Aos 70 anos de idade, José Alves Barbosa continua com as mãos firmes. Frequentador assíduo de “peladas” – cinco por semana, para ser mais exato – 'Zé', como é conhecido, não precisa de muito para ser feliz: basta um par de luvas e dois times em campo. “Tem vezes que minha coluna e pescoço travam, mas eu amo jogar bola. Me sinto bem. Tem algo no futebol que não sei explicar."
Nascido em Claraval (MG), Zé cresceu em Guará (SP), mas ainda criança foi para uma fazenda, junto com os pais, no interior do Estado do Goiás. Em 1969, ele e sua família vieram para Franca, onde estudou, trabalhou e construiu sua família.
"Meu pai era pedreiro e falou: 'quem arrumar serviço, vai trabalhar. Quem não arrumar, vai trabalhar comigo de servente'. Em quinze dias eu arrumei um serviço (risos) para não ser servente. Então virei sapateiro."
Mesmo trabalhando na fábrica, Zé só pensava em uma coisa: realizar seu sonho de ser jogador de futebol. Santista de coração, começou jogando na lateral, mas após o goleiro do seu time faltar para um jogo, ele foi para debaixo das traves e nunca mais saiu da posição.
"Comecei disputando campeonatos juvenis, porque não tinha amador. Eu sempre tive o sonho de ser jogador de futebol. Em um jogo lá do bairro onde morava, um goleiro machucou e fui pro gol. Joguei bem e nunca mais parei de ser goleiro".
Depois de se destacar em alguns jogos amadores, jogou no Corintinha e no Laranjeira, times da várzea da cidade, até chegar a jogar na Francana junto com seu irmão, que se lesionou. Com isso, Zé se assustou e se afastou dos campos profissionais.
"Meu irmão jogava na Francana e machucou o joelho. Eu, vendo aquela situação dele, dei uma desanimada do futebol. Mas a vontade de estar em campo era maior. Fiquei jogando os varzeanos e campeonatos amadores da cidade."
Nos torneios, Zé passou a ser bastante conhecido pelos campos francanos, não só pelo número de partidas jogadas por semana, mas também por ser um bom goleiro. Apesar disso, ele nunca conseguiu despontar em um time profissional, sonho de muitos brasileiros.
Em 1975, diz que chegou a ser convidado a jogar pelo Corinthians, em São Paulo, mas a parte financeira não deixou que ele seguisse esse caminho. "Naquela época, a gente não tinha muito dinheiro, e eles não pagavam nada. Então, vim embora. Voltei a disputar os campeonatos de Franca e região.”
Depois que desistiu de ser jogador profissional, o goleiro conheceu sua esposa, Marcia Aparecida dos Santos Barbosa. Zé conta que jogava bola todos os dias, e dividir seu tempo entre trabalho, casa e seu amor maior, “o futebol”, foi um desafio.
"Minha paixão a vida inteira foi o futebol. Minha esposa brigava direto comigo. Teve dia dela falar 'a bola ou eu'. Mas eu falei pra ela que quando a gente tinha casado eu jogava bola. Só que, é lógico, eu estava jogando muito, então dei uma diminuída. Jogava todos os dias, passei a jogar três vezes por semana e estava em casa na hora combinada. Deu tudo certo, eu nunca deixei de fazer minhas obrigações por causa de bola."
Como nada foi capaz de parar Zé, nem mesmo a idade, somente uma lesão o faria se afastar dos gramados. Uma contusão no joelho fez com que ele ficasse um bom período (dois anos) sem ir aos campos de futebol. Porém, após se recuperar, voltou e jogou várias Copas EPTV por Franca e outras cidades da região.
Com o passar dos anos, Zé continuou jogando três vezes por dia. Há oito anos, sua mulher morreu de embolia pulmonar e, para tentar distrair a cabeça, voltou a intensificar o ritmo de partidas, mesmo tendo uma artrose na coluna cervical, o que fez com que tivesse problemas de postura.
"Eu não sei como eu consigo. Tem vezes que minha coluna trava, o pescoço, mas eu amo jogar bola. Eu me sinto bem. Quando tem semana que eu não jogo bola, eu fico um bagaço, e quando jogo fico bem. Meu corpo acostumou. Tem algo no futebol que não sei explicar. Sei que é minha paixão", finalizou.
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