da PUC de São Paulo. Atua no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica no eixo teórico da Semiótica discursiva. Codiretora do Centro de Pesquisas Sociossemióticas (CPS). Diretora da Revista Acta Semiotica. Publica nos campos da semiótica sincrética, semiótica das mídias, semiótica da arte, semiótica da moda, semiótica da cidade e semiótica das práticas sociais.
Lançamento
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Histórias de Quintal
- Editora Estação das Letras e Cores @estacaodasletrasecores
- 220 páginas
- 25 coautores
- Lançamento na Livraria da Travessa, no Ribeirão Shopping, nesta quinta-feira, 26, das 19h às 22h30.
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