Mesmo com Franca sendo a cidade no Brasil que mais emprega no setor calçadista, com mais de 13 mil postos de trabalho gerados em 2021, segundo o relatório da indústria de calçados de 2022, a falta de mão de obra em bancas de pesponto vem se tornando um problemão para os fabricantes de calçados.
A remuneração vinda das indústrias calçadistas maximizou a migração de quem trabalhava em bancas para outras áreas. Atualmente, a média do par de calçado pago pelas fábricas varia de R$ 6 para sandálias até R$ 15 para botas de cano alto.
O dono de uma banca no Jardim São Francisco, Claudinei Mendes de Carvalho, de 55 anos, chegou a ter seis funcionários, mas devido ao alto custo de um funcionário e o baixo custo do par de sapatos, atualmente trabalha somente com a mulher.
“Não tem como pagar funcionário devido ao preço que os patrões pagam no par de sapatos. Não cobre os custos. Cola, linha, manutenção de máquinas, encargo de pessoal, é tudo muito caro. Por outro lado, tem a desvalorização do salário dos sapateiros junto à falta de mão de obra qualificada”, contou o pespontador e proprietário de banca.
João Carvalho, que também tem banca em casa há mais de 15 anos, afirma que quando questionava o preço do valor do par de calçados era intimidado pelos proprietários. “Isso que está acontecendo hoje é pela desvalorização de bancas na cidade. É um absurdo o custo da cola e linha ser do dono de banca já que o sapato é deles (fábricas). Houve vezes que fui questionar o valor e ouvia que ‘se quiser é isso, tem muita banca parada que faz o preço’. Pra mim, o que está acontecendo hoje é o reflexo destas atitudes”.
Depois que a falta de mão de obra ficou mais escassa em Franca, algumas fábricas mudaram os preços dos calçados passados para as bancas, mas para João isso é momentâneo. “Quando baixar as vendas, eles voltam a ser como antes. A maioria esmagadora dos patrões é imediatista”, critica o proprietário.
Claudinei também critica a baixa remuneração das bancas. “Não tem mais mão de obra qualificada porque hoje tanto faz ser sapateiro ou trabalhar em qualquer outro setor. Antes o salário dos sapateiros era de quase dois salários mínimos, hoje tá praticamente igual”.
Aparecido dos Santos fala que a briga com os donos de fábrica para aumentar o preço do produto é constante, mas toda vez que tem aumento, aparecem novos modelos mais "fáceis" de fazer. "Eles aumentam o preço em centavos e duas semanas depois já vem com outro modelo mais barato. Pagando menos. Eles usam isso há anos. Então, pra você ter uma renda razoável, trabalha muitas horas por dia. Banca é escravidão. Trabalha sábado, domingo e feriado. Hoje, eu não faço mais isso, mas antigamente já fazia isso. Desde quando comecei em 1976", diz ele.
Pandemia potencializou falta de mão de obra
Para o Sindifranca (Sindicato das Indústrias Calçadista de Franca), o problema de mão de obra não é exclusividade do setor, mas também atinge as áreas do comércio eletrônico, construção civil e têxtil.
José Carlos Brigagão do Couto, presidente do sindicato, diz que para os fabricantes não existe uma causa, mas sim um conjunto de fatores para haver falta de bancas e profissionais.
"A crise do setor em 2019 fez com que a produção de calçados apresentasse uma queda, o que levou muitas empresas a fechar vagas. Em 2020, o Governo de São Paulo elevou a aliquota de ICMS nas vendas internas para lojistas optantes do Simples para 18%, o que reduziu drasticamente nossa competitividade no mercado de São Paulo, responsável por mais de 40% de nossas vendas", contou Brigagão.
Além da falta de competitividade, a vinda da pandemia fez com que os trabalhadores da área do sapato mudassem de ramo. Muitos foram demitidos de seus empregos de anos. "As pessoas que dependiam do emprego da indústria calçadista foram obrigadas a buscar outros meios para garantir renda, e isso provocou uma migração para outros setores, como o de serviços. Essas podem ser algumas das causas para a falta de mão de obra neste momento" continuou o presidente do sindicato.
Qualificação pode ser a solução
Com a defasagem de profissionais da área, o sindicato tem buscado parcerias com o Senai para abrir cursos de corte e pesponto.
Para o orientador de prática profissional do Senai Salatiel Rodrigo, as oportunidades em áreas tecnológicas, motoristas de aplicativo, prestação de serviços, entre outras, afastaram o interesse de muitas pessoas na indústria calçadista.
"Eu acredito que muitas destas pessoas se reinventaram e transferiram de atividade. Não quis trabalhar com pesponto mais. Não se remunerava bem. Então chegou a ter muita mão de obra e pouco serviço. As pessoas se relocaram e agora não querem voltar para o sapato", comentou Salatiel.
O Senai é parceiro das indústrias de Franca. Segundo Salatiel, a procura na área de pesponto vem aumentando gradativamente conforme a a demanda das empresas.
"Nós montamos cursos gratuitos para área do calçado. São treze turmas, com 16, 18 alunos em média. Serão 200 qualificados para poder atuar. O que houve para gerar essa falta de profissionais é que durante a pandemia não houve turmas. Então, agora estamos voltando e criando novas turmas".
Ainda segundo o Sindfran, a escola Senai está colaborando com instrutores para dar as aulas, cuja duração prevista é de dois meses. "Esta é uma forma de valorização do trabalhador que já está dentro da empresa, um plano de carreira. Já temos indústrias implantando o projeto", finalizou Brigagão.
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