Eram 17h34 de 15 de fevereiro quando Ana Beatriz Seraphim, 20, postou em seu perfil no Facebook um vídeo da forte chuva em Petrópolis, na região serrana do Rio, instantes antes de morrer com o filho Theo, de 10 meses, ao ser atingida pela enxurrada. Ao menos 183 pessoas morreram em decorrência dos deslizamentos e outras 85 seguem desaparecidas, segundo a Polícia Civil.
Isabel Cristina Seraphim e Emerson Seraphim, mãe e irmão de Ana Beatriz, também morreram no temporal mais letal da história da cidade.
Em dezembro passado, Ana Beatriz postou uma foto nas redes sociais da formatura no Colégio Estadual Rui Barbosa com o filho no colo e o canudo na mão.
"Me formei sendo mãe aos 20 aninhos (...). Cá estou eu, linda e plena, formada com meu baby em meus braços mostrando para todos que tudo que eu fiz valeu a pena."
Na ocasião, Emerson, irmão mais velho de Ana Beatriz, também morto na tragédia, escreveu: "Bia, eu fico feliz em ver como está se saindo muito bem com sua nova fase. Mesmo ainda nova, mas se mostrando capaz de enfrentar esse lado de saber administrar o lado mulher, mãe e também esse lado de total dedicação ao estudo."
Padrinho do sobrinho Theo, Emerson, 30, exibia em suas redes sociais diversas fotos com o menino. A última delas foi publicada em 18 de janeiro, um mês antes da tragédia, com a legenda: "Assistindo Mundo Bita com o dindo!". No registro, os dois estavam deitados na cama, e Theo olhava para o celular do tio.
Moradores cavam lama com as mãos
A esperança de dar um enterro digno aos familiares marcou a semana. No Morro da Oficina, homens cavaram a lama com as próprias mãos. Outros usavam ferramentas domésticas, como cordas e marretas.
Demorou três dias para que os bombeiros chegassem ao alto do morro. Com cães farejadores, somente no quarto dia de buscas.
O temporal deixou a maior quantidade de vítimas da história do município, superando as tragédias de 1988 e 2011. A Defesa Civil faz a medição desde 1932. Em apenas três horas, choveu mais do que o previsto para todo o mês de fevereiro.
As fortes chuvas deixaram um cenário devastador: houve deslizamentos, enxurradas, casas destruídas, veículos levados pela correnteza e moradores buscando por familiares nos escombros em meio à lama.
Em 2011, na maior catástrofe climática do país, segundo o CPTEC (Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos), 73 pessoas morreram em Petrópolis. Cidades vizinhas, como Nova Friburgo, foram mais afetadas pelas chuvas, que deixaram 918 mortes em toda a região serrana.
Já em 1988, foram 134 mortos após temporal em Petrópolis. A contagem era, até então, a pior já registrada pela prefeitura.
Desde 2017, a Prefeitura de Petrópolis sabia de 15 mil imóveis em risco. Mesmo com um relatório produzido há quatro anos, a administração reservou mais recursos para gastar com luzes de Natal e publicidade do que com contenção de encostas em 2021.
À medida que corpos vão sendo identificados em Petrópolis, a lista de desaparecidos vai diminuindo. Eram 183 mortos e 85 pessoas sumidas durante a chuva reportadas à Polícia Civil até esta terça-feira (22), quando a tragédia completa uma semana.
Do total de mortos, 111 eram mulheres e 72 eram homens, entre eles 32 menores de idade. Foram encontrados ainda sete fragmentos de corpos. As buscas na lama feitas por bombeiros e moradores continuam em curso, assim como o atendimento aos 875 abrigados em escolas municipais.
Nas ruas, moradores seguem limpando casas, prédios históricos e comércios, que já começam a reabrir. Sirenes de viaturas e ambulâncias ecoam de um lado para o outro, e motociclistas e famílias circulam sem parar com doações entre pontos de apoio e igrejas.
As salas de velórios estão cheias, e os enterros estão sendo feitos em sequência no cemitério municipal . A prefeitura abriu novas covas rasas (menos profundas e mais baratas) e descartou um grande enterro coletivo "para respeitar a programação das famílias".
Chuvas continuaram atingindo a cidade na última semana, principalmente à tarde e à noite, fazendo as sirenes nas áreas de risco serem acionadas diversas vezes, incluindo na tarde desta terça. A previsão é de pancadas moderadas a fortes.
O Corpo de Bombeiros fluminense marcou um encontro com a imprensa nesta segunda para explicar as dificuldades das equipes e desmentiu boatos de que pessoas teriam sido resgatadas com vida nos últimos dias – foram 24 salvamentos, todos nas primeiras 24 horas após a tempestade.
Desde a tempestade, foram registradas mais de 1.300 ocorrências no município, a maioria por deslizamentos. Agora, há 54 cães especializados do Rio de Janeiro e de outros estados atuando nas operações.
"O objetivo é minimizar as áreas a serem trabalhadas. Em um determinado perímetro, um cão substitui cerca de 25 bombeiros", disse o tenente-coronel Wendell Carlos Rodrigues.
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