ASSÉDIO SEXUAL

'Estou com vontade de você', disse presidente da Caixa, segundo funcionária

Por Marianna Holanda | da Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min
Divulgação
Pedro Guimarães, presidente da Caixa, e Jair Bolsonaro
Pedro Guimarães, presidente da Caixa, e Jair Bolsonaro

Uma funcionária da Caixa Econômica Federal (CEF) diz em depoimento à Folha de S.Paulo que foi assediada por Pedro Guimarães, presidente da instituição. Ela afirma ter sido puxada pelo pescoço e ter ficado em choque após o episódio.

Com receio de sofrer retaliação do comando do banco, a mulher pediu para ter sua identidade preservada -será chamada pelo nome fictício de Roberta nesta reportagem.

Segundo ela, os assédios de Pedro Guimarães aconteciam diante de todos, dentro e fora da instituição. O caso foi revelado pelo portal Metrópoles na terça-feira (28), que relata a existência de uma investigação no Ministério Público Federal.

O caso narrado à Folha de S.Paulo por Roberta ainda não chegou às autoridades. "Não falei antes com medo e vergonha, e agora me sinto culpada porque penso que se tivesse falado antes, outras mulheres não teriam passado pelo que passei, nem por situações piores", afirma.

Roberta conta que, em uma ocasião, estava a sós com o presidente do banco, quando ele perguntou se ela "estava com ele". A funcionária entendeu, à época, que a pergunta era em relação ao governo. Ela teria, então, respondido que sim.

"Aí quando fui sair, ele me puxou pelo pescoço e disse: 'Estou com muita vontade de você'. Saí da sala, em choque e chorando", afirma ela. "Depois, em outro momento, ele já passou a mão pela minha cintura e foi abaixando, mas saí antes que piorasse."

Segundo a funcionária, Guimarães também tem hábito de dar "beliscões" em mulheres.

"As pessoas aceitam o abuso com medo da retaliação, do poder dele, isso é, perder a função. Ele te tira de uma posição de destaque, que você estudou e tem qualificação para estar lá, para te colocar numa função muito abaixo. Isso da noite para o dia, sem nenhum aviso", disse.

Guimarães, além de presidente da Caixa, é próximo do presidente Jair Bolsonaro (PL). Nos bastidores do governo, assessores afirmam que já chegou a pleitear a vaga de vice na chapa do chefe do Executivo.

Com a divulgação das acusações de assédio, o presidente Jair Bolsonaro (PL) escolheu Daniella Marques, braço direito do ministro Paulo Guedes (Economia), para presidir a Caixa Econômica Federal no lugar de Pedro Guimarães.

Além de desgaste para o governo, o casos poderia trazer danos à campanha de reeleição do presidente. Bolsonaro busca melhorar seu desempenho especialmente entre as mulheres, fatia do eleitorado em que tem alta rejeição.

De acordo com o portal Metrópoles ao menos cinco funcionárias da Caixa acusam Guimarães de assédio sexual. Em um dos relatos, uma delas diz que uma pessoa ligada ao presidente do banco perguntou o que fariam "se o presidente" quisesse "transar com você?".

Segundo a denunciante, ele estava na piscina e "parecia um boto se exibindo". Além disso, funcionárias recebiam chamados para ir no quarto de Guimarães, entre outros relatos.

O presidente da Caixa afirmou que tem "uma vida inteira pautada pela ética" e orgulho de como se portou ao longo da vida. O executivo, um dos mais próximos do presidente Jair Bolsonaro (PL), participou, na manhã desta quarta (29), de um evento da Caixa que inicialmente havia sido cancelado, após as denúncias serem divulgadas pelo site Metrópoles. Guimarães compareceu ao evento acompanhado da mulher.

"Quero agradecer a presença de todos vocês, da minha esposa. São quase 20 anos juntos, dois filhos e uma vida inteira pautada pela ética. Tanto é verdade que, quando eu assumi o banco, ele tinha os piores ratings [classificações] das estatais. [Foram] dez anos de balanços com ressalvas. E hoje a gente é um exemplo. Então tenho orgulho do trabalho de todos vocês e da maneira como eu sempre me pautei em toda a minha vida", afirmou.

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