LIGAÇÕES

Bolsonaro estava com ministro da Justiça no dia de conversa citada por Milton Ribeiro

Por Fabio Serapião e José Marques | da Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min
Divulgação/Presidência da República
Ministro da Justiça, Anderson Torres, e presidente Jair Bolsonaro: juntos nos EUA no dia da suposta ligação do presidente ao ex-ministro Milton Ribeiro
Ministro da Justiça, Anderson Torres, e presidente Jair Bolsonaro: juntos nos EUA no dia da suposta ligação do presidente ao ex-ministro Milton Ribeiro

O presidente Jair Bolsonaro (PL) estava nos Estados Unidos com o ministro da Justiça, Anderson Torres, quando, segundo Milton Ribeiro, telefonou para avisar sobre um "pressentimento" de que haveria uma operação da Polícia Federal contra o ex-ministro da Educação.

Como titular da Justiça, Torres tem sob a aba do seu ministério a Polícia Federal, responsável pela operação Acesso Pago, que prendeu e fez busca e apreensão em endereços de Ribeiro e pastores citados em irregularidades na liberação de verbas do MEC (Ministério da Educação).

O atual diretor-geral da PF é Márcio Nunes, amigo de Torres. Ele ocupava o cargo de secretário-executivo da Justiça antes de ser nomeado como chefe do órgão.

A Folha apurou que a ida de Torres na comitiva com Bolsonaro foi decidida de última hora e que, a princípio, não havia previsão para o ministro acompanhar o presidente na Cúpula das Américas. Procurado, o ministro da Justiça não respondeu.

O suposto vazamento da operação e a suspeita de interferência de Bolsonaro na investigação resultaram em pedido do MPF (Ministério Público Federal) para que o caso fosse enviado ao STF (Supremo Tribunal Federal).

A solicitação foi aceita pelo juiz Renato Borelli, da 15ª Vara Federal de Brasília, que encaminhou o inquérito para a ministra Cármen Lúcia, do Supremo.

Em sua decisão, o magistrado citou que o MPF apontou o "indício de vazamento da operação policial e possível interferência ilícita por parte do presidente da República Jair Messias Bolsonaro nas investigações".

O MPF e a PF sustentam a versão de possível vazamento e interferência com base em interceptações telefônicas feitas ao longo da investigação.

"Pressentimento"
Em conversa em 9 de junho com sua filha, Ribeiro disse que falou com Bolsonaro naquele dia e que ele teria dito estar com o "pressentimento" de que iriam atingi-lo por meio de uma investigação contra o ex-ministro.

"Hoje o presidente me ligou, ele está com pressentimento, novamente, que eles podem querer atingi-lo através de mim. É que tenho mandando versículos para ele", disse Ribeiro na conversa revelada pela GloboNews e confirmada pela Folha.

Questionado pela filha sobre se Bolsonaro queria que o ministro parasse de enviar mensagens, Ribeiro negou e citou a suspeita levantada pelo presidente. "Não, não é isso. Ele acha que vão fazer uma busca e apreensão... em casa... sabe... é... é muito triste", disse.

"Rumores do alto"
Outra conversa, gravada na quarta, 22 — dia em que Ribeiro foi preso —, reforça a tese da PF de que o ex-ministro foi informado com antecedência sobre a possibilidade de ocorrer uma operação contra ele. Segundo a esposa disse a um interlocutor de nome Edu, Ribeiro "não queria acreditar", mas os "rumores do alto" apontavam que uma operação iria ocorrer.

"Ele tava, no fundo ele não queria acreditar, mas ele estava sabendo. Para ter rumores do alto é porque o negócio estava certo", disse a esposa de Ribeiro no telefonema.

A cronologia dos atos dentro da investigação mostra que em 9 de junho, quando Bolsonaro estava com Torres nos Estados Unidos, o delegado Bruno Calandrini já havia solicitado as buscas e apreensões contra Ribeiro.

O pedido foi feito em 4 de abril e autorizado pelo juiz Renato Borelli, da Justiça Federal do Distrito Federal, em 17 de maio.

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