Uma criança sofreu desnecessariamente por 21 dias com um pedaço de madeira no pé por conta de um diagnóstico equivocado. No dia 28 de março, Kawan Moraes, de 11 anos, deu entrada na UPA (Unidade de Pronto-Atendimento) do Aeroporto, em Franca, com dores, e o atendimento médico avaliou à família que a lesão era por conta de picada de aranha.
Segundo a mãe, Andrea Aparecida de Moraes, até mesmo a espécie do animal peçonhento foi descrita: aranha-marrom. “Ele (médico) receitou 14 injeções de 500 mg para tomar em casa, duas por dia, por sete dias. Dentre três ou quatro dias, a criança não teve melhora”, conta a mãe.
Por conta da evolução do estado do pé de Kawan e do ferimento que se agravava cada vez mais, com pus e sangue, Andrea levou novamente o filho à mesma unidade de saúde. Os médicos continuaram a dizer que o sintoma seria efeito da suposta picada, e que a aranha era venenosa. Mais um combo de 14 injeções de 1.000 mg foi receitado.
“Nada de melhora, só piorando. Febre, vômito... Pensei que aquilo ali estaria errado e levei pela terceira vez. A médica olhou e disse: ‘Mãe, isso aqui é trombose. Por causa da picada, pode ter acontecido uma trombose, vou pedir um ultrassom para ver’”, lembra Andrea.
A preocupação, que já era grande, só aumentou. Como o ultrassom na rede pública demoraria algumas semanas, a mãe procurou uma clínica particular para realizar o procedimento. “Somente nessa clínica é que eu soube de fato o que era. A médica (da clínica) descartou a trombose. Era uma farpa de três a quatro centímetros que precisava ser retirada urgente”.
Mais uma vez, Andrea voltou com o filho à UPA do Aeroporto. Entre o dia em que a criança deu entrada, até o caso ser resolvido, a mãe foi até a unidade de pronto-atendimento por pelo menos seis vezes. E mesmo com o diagnóstico da farpa no pé, ele ainda precisaria esperar por mais dias para a retirada do objeto pela rede pública de saúde, já que, para o atendimento na UPA, não era um caso de urgência.
“Eu perguntei como que não era caso de urgência. Ele não estava podendo nem pisar no chão, faltando da escola todos os dias, com febre e dor”. Andrea ainda tentou agilizar o processo, mas acabou retornando à clínica particular para fazer a retirada do pedaço de madeira.
“Eu, como mãe, vendo meu filho sofrer, não podia assistir quieta essa situação. Fui, paguei uma consulta, o médico falou que teria que tirar urgente mesmo, e com uma pinça ele fez o procedimento no menino em 20 minutos”. A retirada foi feita na última segunda-feira, 18.
Lasca de madeira de aproximadamente 4 centímetros retirada do pé do menino - Reprodução
Ao todo, Andrea gastou cerca de R$ 1,8 mil com medicações e gastos na clínica privada, fora os dias em que teve que fechar seu comércio. A mãe afirma que vai entrar com um processo contra a Prefeitura de Franca por conta do atendimento que considera inadequado na UPA do Aeroporto.
“Vou processar, estou muito bem documentada, com todos os papéis. Eu fui na UPA de madrugada, de noite e de manhã falando que aquilo não estava certo, que só piorava e não resolveram nada para o meu filho. A gente ainda tem cartão, tem carro e disponibilidade, mas e os pais que não tem?”, questionou a mãe.
A Prefeitura
A Prefeitura ainda vai avaliar os procedimentos adotados durante o atendimento da criança e encaminhou o caso ao Conselho de Ética Médica.
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