Quase 11 mil quilômetros separam Franca da capital da Ucrânia, Kiev. Foi exatamente essa distância que Júnior Carlos Gonçalves, de 35 anos, percorreu para estudar no Leste Europeu. Bem antes do início dos conflitos entre Ucrânia e Rússia, o francano já experimentava a divisão étnica vivenciada entre os ucranianos.
Essa longa viagem de Júnior aconteceu entre os anos de 2005 a 2010. Na época, ele se preparava para a formação sacerdotal em um seminário católico diocesano chamado Redemptoris Mater, em Kiev.
“A minha rotina era de estudo da língua no primeiro ano. Em seguida, começamos as matérias de filosofia e teologia. Levantávamos cedo e tínhamos as orações, além das tarefas divididas da casa. E nas horas vagas, nós podíamos jogar um futebol ou nos entreter com algum hobby”, relatou.
Do tempo em que esteve na Ucrânia, Júnior se lembra bem da divisão em todo o território ucraniano. Parte apoiava uma ligação maior com a União Europeia, enquanto outros carregavam a esperança de um dia a União Soviética retornar.
“Existe, realmente, uma divisão no país nas questões religiosas, políticas e até mesmo de ser nacionalista ou não, até ser pró-Rússia ou pró-União Europeia. E na época que eu fui lá, tinham essas questões de quem apoiava a Ucrânia se aproximar da União Europeia ou não. Já tinham aquelas que queriam voltar ao 'cenário de ouro' da União Soviética”, relembrou.
De situações que retratam essa divisão étnica, Júnior se recorda de duas histórias. Uma aconteceu durante um período em que esteve na cidade de Kharkiv. “Quando estive lá, era praticamente impossível encontrar alguém que falasse ucraniano, com o idioma predominante sendo o russo”.
Situação parecida aconteceu na Crimeia, território onde existe constante disputa entre Rússia e Ucrânia. “Lá um amigo meu espanhol, que já estava por lá há mais tempo, tentou se comunicar em ucraniano com um comerciante local e a pessoa não entendeu nada. Para ele, aquilo era grego. Era tudo em russo, até as escritas. As pessoas por ali se sentiam russas, não ucranianas”.
Apesar das questões que separavam os próprios ucranianos, os conflitos entre Rússia e Ucrânia estavam longe de acontecer quando Júnior deixou o Leste Europeu. Ainda assim, era perceptível a tensão que pairava no ar.
“Desde que Ucrânia se tornou independente, as tensões nunca pararam. Sempre teve a manipulação da Rússia e também as manobras de aproximação com a Europa Ocidental, nesta questão comercial e de se encaixar no bloco da União Europeia”.
Nos tempos atuais, já há 12 anos longe da terra que o acolheu, Júnior acompanha a distância a guerra que tem tomado os noticiários do mundo todo. Mesmo assim, o sentimento e impacto das notícias são mais fortes.
“Desde 2014, quando começaram os conflitos, eu fiquei muito triste, porque, quando você vê uma guerra no Oriente Médio, às vezes, a gente não dá tanta importância. Mas, para mim que morei na Ucrânia, é diferente”.
Atualmente, aos 35 anos, Júnior abandonou a vida religiosa e trabalha como auxiliar administrativo em uma loja de móveis em Franca.
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