Até onde você iria por fé? Catorze homens deixaram bens materiais e suas famílias com um propósito: seguir os passos de São Francisco de Assis. Em Franca, o Convento Franciscano Santa Maria dos Anjos forma freis na caminhada divina.
A casa formadora de freis oferece os dois primeiros anos de ensino. Os religiosos passam pelo aspirantado no primeiro ano e o postulantado em seguida. Ao final deste período, o religioso se muda para Catalão (GO), para finalizar a formação. Os freis cumprem um ano como missionários e fazem quatro anos de teologia e aqueles que desejam se tornar padres, outros três anos de filosofia.
Uma vez no convento, as atividades começam às 6h30 com a oração das laudes e a Santa Missa, às 7h. Terminadas as consagrações, é servido o café da manhã, seguido pelo engarrafamento do leite, alimentação dos animais e limpeza das instalações. Os postulantes a freis têm formação. Após o almoço, os religiosos têm o horário de descanso no início da tarde. Depois, cada um trabalha em seu setor, como designado previamente. Por volta das 17h30, eles retornam para um banho e às 18 horas tem as orações, distintas para cada grupo. A meditação acompanhada do jantar acontece à noite. A rotina pode variar de acordo com as responsabilidades de cada integrante.
“Lógico que existem as dificuldades e adaptações, mas sem perder o essencial que é a fraternidade. É impossível falar que não sou feliz”, diz o frei Alef Henrique Pavini, de 28 anos.
Alef passou por momentos de incerteza, principalmente de trotes e outras atividades para entrar na faculdade. “Lembro que conversei com um dos freis, que foi meu primeiro formador, e ele disse assim: ‘Olha, você pode até ir e fazer a faculdade. Mas pode ter certeza que essa sensação vai ser muito passageira. Agora, optar por uma decisão que vai mudar toda sua vida é sua escolha’”.
Após momentos que marcaram sua trajetória, o frei continua estudando para se tornar padre. “Eu falo que o marco para a minha decisão foram as minhas experiências missionárias. Tanto que foi aí que eu tomei a minha decisão de ser padre”.
'Seguindo a vocação'
Assim como a fé, o chamado ou vocação é algo inexplicável. Para a maioria dos frades, acontece ainda criança ou adolescente. “Na maioria das vocações são assim e comigo não foi diferente. A grande diferença é que interrompi esse processo vocacional por volta dos 18 anos e segui pelo mundo”, conta o postulante a frei José Carlos Costa Santos, de 34 anos.
Natural do município paraibano de Guarabira, José Carlos ensinava violino e coordenava um projeto de música antes de seguir na religiosidade. Após pensar sobre o assunto, decidiu fazer uma transformação em sua vida, aos 30 anos.
A decisão não causou surpresa para a família do paraibano. “Sempre olhavam para mim nessa perspectiva da igreja”. A mudança ocorreu tranquilamente, dentro do possível. “Como já estava fora de casa há cinco anos, tinha meu apartamento, meu espaço e minhas coisas, esse ir embora foi mais tranquilo, porque já não dependia de ninguém, era só de mim”.
Mais de 2.500 km separam Franca de sua terra natal. José Carlos não se incomoda com a distância e mudaria até de país, se necessário. “Se Deus tivesse me mandado ir para a Itália, iria para Itália com a mesma alegria, felicidade, entusiasmo e querer. Quando você vem com esse querer, a distância meio que desaparece”.
O paraibano não demorou muito para se sentir em casa em solo paulista. “Do interior (da Paraíba) para o interior (de São Paulo), acho que está tudo bem. Talvez o impacto seria maior se tivesse ido para a capital”.
José Carlos lista os momentos que sente falta, mas faz ressalvas. “O dia-a-dia com os alunos, a sala de aula, o quadro, o giz e a batuta... Isso me faz falta, mas não é algo que tira a minha atenção. Não é algo que faria de forma alguma deixar essa alegria que estou vivendo”.
Cada um dos 14 residentes do convento tem sua motivação para levar uma vida de penitência e oração. “Me encantei muito por São Francisco pela simplicidade, o amor aos pobres e por essa opção radical de promoção da vida. São Francisco é um ser universal, é um modelo de vida”, diz o frei Eduardo Augusto Schiehl, de 30 anos.
Natural da catarinense São Bento do Sul, Eduardo já morou em Rio Negrinho (SC), Ituporanga (SC), Guaratinguetá (SP), Rodeio (SC), Curitiba (PR), Uberlândia (MG) e Garça (SP) até desembarcar em sono francano.
Durante a sua jornada, o frei acompanhou muitas pessoas com visões errôneas sobre os franciscanos e outras ordens religiosas. Muitos acreditam que eles “fogem” da realidade. “A pessoa que queira estar apta para a vida religiosa, ela não pode querer fugir das dificuldades do mundo. Apesar de termos uma condição de vida diferente, nós acompanhamos e nos posicionamos plenamente diante da dificuldade do mundo e da sociedade”.
Enquanto pessoas criticam com pouco conhecimento, Eduardo se diz realizado e essa é a verdadeira felicidade. “A felicidade não como um sentimento momentâneo, porque isso não é felicidade. Felicidade se dá no âmbito de uma realização. A pessoa é feliz mesmo sofrendo ou tendo tribulações, porque ela se coloca dentro de uma realização”.
Os jovens que desejam ingressar na vida religiosa devem procurar o convento. “Vamos acompanhar ela durante um ano, tanto de modo remoto, quanto presencial, com encontros vocacionais e conversas. Ela, pouco a pouco, vai nesse um ano vendo e contemplando a nossa vida franciscana. E nós conhecemos a pessoa”.
Após o acompanhamento, a pessoa pede para ingressar nos franciscanos. Em caso de dúvidas ou mais informações, o Convento Franciscano Santa Maria dos Anjos oferece o telefone (16) 3720-9750 para contato.
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