SONIA MACHIAVELLI

O Cão que nos habita

Por Sonia Machiavelli | especial para GCN
| Tempo de leitura: 5 min

Ataque dos Cães pode ser assistido no Netflix, canal que vem conquistando reconhecimento por suas produções originais e pela liberdade que concede aos cineastas. Vale muito assistir, se você aprecia histórias que não se limitam ao entretenimento. Dirigido pela australiana Jane Campion, revelada ao grande público com O piano, tem no elenco nomes reconhecidos como Benedict Cumberbatch (Phil), Jesse Plemons (George), Kirsten Dunst (Rose).

O filme, que concorre ao Oscar 2022 em doze categorias, foi construído com muitas camadas de sentido, de maneira que as interpretações irão variar de acordo com o olhar do espectador. Tenho lido críticas interessantes, a última delas de caráter psicanalítico, assinada no seu site pelo psicólogo Ricardo Chagas (sobrinho da artista francana Goret Chagas).

Ele faz uma releitura edipiana, viés a ser avaliado, autorizado até mesmo pela frase em off que abre o filme: “Que filho serei eu, se não proteger minha mãe?”De minha parte, deixei-me guiar pela última: “Livra-me da espada, Senhor, livra a minha vida do poder do cão”. Ela faz parte do Salmo 22 da Bíblia, com o substantivo cão no singular, como está no título em inglês. O responsável pela tradução para nosso idioma fez a flexão de número, talvez imaginando que são muitos os cães que atormentam e ameaçam nossa existência. Uns ladram e não mordem. Outros mordem sem ladrar.

A história foi adaptada de um romance do norte-americano Thomas Savage, publicado nos anos 60. Homossexual como seus protagonistas, o escritor, que viveu na zona rural, transpôs para suas páginas muito da sua experiência. O enredo é conduzido sobre o eixo da vida dos irmãos Phil e George, proprietários de grande fazenda de gado, da qual cuidam há 25 anos, desde que o pai se aposentou daquela lida exigente e máscula. Eles nos são apresentados a cavalo, no vale imenso cercado de montanhas, o que justifica o nome do estado: Montana. O ano é 1925. Desde as primeiras cenas percebe-se claramente que são personalidades antagônicas.

O esguio e mordaz Phil não gosta de banho, cheira mal, profere frases cortantes e cruéis; o levemente obeso George parece ter acabado de trocar uma roupa fresca, seu tom é sereno e gentil mesmo em relação ao irmão grosseiro, que no meio do filme ficamos sabendo ter-se formado em filosofia por Yale. Mesmo com muitas diferenças, a convivência entre o rude e o delicado parece tranquila. Até que, súbito, George se casa com Rose, viúva que cozinha para vaqueiros numa modesta pousada. A felicidade do irmão em encontrar companhia desperta em Phil uma inveja que se evidencia de diversas formas. Uma delas é rejeitando, desqualificando e humilhando ostensivamente a cunhada.

Usando sempre de sutilezas, privilegiando olhares, silêncios, gestos e simbologias, a diretora orienta nossa atenção para Phil, homem solitário e zeloso de seu poder. Entre seguir carreira acadêmica ou voltar para o campo, optou em passado distante por ser vaqueiro. Lapidou-se como cowboy nas terras que divide com o irmão que não demonstra entusiasmo por aquela vida. Para se tornar quem aparenta, Phil teve um tutor, um tipo de mentor admirado chamado Bronco Henry, nome recorrente nas suas lembranças. O mestre foi bem sucedido: ninguém imaginaria que dentro daquele homem tosco havia um conhecedor de filósofos, um expert em latim e grego, até um músico. Mas essas seriam qualidades mal vistas numa cultura onde castrar com violência um boi era a ação digna de aplausos.

Nesse ambiente revemos o filho de Rose, inserido de forma impactante nos minutos iniciais do filme. Peter (Kodi Smit-Mc Phee) é fisicamente frágil, delicado, ama flores e está ajudando a servir o almoço que a mãe preparou para os vaqueiros quando é visto por Phil. Este, mirando a sexualidade do rapaz, o cobre de piadas. O bullying se intensificará quando o jovem visitar a mãe recém-casada no rancho da família. O rancor à mulher e seu filho crescem de forma avassaladora no espírito de Phil. Incapaz de reagir, a tímida Rose entrega-se à bebida.

Aliás, Kirsten Dunst desempenha à perfeição o papel da mulher que muda de status social e sente-se tão desconfortável no novo ambiente quanto ameaçada pela presença do cunhado. Eis o nó da intriga que permanece em tons e subtons até que tomamos conhecimento de que Peter é estudante de medicina. Seus conhecimentos de anatomia, que expõe ao dissecar um coelho em seu próprio quarto, serão decisivos no desfecho dessa história extraordinária pelo que mostra e pelo que encobre. Ódio vai, ódio vem, súbita mudança de comportamento de Phil em relação a Peter acontece em cena desveladora.

Escolhendo um gênero ultra masculino como o faroeste para contar esta história, Jane Campion nos coloca em contato com os temas da inveja entre irmãos, da solidão, das lesivas relações de poder, da cultura machista. E do indomável desejo sexual numa cultura repressiva, desvelado pelo subtexto homoerótico. Quem assistiu a O Segredo de Brokeback Mountain terá visto isso antes. Mas, ao contrário do filme de Ang Lee, em Ataque dos Cães a repressão aparece de forma mais pesada e Campion usa de detalhes expressivos e simbolismos inteligentes para representar na tela o máximo de tensão.

É claro que ver tudo exige adesão total do espectador, tanto em relação aos diálogos quanto às expressões físicas e emocionais de personagens muito complexos. Se ele não ficar atento, correrá o risco de não entender o final. É pena, porque marcado por uma reviravolta surpreendente e sombria, o desfecho encerra magistralmente (enquanto forma) a narrativa e retoma o que foi mostrado logo nos primeiros minutos do filme, definindo assim sua estrutura circular. Por isso também é obra-prima.

Ataque dos Cães induz a mergulhos. Entre tantas reflexões leva a pensar no Cão que habita cada humano e ao ser atiçado é capaz de reações horríveis. Aliás, em inglês o título é The Power of the Dog, O Poder do Cão. Bem mais revelador da mensagem que o filme nos sugere sobre o Mal e seu poder de fermentar e destruir.

Cave Canem.

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