Emprestamos do grego a palavra tragédia, que vem dos espaços da arte dramática. Ela se estende, em quase todas as línguas ocidentais, também a situações reais onde a protagonista é a morte. Se as catástrofes, também do léxico helênico, são inesperadas, repentinas, súbitas, e vêm “de cima para baixo”, conforme descreve sua etimologia, as tragédias muitas vezes podem ser anunciadas por sinais que poderiam nos servir de alerta a fim de evitá-las.
No Brasil, há cem anos pelo menos, a se ler o que relatam os jornais desde o início do século XX, as chuvas de janeiro, esperáveis no verão tropical, têm de precipitado de maneira crescente a cada estação, e de forma atemorizante desde meados dos anos 60. A quantidade de água que tem caído do céu vem causando alagamentos nas cidades, desmoronamento de morros e barreiras, mortes de adultos e crianças pobres. Nunca li notícia de gente mais abonada ceifada pela morte em tais circunstâncias. As pessoas que moram em áreas seguras, nunca serão atingidas por esses males que vêm não da natureza, que é sábia, mas sim do descaso das administrações públicas, nas três esferas governamentais. Governos não olham com a necessária responsabilidade e interesse a ocupação irregular do solo, de maneira que a população, sem saída, sem renda suficiente, vai construindo suas moradias em lugares onde conseguem se instalar, ou seja, perigosos e sem saneamento.
Ao descaso, a pior das causas, junte-se o despreparo de prefeitos para lidar com a situação. Afinal, o país pulsa é nos seus municípios. Janeiro terminou com vinte e nove pessoas (inclusive crianças) mortas na região metropolitana e no interior de São Paulo. Centenas de famílias ficaram ao deus-dará, perdidos todos os poucos bens, sem ter para onde ir. Mães com seus filhos, famílias inteiras, crianças pequenas foram tomadas pela perplexidade diante do que lhes ocorria. Pequenos comerciantes, como mostrou a mídia, choraram a perda de seus estabelecimentos, dos quais dependiam para viver. Choveu muito mais que o esperado para o mês, o que levou a deslizamentos de terra, fenômeno ocasionado por solos encharcados. A chuva contínua penetra na terra e abala as estruturas frágeis de casas que nunca poderiam ter sido construídas em encostas de morro ou próximas a córregos. De acordo com o governo do nosso Estado, cerca de 500 famílias ficaram desabrigadas ou desalojadas.
Como sempre acontece nos janeiros pluviais, os governadores da hora anunciaram a liberação de alguns milhões para a recuperação social e urbana dos municípios atingidos. Como sempre, a sociedade civil se mobilizou em solidariedade para acudir as populações mais afetadas com doações de alimentos e força de trabalho nos resgates. Como sempre, ficamos angustiados com as imagens de pessoas desesperadas diante de carros levados pelas águas e casas desabando e soterrando seus moradores. Como sempre, nos emocionamos com mães levando suas crianças para abrigos improvisados onde é feito o possível para que sejam protegidas e possam ao menos se alimentar, até que encontrem um lugar definitivo para morar. Algumas não encontrarão esse lugar e irão morar nas ruas.
Mas... em fevereiro tem Carnaval. As chuvas diminuem e a alegria fugaz que “a maior festa popular do mundo” confere a milhões de brasileiros costuma apagar as cenas devastadoras de janeiro. Até porque nossa memória não é das melhores. Se for ano eleitoral, os políticos, sempre de plantão quando se trata de angariar simpatias e votos, prometerão uma solução para esse gigantesco problema que atormenta os que lutam para sobreviver, ganhando durante o dia o sustento que terão de levar para suas casas à noite. Mesmo com pés encharcados, roupas molhadas e passos cansados, vão se sentir afortunados se a casa estiver de pé. Chega a ser desumana a vida nesses lugares insalubres, mofados, precários. Como pensar em saúde para todos nesse contexto? Como manter entusiasmo para buscar conhecimento? Uma casa deveria ser abrigo, proteção e lar. Todos merecem morar em lugar digno, seguro, com água potável e servida por rede de esgotos. Metade das casas brasileiras não possuem saneamento básico, apontou o IBGE na sua pesquisa de dois anos atrás.
Chuvas como as que caíram em nosso Estado nesse janeiro que se foi não são catástrofes. São fatos da natureza contra os quais não há o que fazer. Seria impossível e insensato impedir sua ocorrência. Mas se a natureza não pode ser responsabilizada por seguir seu curso, cabe aos candidatos que elegemos criar políticas públicas consistentes para cuidar do problema, preparando as cidades para uma nova realidade ambiental e retirando de áreas de risco as pessoas cujas vidas correm riscos. O poder público precisa ser cobrado incansavelmente, porque sem planejamento urbano vamos continuar assistindo a destruições e mortes nos janeiros brasileiros.
E negar as mudanças climáticas, cujos efeitos já estamos vivendo, é intensificar o perigo de aprofundar o atoleiro onde estamos afundando.
Sônia Machiavelli é jornalista, escritora e editora do portal GCN.
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