Me contaram que havia um bosque e, esquecida no fundo dele, uma vila. Na fronteira da comarca e ainda no bosque moravam esse pai amoroso, o filho e a mãe doente.
Os médicos de toda comarca tinham respondido ao pedido de socorro, mas a mulher adoecia cada dia mais pálida, mais fraca. A pele do rosto enrugada diante dos nossos olhos era pergaminho onde o tempo impiedoso escrevia.
A Morte montava guarda do lado de fora da palhoça, vez ou outra estendia o olhar para certificar-se que sua espera chegava ao fim. Numa noite de dor imensa e escuridão maciça, uma vela foi acesa e o clamor do menino a Morte ouviu. Inclinando dentro da penumbra, a Eterna Dama de nós oculta adivinhou nos joelhos dobrados do menino uma dobradiça metálica que o sustentava de pé contra a paralisia.
Ao lado da mãe na cama o filho sussurrava: Criador de todas as coisas, não me deixe desamparado e aliviai nossa dor. Dê mais vida à minha mãe, mesmo que da minha vida ainda por viver sejam abreviados os dias.
A Morte que a tudo ouvia compadeceu-se do jovenzinho. Contaram mais tarde que foi uma lágrima dela que borrou o contorno escuro da noite sombria. Com a primeira luz do dia, bateram à porta. Quem será? Os vizinhos já desistiram de nós. Os parentes despareceram. Boticários, médicos, curandeiros, todos desistiram. Quem será? O pai abriu a porta, o filho atendeu dizendo bom dia. A mãe agonizava em suplício de parto ao contrário.
Vestida de preto com ares de gato encurvado, a Morte foi convidada a entrar. Deu dois passos, não respondeu e nem se sentou. De pé, anunciou a cura do mal na existência rara de uma rosa violeta que solitária floresce no profundo do bosque, bem no alto do penhasco depois da última colina.
De pronto o pai: eu vou. Mas entendendo o mistério necessário do pai ficar, o menino argumentou: mesmo que da minha vida ainda por viver sejam abreviados os dias eu vou
E foi. Sem notar à luz da manhã radiante o sorriso meio triste da Morte, velha torta tentando não chorar de alegria.
O menino partiu confiante em busca a rara rosa violeta, grande aventura. E encontrou. Foram muitos os desafios para a perna gambeta, mas ele trouxe de volta à roda dos dias o vigor de sua mãe. Depois de beber a infusão violeta, curada, ela beijou o filho e para sempre foram felizes.
Das voltas que o mistério dá: o para sempre, sempre acaba. Enrodilhado na maravilha da partida (no oculto breve e raso da vida) quem dá de si o que tem de mais precioso, encontra a coragem que anima para a jornada definitiva.
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