ACESSIBILIDADE

Deficientes visuais sofrem para se locomover em Franca: 'É sobrevivência todo dia'

Por N. Fradique | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
Dirceu Garcia/GCN
Fernandes Dantas de Lima enfrenta dificuldades todos os dias ao deixar sua casa
Fernandes Dantas de Lima enfrenta dificuldades todos os dias ao deixar sua casa

As pessoas com algum tipo de deficiência buscam cada vez mais seus espaços e inclusão, seja no direito de ir e vir, no trabalho e nos momentos de passeio. Muitas dessas pessoas aprendem técnicas para superar as dificuldades do dia a dia, mas esbarram na falta de políticas públicas de acessibilidade. Em Franca, o processo de implantação de equipamentos que ofereçam autonomia a essa população está longe do ideal, principalmente para os deficientes visuais.

Fernandes Dantas de Lima, 38 anos, que perdeu a visão há três anos, devido à complicação de diabetes, enfrenta dificuldades todos os dias ao deixar sua casa no Jardim São Luiz, zona Leste de Franca, para realizar alguma atividade na cidade.

“A maior dificuldade que eu encontro é a falta do piso tátil, além de vários obstáculos, como portões abertos impedindo a passagem nas calçadas, carros estacionados de forma irregular e lixo. É de tudo um pouco. A gente mata um leão por dia. Deficiente aqui em Franca é sobrevivência todo dia”.

Fernandes conta que no início, quando perdeu a visão, necessitava da ajuda do filho para se locomover, principalmente quando ia ao Centro da cidade. Os calçadões, construídos há décadas, não contam com sinalização em braile, aviso sonoro nem piso tátil.

“Já caí em bueiro que estava sem a tampa e bati o corpo em lixeira. Hoje ando mais sozinho, mas no começo da minha deficiência andava com meu filho. Hoje, procuro fazer as coisas sozinho, mas sinto muitas dificuldades”, contou ele, que é casado e tem um filho de 16 anos.

Fernandes é um dos tantos deficientes que são atendidos pela Sociedade dos Cegos de Franca. A entidade oferece serviços de inclusão, capacitação profissional, treinamento de mobilidade e lazer.

“Todo mundo fala em socialização, acessibilidade, mas esperamos que esse discurso não vire uma utopia. Que as pessoas não olhem para o deficiente como um doente, que fiquem com dó. Que as pessoas possam criar políticas públicas de verdade, para nos auxiliar, ajudar as instituições como a gente tem aqui na Sociedade dos Cegos, porque os trabalhos que eles fazem são muito importantes”, atestou Fernandes, que integra a equipe de goalball (que se tornou modalidade paraolímpica) da entidade francana.

A terapeuta ocupacional da Sociedade dos Cegos de Franca, Ana Cláudia Carlo Magno, disse que além das dificuldades do cotidiano, os deficientes sofrem com a falta dos equipamentos, principalmente o piso tátil.

“Nós realizamos um dos trabalhos que se chama orientação de mobilidade, ensinando a andar com a bengala longa. Mas durante esse treinamento, a gente percebe que um dos grandes obstáculos não são as técnicas que a gente ensina, mas sim a falta de acessibilidade das condições das calçadas. São entulhos, não há o piso tátil que deveria ter para o deficiente visual se orientar. Muitos deficientes preferem andar na rua, correndo risco de perderem a vida. É uma necessidade urgente resolver essa questão de acessibilidade. São desafios muito grandes mesmo”.

A terapeuta diz que o número de pessoas que estão perdendo a visão vem crescendo, por isso, é necessária uma adaptação rápida das vias e aplicação da Lei de Acessibilidade. “Tem uma pesquisa recente da USP que diz que até 2050 vai dobrar o número de deficientes visuais. Estamos tendo um aumento na demanda nos atendimentos de pessoas adultas e também de idosos. Esperam-se mais politicas públicas que possam promover de fato uma acessibilidade, mas não de qualquer jeito e sim buscar profissionais especializados e principalmente ouvir a população com deficiência visual. Uma coisa é a gente ter empatia, outra coisa é ser deficiente. Franca está muito atrasada nesse processo de acessibilidade. A gente precisa de fato que as pessoas que estão no poder olhem isso com muito cuidado”, finalizou.

A Prefeitura de Franca abriu licitação para revitalização de duas praças no Centro de Franca (Praça do Itaú e 9 de Julho). O projeto contempla equipamento de acessibilidade, mas não apareceram empresas interessadas nas obras. A reportagem questionou a Prefeitura se há algum projeto para instalação de piso tátil nos calçadões do Centro da cidade, mas não obteve resposta.

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Comentários

1 Comentários

  • Fernando 11/09/2022
    Prefeitura de Franca é extremamente omissa em relação aos deficientes visuais. Não fiscalizam as construções e obras que invadem as calçadas com entulhos e materiais, comerciantes que invadem com cadeiras, mesas e toldos que não deixam os pedestres passarem, temos que desviar pela rua e correr risco de morte entre motos e carros em alta velocidade. Bem perto da prefeitura, no cruzamento das ruas Santos Pereira com Major Mendonça, tem um bar que ocupa toda a calçada com suas mesas e cadeiras e até uma churrasqueira! Se nem pedestre com visão normal consegue passar alí, imagina como fica a situação do deficiente visual? Pertinho da prefeitura e nenhum fiscal faz nada. Porque será? Alguém arrisca um palpite? A situação se repete na cidade toda e a Prefeitura segue omissa. Só aparece para cobrar nossos impostos. Até quando isto? E os vereadores que deveriam fiscalizar a prefeitura, onde estão? Sr. Prefeito, você prevarica no seu cargo quando ignora suas obrigações, quando não fiscaliza. O que tem a dizer? Qual a sua posição neste assunto? Os deficientes devem ficar eternamente relegados e excluídos dia seus direitos? Se seus familiares fossem deficientes visuais, seria diferente?