No ano em que completará 100 anos de história, a Fundação Allan Kardec encerrará um de seus mais antigos serviços em Franca. Na manhã desta sexta-feira, 25, a diretoria anunciou o fim das internações nos leitos psiquiátricos do Hospital Allan Kardec.
A decisão aconteceu por conta dos baixos valores fornecidos pela iniciativa pública para o custeio dos leitos. Atualmente, uma diária por paciente está estimada em R$ 233 e o valor pago pelo SUS é de apenas R$ 102,60. O déficit projetado para este ano é de R$ 2,7 milhões.
Em entrevista ao programa A Hora é Essa!, da rádio Difusora, o vice-presidente da instituição comentou sobre a decisão. “Estamos aqui há bastante tempo enfrentado uma situação de subfinanciamento. Desde 2015, a instituição recebe o mesmo valor por cada internação diária. Isso e a inflação hospitalar diante da covid-19 levaram a nossa diária para R$ 233. Da maneira como está, é insustentável o funcionamento do hospital”, lamentou.
Não foram poucas as tentativas para que a medida extrema não fosse tomada. Diversas reuniões com órgãos federais, estaduais e municipais foram realizadas nas últimas semanas. Em nenhuma, a resposta esperada foi obtida.
“Nós estamos há alguns meses nos movimentando. Na semana passada, estivemos em uma reunião com o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e apresentamos esse quadro caótico. Só que eles não conseguem equiparar ao valor que pedimos. O Estado sinaliza que é uma questão difícil e a orientação é de não ter mais leitos em hospitais psiquiátricos”.
Para evitar que este prejuízo comprometa o patrimônio da Fundação, o Ministério Público Estadual recomendou o fechamento dos leitos deficitários. “Se continuássemos nessa toada, em agosto ou setembro já não teríamos verba nem para pagar o salário dos nossos colaboradores”.
O processo para encerramento dos leitos durará 90 dias. Durante este período, o hospital receberá pacientes normalmente. Após isso, num prazo de 30 dias, iniciará o processo de alta e transferência dos pacientes remanescentes. “Nestes 90 dias, estaremos recebendo novos pacientes normalmente. E, a partir do 91º dia, nós suspenderemos as internações, para que a gente possa finalizar o atendimento e dar alta aos pacientes remanescentes”.
Atualmente, o Hospital Allan Kardec possuí 122 leitos SUS ativos para internação de pacientes de Franca e outros 22 municípios da região. Por eles, em média, 500 pacientes costumam passar. Desses, 40 foram acolhidos pela Fundação, por conta de abandono ou por não ter onde morar.
Segundo Palermo, o destino destes "moradores" da Fundação serão as residências terapêuticas. Em reunião entre a presidência da instituição e o prefeito Alexandre Ferreira (MDB), o executivo garantiu a abertura de cinco residências para hospedagem desses pacientes "fixos".
“A Prefeitura está dando andamento no processo para abertura de mais cinco residências terapêuticas, justamente para acolher esses pacientes remanescentes aqui da Fundação”.
A responsabilidade por receber os pacientes em surtos psiquiátricos ficará para os hospitais gerais. “Terá que ser feito um trabalho da DRS (Departamento Regional de Saúde) VIII, para encontrar os leitos, muito provavelmente em hospitais gerais, para que possam ser atendimentos esses pacientes”.
Particulares
Por conta dos custos necessários para manter o funcionamento do hospital, mesmo com o corte dos leitos SUS, a continuidade das internações particulares também será avaliada. “Nós vamos fazer uma avaliação nesses próximos dias da sustentabilidade desse serviço particular. Ocorre que, independente da quantidade de leitos, nós temos que manter o serviço de plantonistas. Na medida que perdemos escala, a diária de internação fica cada vez mais alta. Isso gera uma instabilidade também na clínica particular”.
Futuro
Além das internações, a Fundação Allan Kardec mantém várias atividades de filantropia. No Hospital Dia – onde o paciente é liberado no mesmo dia –, 30 pacientes de saúde mental são atendidos. Além disso, as Oficinas de Inspiração, que garantem trabalho e renda aos pacientes, atende 60 pessoas.
A Fundação administra também os dois CAPs (Centros de Atenção Psicossocial) de Franca, que atendem, diariamente, 300 pessoas, além de realizar 7,6 mil procedimentos por mês. Na mesma rede, a Raps (Rede de Atenção Psicossocial), a instituição pretende assumir outros serviços, como o Ambulatório de Saúde Mental e Unidade de Urgência/Emergência Psiquiátrica.
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