Quem mora ou visita Franca percebe que a situação de moradores de rua se agravou nos últimos dois anos. Mas nenhuma das situações que geraram reclamações escancarou tanto o problema que a Prefeitura - e também a sociedade civil - tem em suas mãos como dois episódios registrados na cidade na última semana. Um incêndio na antiga boate Over Night e a ameaça física a uma vizinha do Centro Pop por muito pouco não terminaram em tragédias.
Moradores do quarteirão da rua Saldanha Marinho, no Centro, passaram por apuros durante o incêndio da última segunda-feira, 4. As chamas foram tão altas que pessoas de outros bairros registraram as cenas, enquanto alguns ouviam explosões.
As causas do incêndio ainda serão investigadas pela Polícia Civil, mas uma coisa é certa. A boate era usada como moradia e ponto de uso de drogas. A principal suspeita dos vizinhos do imóvel incendiado é que andarilhos que invadiram o local, ao queimar fios de cobre, tenham provocado as chamas iniciais que causaram a megadestruição.
No dia do incêndio, o analista de poços Gerson Nunes disse que, depois da morte do proprietário do imóvel, em outubro do ano passado, a situação ficou sem controle.
“Depois que o Gilson (de Souza, ex-prefeito) fez aquele decreto que não pode fazer nada com os moradores de rua, está sem controle. É todos dias eles roubando fios aqui no bairro. Depois que o dono morreu, o barracão ficou tomado por esses nóias”, disse ele.
A situação para os vizinhos do prédio da antiga boate, que hoje está destruído, é critica. De acordo com o proprietário do hotel Econômico, Rogério Novais, de 50 anos, todas as pessoas que dormiam no local eram usuários de drogas.
“A região do Centro está abandonada. O Centro não pode acabar. Franca tem 400 mil habitantes, mas se o poder público não agir, daqui a cinco anos Franca será igual São Paulo, e o Centro será igual a uma ‘cracolândia’. A praça é cheia de moradores, cheia de traficantes, então, tá difícil”, afirmou Rogério.
O empresário teve que gastar mais de R$ 1 mil para consertar os muros que ficam ao lado da antiga boate. “Já comprei os materiais e vou ter que arrumar. Olha o prejuízo. Vou ter que parar meu trabalho para consertar o muro aqui, se não eles pulam nas casas e praticam furto. É muito complicado”.
Depois do caso da região Central, nesta quinta-feira, 7, Solange Aparecida Borges, moradora da Vila Formosa, precisou ir até a CPJ (Central de Polícia Judiciária) após sofrer uma tentativa de agressão por um morador de rua dentro do Centro Pop.
Solange faz parte de um grupo de pessoas que busca uma solução para os problemas que os vizinhos vêm enfrentando desde a instalação do serviço social no bairro. Ela contou que a tentativa de agressão aconteceu após uma reunião no local.
“Me chamaram para uma reunião dentro do Centro Pop, eu fui e tentaram me agredir. Algumas pessoas evitaram o pior. Após isso, eles (moradores de rua) ficaram na porta do equipamento esperando eu sair", disse Solange.
Uma confusão se formou, segundo Solange. Nessa reunião estavam moradores de rua, funcionários do Centro Pop e membros do serviço social da Unesp. "Quando eu estava dizendo dos meus direitos e dos direitos deles, uma pessoa empurrou a porta e partiu pra cima de mim, me ameaçando. Estou muito abalada, porque sou uma pessoa que luta pelo meu bairro”, contou Solange, que ainda foi ameaçada e está com medo. Ela mora a 40 metros do local.
A Guarda Civil Municipal foi chamada. Chegando ao local, os guardas também foram ameaçados, mas conseguiram tirar a mulher de lá.
A reportagem do GCN tentou ouvir dos coordenadores do Centro Pop sua versão para a confusão ocorrida dentro de suas dependências, mas os responsáveis disseram que qualquer informação seria fornecida apenas pela prefeitura.
Moradores de rua se espalham
O imbróglio não está só ali naquele quarteirão da rua Saldanha Marinho, nem só para os moradores da Vila Formosa. Quem anda pelos calçadões do Centro, disputa o espaço e bancos com os andarilhos que dormem em qualquer lugar e a qualquer hora do dia.
Já na praça Barão, os moradores de rua fazem dos canteiros suas casas. Por volta das 9h30 desta última quarta-feira, 6, a reportagem encontrou seis moradores de rua na praça da fonte luminosa. Dois deles dormiam.
Reginaldo, que não quis falar seu sobrenome, é um dos moradores que dormem nos bancos da praça. Natural de Chapada do Norte (MG), a mais de 900 km de Franca, está há seis meses na cidade e não tem pretensão de voltar para casa.
“Estava em São Paulo e decidi vir pra Franca. Vamos ver (de ir embora), mas não sei, não. Aqui é bom, tranquilo. Tomo minha pinguinha, fumo minha pedra para dar uma aliviada... Não tomei nada ainda hoje porque estou sem dinheiro, mas daqui a pouco vou sair pedindo e já consigo”, contou o morador.
Reginaldo é um caso semelhante ao de vários outros moradores que saem de suas cidades e buscam Franca para sua nova “moradia”.
Ribeirão, como é conhecido outro mendigo, e como quis ser identificado, está nas ruas desde 2014. Ele é natural de Ribeirão Corrente e, desde que foi expulso de casa, faz das ruas francanas o seu lar.
“Aqui é bom. O pessoal (população) ajuda bastante. Eu cato reciclável e peço dinheiro no semáforo. Todo o meu dinheiro é usado para sustentar meu vício em droga. Mas aqui é bom, não pretendo voltar para Ribeirão”, disse o andarilho.
O andarilho disse que usa cerca de R$ 200 em crack por dia e que não tem vontade de ser internado.
Ambos os moradores de rua entrevistados não comentam muito sobre seu passado ou o motivo de estarem aqui em Franca, mas demonstram nenhum interesse em ir embora.
Prefeito fala
Em fevereiro deste ano, o prefeito Alexandre Ferreira (PSDB) afirmou que já adotou todas as políticas públicas possíveis e que o TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) assinado em 2018 pelo então prefeito Gilson de Souza (DEM) com o Ministério Público impede a retirada dos objetos dos moradores de rua das áreas públicas.
"Com esse TAC, a gente não pode desmontar a barraca deles (moradores de rua). Eles mesmos têm que desmontar para a gente fazer a limpeza. Nessa reunião eu disse: Ou vocês me liberaram para eu tirar as barraquinhas, ou temos que mandar embora para a cidade de origem deles”, disse o prefeito em entrevista à rádio Difusora.
De acordo com a prefeitura de Franca, atualmente 518 moradores em situação de rua estão cadastrados em programas sociais. Em 2021, 1.116 pessoas passaram pelos serviços, incluindo itinerantes.
Gilson de Souza
Segundo o acordo assinado em 2018 pelo então prefeito Gilson de Souza, o poder público fica impedido de recolher bens e pertences, ainda que estejam em locais públicos, como calçadas e praças. Além disso, também não pode remover involuntariamente essas pessoas do local que estejam ocupando ou tomar medidas que forcem o deslocamento.
Alexandre disse que realizou uma reunião com as polícias Militar e Civil, Ministério Público e Defensoria Pública para discutir formas de conter o número de barracas espalhadas pela cidade. Apesar da tentativa, nenhuma decisão foi tomada.
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