“Se eu não vivesse de bico, estava morto ou na cadeia. Ninguém dá oportunidade, já entreguei uns 80 currículos e ninguém me chamou”. Esse é o drama de Roberto Oliver, 58, que por mais de 20 anos trabalhou como serralheiro, mas há dois anos tenta se recolocar no mercado de trabalho.
Mesmo com a experiência de quase toda uma vida na serralheria, Roberto chegou a tentar trabalhar em fábricas da cidade, mas, sem a experiência exigida, ele continuou desempregado. “Os contratantes falam que vão dar uma chance, mas quando olham a idade desistem. A idade atrapalha muito e a falta de escolaridade também.”
A história do serralheiro não é um caso isolado. É comum trabalhadores nesta faixa etária em Franca reclamando dos obstáculos adicionais que a idade traz aliada a um preconceito existente em algumas empresas.
“Eu procuro serviço todos os dias. Tenho experiência em calçado e tenho curso de vigilante. Mas desde 2018 estou sem registro. Eu não escolho trabalho, não exijo salário, o que apareceu eu quero”, lamentou Issa Mitne Neto, de 56 anos, que sempre trabalhou em fábrica de calçados, mas há quatro anos está desempregado.
Depois de quatro anos sem registro e fazendo um biquinho aqui e outro ali, Issa viu suas reservas acabarem e afirma que a situação é desesperadora. “Minhas economias da vida estão se esgotando. Tem hora que bate o desespero de você ter uma certa idade e sentir que não serve para mais nada. Como que o velho vai competir com o jovem? É muito complicado”, desabafou.
Os dramas relatados são confirmados pelos dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). Em 2021 apenas 478 novos postos de emprego foram gerados para pessoas com 50 anos ou mais - todos os empregos foram para homens. Ao todo foram 4.627 contratações contra 4.149 demissões.
Silza Helena, 54 anos, sente na pele o preconceito da idade e de ser mulher. Atualmente desempregada, trabalhou por vários anos como auxiliar administrativa, mas em 2010, após perder a filha, sua vida mudou e ela não conseguiu se manter no emprego por problemas psicológicos.
“Eu tenho experiência e capacitação. Meu currículo é avaliado, chego a prestar algum processo, avançar alguma etapa, mas sempre sou excluída por causa da idade. É grande a discriminação”, contou Silza.
Silza acredita que a mentalidade do empresário precisa mudar, para que as pessoas com idades superiores tenham melhores condições de vida. “Acredito que o empresário tem condições de dar novas oportunidades para pessoas mais velhas e com experiência também.”
Esperança
Caroline Cintra, 29 anos, especialista em carreira no "Achei Minha Vaga”, conta que a tecnologia é um dos pontos para que pessoas mais velhas não se enquadrem. “As empresas tem uma insegurança de contratar pessoas mais velhas principalmente em relação a tecnologia. As vezes a pessoa não sabe mexer em um pacote office. O empregador também tem medo da pessoa estar prestes a se aposentar. Então eu sinto que seja por isso”.
Entretanto, o cenário pode estar mudando para as pessoas maduras, segundo a coordenadora. “Essa geração mais nova tem muita pouca estabilidade. Trocam muito de empregos, tem pouco comprometimento, paciência, entram na empresa e já querem ser CEO. E pessoas mais velhas não tem essa cultura. Os empregadores já estão buscando pessoas assim”, finalizou Caroline.
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