Mais de 400 quilômetros percorridos em seis horas de viagem, ao lado do irmão, em uma excursão. Tudo isso para estar ao lado do “todo poderoso Timão”. Aos 15 anos, Stephany Aparecida dos Santos visitou a Neo Química Arena pela primeira vez no último sábado, 25. Sonho que por pouco não termina em pesadelo, ao tentar contato com o atacante corintiano Gustavo Silva, o “Mosquito”.
A paixão pelo Corinthians é de berço. O pai Renato Ribeiro Santos e o irmão Matheus Henrique Lourenço não perdem um jogo. Seja pela televisão, celular ou rádio, a família do Jardim Portinari está sempre reunida para acompanhar o "Coringão" em campo. “O Corinthians é tudo para ela”, diz a mãe Guiomar Aparecida Lourenço.
O irmão prometeu que a levaria para conhecer o estádio em um jogo oficial, mas com uma condição: tinha que ser uma boa aluna na escola. Stephany está no 1° ano do ensino médio na Escola Estadual "Prof.ª Helena Cury de Tacca". Dito e feito. “Foi aquela choradeira pela emoção de ir à arena pela primeira vez (...) era o seu maior sonho”.
Foi quando surgiu a ideia de fazer um cartaz para um de seus ídolos. Diferente de grande parte dos torcedores que escolheriam nomes já consagrados pelo clube, como o goleiro Cássio e o lateral direito Fagner, a francana optou pelo jovem atacante de 24 anos, Gustavo Mosquito.
“O amor pelo Gustavo começou quando ele voltou para o Corinthians, em agosto de 2020. Quando ele chegou ninguém acreditava, mas ela sabia que ele faria a diferença, e fez. Virou um dos ídolos desde então, como Fagner, Cássio, Renato Augusto, Paulinho e Mantuan”, explicou a mãe.
Mosquito foi emprestado ao Paraná Clube no início de 2020, onde disputou 13 partidas e marcou um gol, no empate em 2 a 2 contra o Confiança (SE), pela Campeonato Brasileiro Série B. Agora, ele defende novamente as cores do Corinthians. “Veio na cabeça dela fazer o cartaz achando que ele poderia ver. Demorou umas duas semanas para fazê-lo”.
A cartolina branca foi dividida no meio. No lado direito, um desenho do jogador usando sua camisa 19 com a bandeira do Corinthians no fundo. Já no lado esquerdo, um pedido mais do que especial: “Gustavo, essa é a minha primeira vez na casa do Timão. Me dá sua camisa para levar de recordação”.
Com o cartaz nas mãos, a menina desembarcou na capital paulista para acompanhar o clássico Corinthians e Santos, às 19 horas do último sábado, na Neo Química Arena, pela 14ª rodada do Campeonato Brasileiro Série A.
Foi na fila para entrar no estádio que a decepção começou. “Quando foi para entrar, o policial – muito mal-educado e arrogante – falou assim: ‘ou joga isso daí fora, ou você não entra’. Eles saíram da fila e foram jogar o cartaz fora”, narrou Guiomar.
“Mostra o que não pode entrar no estádio. Mostra o que eles fizeram você jogar fora. Vai, dobra e joga no saco. Joga no lixo, Stephany”, disse o irmão, em vídeo feito do lado de fora do estádio. Nas imagens, a menina chora, enquanto - cuidadosamente - enrola a cartolina e coloca num saco preto (veja o vídeo acima).
Neste momento, surgiu um anjo na vida da garota. “Uma PM feminina falou para colocar o cartaz no canto da lixeira. Talvez quando saísse do jogo (poderia) pegar ele de volta”. Foi o que Stephany fez. Deixou sua obra-prima com muito cuidado ao lado da lixeira e torceu para estar intacta ao final da partida.
Os irmãos entraram e se sentaram na arquibancada sul, atrás de um dos gols. Após os 90 minutos, como um “bom” clássico paulista, o jogo terminou 0 a 0. Mesmo sem a esperada vitória, o sonho foi realizado e a menina conseguiu reencontrar seu cartaz na saída. “Ela trouxe ele de volta, com muita tristeza, mas, pelo menos, ainda ficou com ele”.
“A gente olha e relembra toda a decepção que passou por causa de um simples cartaz, que não iria fazer mal a ninguém”, completa a mãe.
Apesar de não fazer mal, os policiais cumpriram a Lei Federal nº 10.671/03, Lei Estadual nº 9470/96 e a Resolução da Secretaria da Segurança Pública/SP nº 122/85, que vedam a entrada de objetos, como armas de fogo ou branca, fogos de artifício, garrafas e, até mesmo, papel em estádios de futebol no Estado de São Paulo.
A reportagem buscou contato com a assessoria do Corinthians sobre o caso, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.
Mesmo com toda a situação, o sonho de conhecer o jogador Gustavo Mosquito continua.
Caso semelhante
Stephany não foi a única que passou por essa situação na Neo Química Arena no último sábado. Em reportagem publicada pelo Globo Esporte no último domingo, 26, Vanessa Tavares saiu de Londrina (PR) para assistir ao clássico contra o Santos.
A partida tinha um significado a mais. Vanessa carregava um cartaz escrito: “Pai santista, filha corintiana. Você se foi num domingo de Corinthians x Santos (11/09/2016). Hoje estou aqui pela 1ª vez e trouxe você comigo. Obrigado PAI por ter colocado o futebol na minha vida”.
Assim como aconteceu com Stephany, a Polícia Militar do Estado de São Paulo vetou a entrada do cartaz no portão da arena. Mesmo sem a cartolina dentro da Neo Química, a mulher teve a oportunidade de falar com o Corinthians após o apito final e contou um pouco de sua história.
O clube, através de suas redes sociais, contou que Vanessa herdou a paixão pelo esporte de seu pai e no último sábado consegui homenageá-lo durante o clássico alvinegro. “Obrigado, seu Geraldo. E obrigado, Vanessa, por nos lembrar porque o futebol sempre vai nos emocionar”, finaliza a nota.
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