DIA DO TRABALHO

Provisório na pandemia, 'online' vira rotina permanente para trabalhadores

Por Heloísa Taveira | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Dirceu Garcia/GCN
José Benedito entrou no mercado virtual durante a pandemia e hoje fatura quatro vezes mais
José Benedito entrou no mercado virtual durante a pandemia e hoje fatura quatro vezes mais

Quase todas as funções, independente da área, sofreram adaptações durante o período de pandemia. A grande salvação em quase dois anos de surto de covid-19 foi a internet: aos que já usufruíam da ferramenta, ela se tornou ainda mais primordial, já para os que não a utilizavam, foi como uma grande divisora de águas para o lucro no fim do mês.

Mas o que era para ser apenas temporário, mesmo com o fim do isolamento social, se transformou na principal ferramenta de trabalho, substituindo as formas de emprego que muitas pessoas tinham antes da pandemia.

O programador Erik Junqueira, de 28 anos, trabalhava como desenvolvedor no Magalu, em Franca. Com a restrição do contato físico nos momentos mais críticos da pandemia, a empresa optou pelo trabalho home office para a maioria dos funcionários. Conforme o cenário epidemiológico foi melhorando, as equipes voltaram paulatinamente ao esquema presencial. Houve algumas exceções - Erik foi uma delas.

“Havia uma visão, no começo, de que a gente poderia voltar presencialmente quando a pandemia acabasse, só que deu tão certo quando os desenvolvedores foram para casa que as coisas continuaram assim e o pessoal gostou, tanto a empresa, quanto os desenvolvedores”, explica

Essa foi a primeira experiência de Erik trabalhando em casa. Desde então, com toda a praticidade, conforto e produtividade que encontrou, o home office passou a ser exigência em qualquer outra empresa que fosse trabalhar. E assim aconteceu.

Poucos meses depois, o desenvolvedor francano integrou-se à empresa americana FullStack Labs, com sede na Califórnia, onde desenvolve aplicativos. A empresa de softwares recebe propostas de vários clientes pelo mundo todo. Erik, junto com seu time de três americanos, uma ucraniana, um boliviano e mais um brasileiro, atende um desses clientes. Tudo sem sair de casa.

“A maior vantagem é o tempo que você economiza. Acordar cedo, pegar o carro, ir até a empresa, procurar lugar para estacionar dependendo do local, fora o preço da gasolina... Acho que nem aceitaria mais um trabalho presencial”, reforçou Erik. “Na empresa, basicamente tenho que completar oito horas no dia, sem horário fixo, por conta do fuso. Às vezes se eu preciso sair à tarde, eu compenso à noite. É uma liberdade muito boa”.

Erik trabalha com um time de pessoas de vários países

Além da liberdade, Erik elogiou a experiência de poder ter contato com pessoas do mundo inteiro sem precisar se deslocar. Para haver essa integração entre os times e com os clientes, as reuniões são todas em inglês, por isso é necessário o domínio do idioma.

Atualmente, Erik se concentra em um único cliente, a organização religiosa Faith Comes By Hearing. Essa é uma empresa sem fins lucrativos que recebe doações de pessoas de vários países. Para o cliente, o francano trabalha em um aplicativo que lê e traduz praticamente todos os formatos de bíblias existentes.

“No banco de dados deles, têm catalogados quase todos os tipos de bíblia que existem, protestante, católica ou qualquer outra e em todas as línguas. O aplicativo tem o objetivo de entregar as bíblias para todos e em todos os idiomas possíveis. A pessoa poder baixar gratuitamente o aplicativo, escutar a bíblia, criar um plano de salmos, pode fazer playlists, fazer anotações, fazer download... Conteúdo não falta”. O nome do aplicativo, que já está no ar e teve a colaboração de um francano, é Bibleis.

Migração do físico para o digital
Desde o início na carreira, Erik se preparou para trabalhar com ferramentas tecnológicas. No entanto, em um outro ponto de Franca, o vendedor José Benedito Filho, de 60 anos, “quebrava a cabeça” para utilizar a internet.

José trabalha com vendas há 40 anos e há 11 tem uma loja de instalações e utensílios comerciais. Durante a pandemia, teve que fechar o comércio que era a fonte de renda da família e decidir tentar uma experiência digital.

“Antes da pandemia eu já estava observando que os clientes da loja demandavam certas coisas on-line, mas eu não tinha tempo suficiente, nem interesse para esse tipo de coisa, porque a gente mais velho tem mais dificuldade. Só que aí não teve jeito, quando fechou de vez, passamos a dar uma atenção maior ao e-commerce. Pensei: ‘vamos abrir uma continha no Mercado Livre pra ver se tem resultado’”, disse José Benedito.

No início, foram muitos obstáculos. Dois ou três meses depois, quando o comércio pôde reabrir as portas, José já estava com uma conta comercial e decidiu continuar, inclusive com produtos diferentes do que vendia na loja física. O foco principal passou a ser a venda de espelhos.

“No ano passado, conversando com um fornecedor de vidros. Ele disse que não estava conseguindo atender por conta da demanda. Então eu, que já estava pesquisando mercado, percebi que dava para fazer isso também, ainda mais que já mexíamos com material de loja. Coloquei espelho e começou a dar certo.”

Para o vendedor, é totalmente diferente os protocolos de um atendimento on-line e físico. “Aqui o cliente chega, a gente conversa e tenta convencer do produto. No on-line não, se o cliente não agradou, ele já passa para o próximo muito rápido. Isso me exigiu uma atenção muito maior e acabou mudando o foco. Antes o cliente que entrava aqui e eu corria para atender ele, hoje eu tenho que correr para o computador”, falou José.

Ainda aprendendo a usar a internet, o vendedor afirma que não pretende parar. A loja, que tinha três funcionários, saltou para sete, e o faturamento aumentou. O online representa quatro vezes mais do os resultados da loja física.

“Não pode ter falha no digital, se não te excluem. Isso é muito importante até para a loja física, para aprender que não pode errar com o cliente. Tenho carinho pela venda física porque faz 40 anos que eu mexo com loja, eu gosto. Só sobrevivemos dela até hoje, mas no e-commerce não precisa de aluguel, não tem despesa de estoque... Vejo como o futuro. Vai chegar um momento em que lojas físicas serão poucas no mercado.”

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