MISÉRIA

'Estou nessa vida porque eu escolhi', diz mulher que mora debaixo de viaduto

Por N. Fradique | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
Kaique Castro/GCN
Kely em frente sua casa, debaixo do viaduto da rua General Telles, na avenida Antônio Barbosa Filho
Kely em frente sua casa, debaixo do viaduto da rua General Telles, na avenida Antônio Barbosa Filho

O cenário em Franca já não é muito diferente se comparado com outras grandes cidades. Em vários pontos existem pessoas morando em praças, debaixo de marquises e viadutos. Por mais que o poder público venha buscando tirar essas pessoas das ruas, disponibilizando equipamentos e programas sociais, essa população cresce a cada dia.

Algumas pessoas em situação de rua chegam a montar barracas em vias públicas, passando a ser mais um morador daquele local. Isso ocorreu com um casal que vive em um barraco construído debaixo do viaduto da rua General Telles, na avenida Antônio Barbosa Filho.

Um morador de rua construiu uma "casa" que chama a atenção de quem passa pelo local por conta do tamanho – aparentemente com 3 m² –, feita de vigas, madeirite e lonas. Tem colchão, utensílios domésticos, porta e janela.

Ali mora um casal, como tantos outros espalhados pela cidade vivendo em condições sub-humanas. A moradora Kely Aparecida Feliciano, 21 anos, disse que é de Itápolis e seu companheiro é do Paraná, sem saber citar qual a cidade. Kely disse que o marido se chama Ademir Tiago, conhecido por "Índio", tem 44 anos e já foi preso por tráfico.

Ela veio morar em Franca para um tratamento em uma "residência inclusiva" e depois realizou um tratamento no Hospital Psiquiátrico "Allan Kardec". Ela conta que há cinco meses conheceu Índio em uma "pracinha" e passou a morar com ele em um prédio abandonado no Centro da cidade.

“A nossa casa pegou fogo e tivemos que procurar outro local. Estamos juntos há cinco meses”, disse Kely. O prédio que ela se refere é a antiga boate Tio Sam, que pegou fogo no começo de abril.

No momento em que ela recebeu a reportagem, na quinta-feira à tarde, o companheiro não estava no barraco. Kely disse que Índio vende sucata e tinha saído para trabalhar. Revelou também que na parte da manhã havia se drogado com crack, acrescentando que o companheiro também é usuário de drogas.

“Às vezes, as pessoas julgam a gente. Eu acho que não é justo isso, a gente é ser humano como todo mundo. A gente não merece ser tratado como lixo, como pessoas sem valor”, disse.

Enquanto ela conversava com a reportagem, ratos e baratas eram vistos entrando e saindo das frestas entre as pedras do paredão de sustentação do viaduto.

Perguntada se sente saudade da família, Kely ficou em silêncio alguns segundos, mas respondeu: “Eu estou nessa vida porque eu escolhi. Toda família minha sofre com o vício. São usuários de drogas e alcoólatras. Eu quis seguir o mesmo caninho de minha mãe, minha avó... Eu experimentei a droga e acabei gostando”, disse a jovem, que se mostrava ansiosa e seu olhar buscava algo distante a todo momento.

Questionada se a Ação Social da Prefeitura os procuraram nesse período, Kely disse que sim. “Eles falaram que a gente não pode ficar aqui. Pra gente procurar uma casa e que não merecemos essa vida. Eles falaram que somos tão novos, para que ficar nessa vida? Falaram pra gente seguir outro caminho, mas a gente é viciado e fazemos de tudo para usar”.

A Prefeitura implantou vários programas sociais, inclusive o “Moradia Primeiro” para casais que queiram deixar as ruas. “Não quisemos ir, porque a gente é morador de rua. A gente já acostumou na rua. A gente quer essa vida mesmo”.

Segundo um censo realizado no começo do ano pela Ação Social, a cidade tem, pelo menos, com 514 moradores de rua. Franca conta com vários focos de barracas espalhadas pela cidade. Inclusive, no mesmo viaduto da General Telles, existe outra barraca com quatro habitantes.

Recentemente, a Prefeitura retirou as barracas que estavam instaladas sob o viaduto Dona Quita, na avenida Alonso y Alonso, e fez do local um ponto de apoio a entregadores.

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