TRABALHO

'A deficiência das cotas que eles pedem é a física, intelectual ninguém aceita'

Por Heloísa Taveira | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Dirceu Garcia/GCN
Bruna Ventura, de 27 anos, tem Síndrome de Down e ressaltou a diferença depois do emprego: 'Acho que melhorei uns 80% do que eu era'
Bruna Ventura, de 27 anos, tem Síndrome de Down e ressaltou a diferença depois do emprego: 'Acho que melhorei uns 80% do que eu era'

Pessoas com deficiência ocupam cada vez mais seus lugares na sociedade. Graças às políticas de inclusão e um olhar mais atento à diversidade, as oportunidades de ingresso ao mercado de trabalho deram um grande salto nos últimos anos. Por outro lado, empresas privadas e até mesmo o serviço público ainda patinam para efetivar vagas de pessoas com deficiência intelectual.

No último dia 21 de março, foi comemorado o Dia Internacional da Síndrome de Down. Em Franca não há um registro oficial de quantas pessoas portadoras da síndrome existem, mas ao menos 142 são registradas no Cadastro Único, que reúne informações de famílias com renda de até meio salário mínimo por pessoa. Na realidade, esse número pode ser bem maior.

Uma das principais demandas do grupo de pessoas com Down ou qualquer outra deficiência intelectual é justamente mais oportunidades de acesso e permanência no emprego. Viviane Vaz, coordenadora de Assistência Social da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), mencionou que dentro da associação existe um serviço que trabalha justamente a preparação da pessoa com deficiência e o acompanhamento depois que ela é inserida no mercado de trabalho.

“A maior dificuldade que temos é a permanência da pessoa com deficiência no mercado. Ainda é uma área que não tem uma perspectiva inclusiva, não acolhe a diversidade. Querem cumprir a cota de inclusão por uma formalidade para que não haja sanções, mas a cultura inclusiva ainda está em processo de incorporação pelas empresas de Franca”, disse Viviane.

Dentro da Apae de Franca são cerca de 150 pessoas com deficiência intelectual, sendo 97 delas com Síndrome de Down. No total, 45 usuários já estão inseridos no mercado de trabalho e Viviane ressalta que, mesmo com as dificuldades, é preciso reconhecer o avanço.

“A gente tem aquele sentimento que as coisas não estão diferentes, mas já avançamos bastante. O que tentamos fazer é possibilitar que a pessoa permaneça, e de forma produtiva. A inserção não pode acontecer apenas por si própria. Tem que trazer essa perspectiva que o trabalho traz para o ser humano”.

Para a coordenadora, é preciso que haja uma mudança na mentalidade do setor produtivo e na qualificação profissional em relação à diversidade, principalmente se tratando de pessoas com deficiência intelectual, onde as exigências para o ingresso são quase inalcançáveis e o modelo de aprendizagem não é adaptado.

“É necessário perceber a diversidade como força produtiva de trabalho e dar abertura a essas vivências. Por outro lado, sabemos que esses segmentos foram negligenciados em relação aos direitos. Nós temos um problema relacionado à qualificação profissional, a não-adaptação do sistema educacional para acolher a diversidade. Isso nega o direito de aprendizagem efetivo, porque ela precisa de adaptações.”

A dignidade que traz o trabalho
Bruna Ventura Dias, de 27 anos, é portadora da Síndrome de Down com mosaico, uma forma rara da síndrome em que parte das células apresenta a trissomia do 21 e a outra parte tem a quantidade normal de cromossomos. O mosaicismo atinge apenas 2% das pessoas com Down.

Por ser em um grau mais leve da síndrome, Bruna só foi diagnosticada como uma pessoa com Down aos 4 anos. Sem traços marcantes como o olho arredondado, o que mais afeta é o aprendizado, um pouco mais lento, e a idade cognitiva cerca de 5 anos atrasada.

Bruna começou a ter dificuldades para se socializar assim que entrou na escola. “Tinha muita vergonha, era tímida, então, as pessoas não me aceitavam. Na escola, eu não tinha amizade. Conforme fui crescendo foi ficando mais difícil o convívio”, disse.

Ainda assim, a jovem tinha vários sonhos e objetivos. Fez cursos de qualificação, aulas de culinária, oficinas de pet-shop e chinelos e chegou até a ingressar em faculdades, cursando pedagogia. Os estudos acadêmicos então não duraram um ano e terminaram depois de um episódio traumático.

“Ela tentou fazer pedagogia depois da escola, mas um certo dia, um professor a humilhou, falando que ela usava da síndrome para manipular os professores. Depois disso, ela não quis mais e começou a buscar um trabalho”, disse Sílvia Ventura, mãe de Bruna.

A dificuldade começou logo no primeiro passo. Mãe e filha sequer sabiam onde podiam buscar por uma oportunidade ou entregar currículos. A família conta que, por não ter uma aparência tão marcante, ainda tinham que provar com laudos médicos a deficiência por onde quer que fossem.

“A deficiência das cotas que eles pedem é a física, intelectual ninguém aceita. A intelectual é muito difícil. Eu fui em várias empresas com ela e as pessoas ficam com receio, é um certo preconceito. ‘Será que ela não chama muito atenção?’, eles perguntavam. Quando eu falava que era intelectual, quase ninguém aceitava”, relembrou Silvia.

Mas tudo mudou em 2013, quando o Magazine Luiza deu início ao Alta Performance, um programa para colaboradores com deficiência. Bruna integrou um grupo com 30 pessoas com deficiência e entrou na empresa como jovem-aprendiz. Depois de um ano, ela foi efetivada e segue trabalhando, hoje no setor do ambulatório médico.

“Lá dentro desse serviço, eu aprendi muito e hoje até ajudo funcionários de outros estados. Antes eu não queria nem sair de casa, porque não tinha nada para fazer. Ficava deitada no sofá, dormia... Com essa ocupação, eu sei que tenho que fazer alguma coisa e acordo até melhor. É satisfatório”, disse Bruna.

O emprego das 8 às 18 horas de segunda a sexta-feira teve inúmeros benefícios. Além da autonomia e independência de ter o próprio dinheiro, Bruna afirmou que a ocupação melhorou a sua timidez. “Acho que melhorei uns 80% do que eu era. Não falava com ninguém, sempre fui na minha. Hoje eu falo até demais”, brincou.

Bruna trabalha no setor de SEMT do Magazine Luiza, um ambulatório médico do trabalho

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários