SONIA MACHIAVELLI

Por um Memorial da Escravidão

Por Sonia Machiavelli | especial para GCN
| Tempo de leitura: 4 min

Há muitos anos visitei em Berlim o Museu do Holocausto, conhecido oficialmente como Memorial aos Juseus Mortos da Europa. É um monumento para nunca esquecer o horror nazista que matou seis milhões de judeus em campos de concentração. Ele está localizado no coração da cidade, pertinho do Portão de Brandenburgo e sobre a “faixa da morte”, paralela ao muro que dividiu uma cidade em duas depois da Segunda Guerra.

A construção começou em abril de 2003 e levou vinte meses para ser concluída. O monumento foi inaugurado em 10 de maio de 2005, integrando as celebrações dos 60 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. A intenção de construir um memorial para as vítimas do holocausto nasceu um ano antes da queda do muro, mas só uma década depois o parlamento alemão aprovou o projeto vencedor, do arquiteto americano Peter Eisenman.

Visitar o Memorial pede preparo físico e emocional. Andar entre 2711 blocos de concreto cinza-escuro dispostos em fileiras paralelas acarreta desequilíbrio, confusão, mal estar. A altura dos blocos sofre variação de dois a quatro metros. Não há nomes, frases, símbolos. Mas a impressão é exatamente a que pretendeu o artista: “produzir uma atmosfera confusa e intranquila, pois toda a escultura visa representar um sistema supostamente ordenado que perdeu o contato com a razão humana”.

Depois de uma hora, saí nauseada. Lembro-me de ter respirado fundo antes de descer ao subterrâneo, onde há exposição permanente com a documentação sobre a perseguição aos judeus e sua morte nos campos de concentração. Chamada “Ort der Information”, “Local de Informação”, a exposição apresenta fotos, cartas, bilhetes, documentos pessoais, dados biográficos de indivíduos e famílias inteiras exterminadas pelo ódio nazista. Na minha memória ficou impressa a foto amarelada de um casal e seus dois filhinhos antes do começo do horror: a câmera os fixou felizes no seu lar. Eles morreriam três anos depois, separadas as crianças da mãe e esta do pai, cada um deles num campo. Só quem tem coração de pedra consegue sair ileso daquele local. Eu me senti angustiada, porque por mais que conhecesse a história, ela se tornava mais terrível diante de rostos, documentos, objetos pessoais, da caligrafia dos inocentes condenados à morte só por serem de outra raça. Milhares de vítimas têm seus nomes guardados naquele lugar.

Toda essa memória abominável foi acessada quando ouvi o jornalista Otávio Guedes, a quem admiro, comentar a necessidade de criarmos em nosso país um Museu da Escravidão, para mostrar as maldades de que fomos capazes contra homens trazidos da África e submetidos aqui a maus tratos indizíveis. Também penso num memorial assim, que mostrasse abjetos objetos de tortura, anúncios de jornais para achar “negros fugidos”, notícias da atuação cruel dos capitães de mato, a escuridão das senzalas, a dieta paupérrima de humanos obrigados a jornadas massacrantes de trabalho, telas de pintores que registraram com sua arte os castigos impostos aos escravos, textos de viajantes europeus citando a crueldade dos senhores, recibos lavrados em cartório de compra e venda de seres humanos. Seria essencial também exibir a poesia de um Castro Alves denunciando o horror dos navios negreiros e a de um Carlos de Assumpção resistindo e protestando bravamente até hoje e apesar de tudo.

 O governo alemão construiu o Museu do Holocausto quando percebeu que as novas gerações já estavam se esquecendo do capítulo medonho que a Alemanha de Hitler havia escrito nos anos 30/40. Também criou e implementou leis para que o período mais horrendo da história alemã não fosse apagado da memória das gerações futuras e jamais se repetisse. Se começarmos agora a pensar na construção de um Memorial da Escravidão, quem sabe teremos no futuro a chance de nunca mais ouvir frases como a do atual presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo. Este homem, que descende de africanos, classificou o movimento negro em nosso país como “escória maldita”; chamou Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência negra no Brasil escravocrata, de “filho da puta que escravizava pretos”; defendeu a tese de que “a escravidão foi boa para os negros” e, nas últimas semanas, afirmou que o congolês MoÏse foi morto a pauladas numa praia carioca “porque era um vagabundo.”

Somos uma cultura que não preza a memória. E ela é fundamental para que o passado não seja esquecido. Olhando em retrospecto, temos uma dívida enorme para com os africanos que escravizamos e continuamos a escravizar sob formas sutis e outras nem tanto. Só lembrando seu passado de forma realista um povo poderá evitar os erros cometidos e pavimentar caminhos para a civilidade. Caso contrário, corre o risco de reincidir na barbárie.

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