PROBLEMÃO

Ex-secretários culpam governos recentes por enchentes em Franca

Por Higor Goulart | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Arquivo/GCN
Parte da avenida Alonso y Alonso, que margeia o córrego do Cubatão, tomada por alagamento na última quinta-feira, 10
Parte da avenida Alonso y Alonso, que margeia o córrego do Cubatão, tomada por alagamento na última quinta-feira, 10

Um verdadeiro pesadelo. Dessa forma é possível traduzir o sentimento do francano em dias de fortes chuvas que causam alagamentos na cidade. Nos últimos dias, já foram dois. Nas regiões dos córregos Cubatão e Bagres – nas avenidas Alonso y Alonso e Hélio Palermo, respectivamente –, basta uma chuva forte para alagar rapidamente as vias, e prédios e carros serem tomados pela água.

Afinal, é possível resolver esse problema? Para essa resposta, primeiro é preciso entender o que tornou a cidade ser tão propicia a essas inundações. Franca é uma cidade que se desenvolveu sobre três colinas, a da Estação, do Centro e Santa Rita, que são separadas pelos dois córregos.

Para que esse desenvolvimento pudesse seguir conforme as características, o urbanista e arquiteto Mauro Ferreira explica que foi necessário adotar uma "solução rodoviarista", se inspirando em cidades como a capital paulista. “Trata-se de algo que vem se acumulando há 50 anos, quando se adotou uma solução rodoviarista nos anos 60, que foram as primeiras canalizações dos córregos Cubatão e dos Bagres. E, ao canalizar esses pontos, jogaram marginais ao longo desses córregos.”

A forma de desenvolvimento adotada na época propiciou essa dor de cabeça vivida por Franca e por todas as outras cidades que optaram por este modelo de crescimento.

Ao longo do tempo, então, em muitas das gestões públicas que vieram até chegar ao atual momento, obras na infraestrutura das marginais foram feitas. No governo do ex-prefeito Gilmar Dominici, entre 1997 e 2004, quando Mauro esteve à frente da Secretaria de Planejamento, um plano de macrodrenagem foi elaborado.

“Esse plano, realizado junto da USP de São Carlos, tinha um horizonte de 20 a 30 anos. Ele implicava em construir piscinões, que são parques alagáveis e reduzem o volume que vai chegando aos pontos mais baixos. A lagoa do Castelinho funciona dessa forma, mas, como ela já foi assoreada e segue, é necessária uma manutenção constante. Tem também abaixo da Havan”, relembrou.

Após o governo de Gilmar, veio a gestão Sidnei Rocha, entre 2005 e 2012, com a pasta de Planejamento liderada pela arquiteta Valéria Marson. Foi neste governo que a região de encontro dos córregos, no Galo Branco, foi desenvolvida. “Todas as obras que foram planejadas durante a administração que estive foram executadas. Como o encontro do Canal dos Bagres e Cubatão, na região do Galo Branco. Por ali, o canal não inunda mais.”

Dessas obras citadas pelos especialistas, muitas delas ainda são uma dor de cabeça no município. O próprio Castelinho foi alagado na última semana. Já a região de encontro dos córregos Espraiado e Cubatão frequentemente é vista como um problema. Então, realmente resolveram em algo?

Para os especialistas, sim. Mas, na visão deles, faltou continuidade das gestões recentes, do atual prefeito Alexandre Ferreira (MDB), que também passou pelo executivo entre 2013 e 2016, e do ex-prefeito Gilson de Souza (DEM).

“Quando fizemos essa obra do Galo Branco, existia um plano de continuidade do alargamento do canal do Cubatão, que deveria ser feito até a nascente do córrego. São obras que as administrações posteriores deveriam ter dado continuidade e não foram priorizadas”, conta Valéria Marson.

A arquiteta relembra também a respeito da represa feito no Castelinho, que, segundo ela, não recebeu o mesmo cuidado dos administradores posteriores. “Fizemos o desassoreamento da represa do Castelinho. Isso precisa ser feito periodicamente. Pelo que eu sei, depois que fizemos este serviço, nunca mais foi feito um serviço deste porte no local”, completou.

Mauro também reforça sobre o plano feito, mas que não foi observado pelos outros gestores, sendo descontinuado. “No plano que fizemos, estavam previstos mais piscinões, além dos que já existem. Outra coisa eram tanques de infiltração nas construções, além de não fazer mais pavimentos só com asfalto. São questões de longo prazo, que de uma certa forma precisam ser mobilizadas no sentido de fazer valer”, disse Mauro Ferreira.

Apontadas as questões que trouxeram ao problema conhecidos hoje, então quais seriam as soluções? Para os especialistas: continuidade no projeto dos piscinões, encontrando outros pontos para construção dessas obras; áreas de contenção em empreendimentos particulares nas regiões das marginais; além de parques que contribuam para permeabilização da água e conscientização da população.

“As administrações recentes não se preocuparam com obras de infraestrutura. Mas, obras de alargamento, manutenção de galerias e novos canais precisam ser feitas sempre. Além disso, a questão de novas construções pode aumentar assustadoramente (o problema). É preciso exigir que a água da chuva seja separada dentro dos empreendimentos e lançada no córrego lentamente”, sugeriu Valéria.

Já sobre a construção de novos parques passa como uma sugestão de Mauro Ferreira, que vê nisso como uma solução eficaz. Mas enxerga também ser necessário um cuidado maior do Executivo, além de uma conscientização da população.

“Precisamos construir grandes parques na cidade, para infiltrar água no lençol freático. É necessário também um trabalho de limpeza constante nas bocas-de-lobo. Precisamos também conscientizar e educar a população ambientalmente, para evitar que joguem resíduos nos córregos.”

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