IMORTAL

Gilberto Gil toma posse na ABL e fala em 'impulso de civilidade' e 'esperança'

Por Gustavo Zeitel | da Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min
Reprodução/Twitter Gilberto Gil
Gilberto Gil, aos 79 anos, durante cerimônia de posse na ABL
Gilberto Gil, aos 79 anos, durante cerimônia de posse na ABL

"É um impulso natural de civilidade. Em alguns momentos da vida, me dediquei a aspectos dessa dimensão civil, no debate de ideias e ideologias. A gente precisa sempre estar mais contributivo", afirmou o cantor e compositor Gilberto Gil, de 79 anos, na cerimônia de posse da cadeira número 20 da Academia Brasileira de Letras, a ABL, na noite desta sexta-feira, 8.

O novo imortal foi recebido pelo acadêmico Antonio Carlos Secchin. Já a aposição do colar foi realizada pela atriz Fernanda Montenegro, que ingressou, há duas semanas, no Petit Trianon.

Gil começou o discurso ressaltando que é o primeiro representante da música popular brasileira na ABL. "E aqui é um momento especial, porque a ABL é a casa de Machado de Assis, escritor universal e afrodescendente como eu" disse. "Poucas vezes artistas, produtores culturais foram hostilizados como agora. Há um movimento em prol da desrazão nas redes sociais e a ABL pode contribuir para esse debate civilizatório."

E prosseguiu: "O que será do Brasil em meio a esse mundo de pandemias e guerras? O que os políticos estão fazendo para acabar com a fome e o analfabetismo? Quando vamos alcançar a independência tecnológica e científica? Até quando seremos o país do futuro de [Stefan] Zweig? Apesar dos tempos politicamente sombrios em que vivemos, aposto na esperança".

Em novembro do ano passado, Gil havia sido eleito, após receber 21 votos na disputa com o poeta Salgado Maranhão (sete votos) e o escritor Ricardo Daunt (nenhum voto). Ministro da Cultura de 2003 a 2008, ele ocupará a vaga deixada pelo jornalista Murilo Melo Filho, morto em maio de 2020.

O poeta, filósofo e acadêmico Antonio Cicero, autor de sucessos da MPB, como Virgem, comentou a posse de um representante da música popular na ABL.

"Espero que essa polêmica entre letra de música e poesia tenda a terminar. Eu estou confiante, porque é uma tendência moderna. Ao mesmo tempo, é um reconhecimento da antiguidade, quando os poemas eram cantados. A tendência é que o debate sobre o que é literatura se aprofunde."

Expoente da Tropicália nos anos 1960, movimento que revolucionou a música brasileira, a eleição de Gil simboliza o fortalecimento da representatividade negra entre os acadêmicos, indicando mais uma etapa do processo de modernização da ABL -iniciada com a posse de Fernanda Montenegro, "uma mulher do palco", como se definiu em seu próprio discurso.

Autor de discos fundamentais para a história da MPB -Gilberto Gil (1969), Expresso 2222 (1972) e Refazenda (1977)-, Gil teve o conjunto de seus poemas reunido no livro Todas as Letras, editado em 1996, com organização de Carlos Rennó.

A cadeira número 20 tem como patrono Joaquim Manoel de Macedo e fundador Salvador de Mendonça. Antes de Gil, ocuparam a vaga Emílio de Meneses, Humberto de Campos, Múcio Leão e Aurélio de Lyra Tavares -ministro do Exército e um dos signatários do AI-5, em 1968, que vitimou o próprio Gil.

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