1º EMPREGO

Mães denunciam promessa de emprego em curso de aprendiz: 'Tirei dinheiro de aluguel'

Por Heloísa Taveira | da Redação
| Tempo de leitura: 6 min
Dirceu Garcia/GCN
Viviani dos Santos: 'Eu pensei, ué, vai trabalhar e tem que pagar?'
Viviani dos Santos: 'Eu pensei, ué, vai trabalhar e tem que pagar?'

O primeiro emprego é sempre marcante – tanto para o adolescente, quanto para a família. É a oportunidade de um novo aprendizado e o início da independência financeira. Porém, para algumas mães e filhos de Franca, o que seria um sonho se tornou uma grande frustração.

Tudo começou com uma ligação da escola Qualifik, que fica na rua Major Claudiano, centro de Franca. Uma chamada até que inusitada, mas que desperta curiosidade em qualquer um: “Temos uma vaga de jovem aprendiz para o seu filho”. Um combo com emprego, benefícios e capacitação foi oferecido pela escola profissionalizante.

Para o filho de 15 anos de Viviani dos Santos, o salário em questão era de R$ 1,2 mil para trabalhar no banco com vales transporte e alimentação. O adolescente seria contratado como jovem aprendiz.

“Fui lá (na escola) para fazer essa entrevista de emprego. O menino já entrou para a sala e foi fazer uma prova. Disseram que ele não tinha passado 100% na prova, só 70%, então tinha que pagar o restante. Eu já pensei, ué, vai trabalhar e tem que pagar?”, falou a sapateira.

A proposta era a vaga de emprego, mas para isso o adolescente precisaria estar matriculado em algum dos cursos da escola. Viviane negou a princípio, pois não poderia arcar com a mensalidade.

“Meu filho teria que ficar um mês fazendo um treinamento, que eu achava que era para o banco, para depois fazer a entrevista. Passou esse um mês, e continuou o curso. Eu disse que não poderia pagar e me falaram: 'não, mas é certeza, em abril (que já viria a parcela do curso) pode ficar tranquila, quem vai pagar é ele porque ele já vai estar trabalhando'.”

No entanto, mesmo após o treinamento, o emprego não veio. De acordo com Viviani, a entrevista era realizada na própria escola e pelos professores da unidade, sem vínculo nenhum com banco ou instituição. Logo após, a sapateira retirou o filho da escola, mas teve um prejuízo de R$ 250: “Tirei dinheiro de aluguel”.

Magda Castro, auxiliar de limpeza, passou por situação idêntica. Recebeu uma ligação da mesma escola falando que a filha seria encaminhada para Caixa ou Banco do Brasil.

“Só que para ela entrar no esquema ela tinha que fazer o curso para verem que ela está se preparando... Passei em 10 vezes no cartão e fiquei no prejuízo, porque eles falaram que ela ia arrumar serviço, então ela mesma pagaria o curso. Era tudo mentira”, disse Magda.

Foram meses de curso e até hoje a filha da auxiliar de limpeza não conseguiu a vaga prometida. Além disso, Magda criticou a forma como as aulas são ministradas na escola. “Com a pandemia, tinha que fazer o curso online só com o conteúdo. Agora que voltou presencial, eles deixam um monte de alunos sem supervisão. O dia que eu fui lá, nem professor tinha, vários adolescentes sozinhos”.

Magda investiu R$ 1,4 mil e não teve retorno, por isso decidiu tirar a filha até mesmo das aulas. Para não ficar com tanto prejuízo, conseguiu um acordo com a empresa. “Eu falei que eu queria o meu dinheiro ou o emprego, mas como não tinha jeito, entramos num acordo e vão me devolver metade”. A mãe afirmou que nem uma justificativa foi dada. “Ainda debocharam da minha cara. ‘Assinou porque quis, eu não prometi nada’”.

Ana Paula Souza Santos é pespontadeira é relatou que, por conta da “falsa proposta” assumiu uma dívida de escola e hoje tira dinheiro do auxílio-doença para pagar, já que faz tratamento oncológico.

“Por conta da doença meu filho queria trabalhar para me ajudar. Me ligaram falando que tinha uma vaga de emprego para ele”, disse Ana Paula. Então, a mãe levou o menino na escola e ele foi submetido à prova de praxe. Os professores afirmaram que o adolescente tinha ido bem e por isso ganharia um desconto na mensalidade.

“Me falaram que meu filho tinha a vaga de emprego, só que para conseguir a vaga ele tem que estar cursando, e por isso o desconto. Eu não ia fazer porque não tinha dinheiro e me falaram que eu ia pagar só a primeira parcela porque a outra o meu filho mesmo pagaria”.

Ana Paula, que não tinha levado o cartão de crédito no dia, recusou a proposta. A insistência foi tanta que a pespontadeira acabou aceitando, mas disse que passaria outro dia para pagar. “Falaram que eu não precisava pagar outro dia, uma funcionária ia comigo até minha casa para passar a maquininha e depois voltava de Uber. Foi isso que aconteceu”.

O filho de Ana Paula fez quatro entrevistas, todas na própria escola, mas nenhuma rendeu frutos. Segundo a mãe, disseram que ele não teria perfil. “Perguntei qual seria o perfil de um adolescente que nunca trabalhou. Não entendi”.

Além disso, a própria mãe, achando estranho, procurou as vagas que eram descritas pela escola e anunciadas no painel da unidade. Algumas delas sequer existiam. “Não existe essas vagas de emprego. Eu mesma cheguei a ir no Savegnago, no Big Compra, onde estariam as vagas, e elas não existiam, era tudo mentira”. O prejuízo foi de cerca de R$ 1,4 mil para a família.

William Eurípedes Soares foi professor da unidade durante pouco mais de dois meses. A desconfiança surgiu quando percebeu que ele mesmo fazia a entrevista de emprego com os alunos e tinha que ministrar aulas de áreas que não tinha conhecimento.

“Eu só sei informática, mas tinha que dar aula de inglês, de administração, até de pet-shop. Não sei nada sobre isso... Além disso, para mim, a entrevista de emprego acontecia na empresa, não na escola. Comecei a achar estranho”.

William também procurou pelas vagas de emprego anunciadas e viu que elas não existiam. Por isso, conversou com a gerência da escola e foi desligado.

A unidade funciona como uma escola profissionalizante de áreas específicas e idiomas. O curso, segundo a própria escola, é interativo e o aluno tem o aprendizado através do computador, mas na presença do professor – por isso não há formação específica dos funcionários.

Questionado pelas denúncias, Emerson Pinheiro, representante da Qualifik, negou que haja a promessa de vagas de emprego.

“Existe sim, além das aulas, um trabalho de encaminhamento dos jovens para vagas de estágio ou emprego, que vão sendo disponibilizadas. Garantia de emprego não tem como dar, inclusive a gente documenta isso no ato da matrícula bem grande, escrito em negrito, justamente para que esse tipo de coisa não aconteça”.

O que existe, segundo Emerson, é um processo de encaminhamento, mas não parcerias com as empresas. Há a identificação das vagas e a escola faz o cadastro dos alunos.

“Pode ter tido algum problema de comunicação, algum desentendimento. Não existe promessa de emprego, mas sim o encaminhamento e o mural de vagas que fica disponível da unidade”, justificou.

De acordo com o coordenador do Procon de Franca, Luís Murari, os consumidores devem procurar o órgão para a reclamação. Ele afirma que tem recebido muitas solicitações a respeito do problema em escolas profissionalizantes.

“Eles oferecem emprego, ligam para o consumidor e falam que tem a vaga. Chegando lá, há como um ‘teatro’ e algumas mães e pais acabam assinando o contrato. O problema maior que temos encontrado é que nestes contratos vêm até em negrito que não prometem a vaga, apenas encaminhamento”, disse Luís.

O coordenador garante que é uma situação grave, pois acaba tocando em uma questão sensível de muitas famílias carentes, que é ilusão da garantia de emprego.

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