Desde o início da pandemia muitas coisas mudaram. Uma dessas mudanças, bem clara para todos, tem tido um impacto extremamente negativo na vida da maioria da população. Gás de cozinha, carne, arroz, feijão, combustíveis, água, energia, transporte público, entre outros itens e serviços essenciais, tiveram um aumento drástico de preço.
Muitas coisas tiveram um aumento monetário, com exceção dos salários de muitos brasileiros, que não acompanharam esses altos preços, fazendo com que quem tem pouco ficasse ainda mais pobre. Agora, em meio a tantas preocupações diárias, um dilema é vivido por diversas famílias: pago a conta de energia e raciono minha comida, ou não pago para que eu possa comer com um pouco de dignidade?
As duas escolhas são insatisfatórias, expondo a desigualdade que está ao nosso lado e muitas vezes não vemos, ou pior, não queremos ver. Mesmo que não represente toda a dificuldade vivida por essas famílias e de muitas outras, alguns francanos deram depoimentos ao portal GCN, contando situações que tem passado desde o início da pandemia.
Na manhã da última quinta-feira, 27, Antônio Carlos Rezende, desempregado, esperava na fila do Cadastro Único para conseguir uma forma de renda que pudesse melhorar sua situação financeira atual. Antônio está com um problema em sua perna, anda com dificuldade, utilizando uma muleta para se locomover. Ainda não conseguiu fazer a cirurgia, “estão agendando”. Ele sofreu um acidente há dois anos, e desde então não conseguiu um emprego fixo e registrado, conseguindo dinheiro através de bicos e de ajuda de amigos e familiares.
Em seu lar, ele mora com sua mulher e enteada. Atualmente, apenas sua mulher tem emprego fixo. Dessa forma, essa família consegue sobreviver, mas com dificuldades. “Para comer carne lá em casa é só sonhando. Temos que ficar no ovo e abóbora para substituir. Bem raramente dá certo de comer um frango a passarinho, pois é o que tem de mais barato”, conta Antônio Carlos.
Quando precisa ir para algum lugar, o desempregado explica que anda a pé, mas quando não tem jeito, utiliza o transporte público, contando com uma ajuda financeira para isso. “Meus amigos e familiares me dão uma ajuda para eu andar de ônibus quando necessário. Não tenho condição de ficar andando de ônibus por causa do preço da passagem. Antes eu tinha uma moto, mas tudo foi ficando muito caro. De um lado o combustível e comida lá em cima, do outro as contas vencendo. Sem condições de pagar, tive que vendê-la a preço de banana”, explica Rezende.
Agora, parte do sustento dessa família vem de doações de cestas básicas e da ajuda de igrejas próximas de sua residência. Antônio pede ajuda, e caso alguém tenha uma vaga de emprego, alimento ou consiga oferecer auxílio de outra forma, ele deixa seu número de celular para que entrem em contato: (16) 99403-4930.
Outra pessoa que teve que mudar a forma que utiliza seu dinheiro por conta da pandemia foi Marilene Ermínio Silva, de 58 anos. Diferentemente de Antônio, Marilene ainda consegue manter sua família sem a ajuda de doações, mas vive economizando. Ela não consegue trabalhar, pois passa o dia todo cuidando de seus dois filhos especiais, um de 39 e outro de 40 anos.
Em sua casa são apenas Silva e seus dois filhos. A única forma de sustento na casa é o BPC (Beneficio de Prestação Continuada), que utiliza para a compra do necessário para os cuidados de seus filhos e de outras contas.
Marilene vive dessa maneira já alguns anos, mas desde o início da pandemia o valor de praticamente tudo aumentou, mudando completamente a forma de viver. “Hoje vou para todo lugar a pé. É cansativo, mas faço isso para economizar e comprar tudo que meus filhos precisam. De quebra isso deixa meu corpo mais saudável por ser uma forma de exercício”, diz Silva, levando a situação de forma bem humorada, mesmo que não ache fácil.
Para a alimentação, os três comem carne em apenas por cerca de dois dias da semana, intercalando entre frango, salsicha ou linguiça. Nos dias em que não comem carne, quem toma o lugar nas refeições são as verduras. Anteriormente, antes do aumento, era comum o consumo diário de carnes, além de variar no tipo, indo além do frango, salsicha e linguiça.
“Roupas, calçados, coisas novas para nós ficou no passado. Hoje deixo de comprar muita coisa para poder pagar conta de luz, água e comida. Mantenho tudo em dia por conta dessa economia, é deixar de comprar as coisas e ir para os lugares andando, porque para ir de ônibus também está difícil”, explica Marilene.
Enquanto isso, nem todos conseguem pagar suas contas, escolhendo atrasa-las para conseguir pagar o aluguel e comida. Mãe de quatro filhos – todos menores de idade –, é divorciada do pai de seus filhos e está desempregada, Marlene Alves de Almeida cuida da família com a pensão e através de bicos como faxineira, pois ainda não conseguiu um emprego fixo.
Marlene trabalhava como diarista, era um emprego fixo, com a chegada da pandemia surgiu um grande problema: “Ficou difícil para todos, até para os patrões. Mandaram muita gente embora, incluindo eu”, conta Alves. Hoje ela consegue em média R$ 1.000,00 ao mês, somando a pensão e o que consegue quando realiza serviços de faxina em empregos temporários.
Apenas o aluguel de sua casa, fica na casa dos R$ 650,00, e lá se vai mais da metade do que consegue durante todo o mês. Com os R$ 350,00 que restam, sobrevive junto aos seus quatro filhos. “Tento pagar as contas de luz e água, mas às vezes é difícil. Muitas vezes opto por atrasar as contas para conseguir comprar nossas coisas”, lamenta a mãe solteira.
Dentre os problemas enfrentados por todas essas famílias de baixa renda, é possível observas duas coisas bem comuns. A primeira semelhança está na mudança radical no que se come. “Está muito difícil. Quando vamos no supermercado, compramos o que precisamos, mas não sabemos se na hora de passar no caixa vamos dar conta de pagar tudo. A carne está um absurdo, trocamos ela pelo ovo e chuchu”, conta Terezinha das Graças, aposentada que vive apenas com o salário mínimo que recebe com sua aposentadoria.
O segundo problema em comum enfrentado por essas famílias está na locomoção. O veículo próprio se tornou uma realidade distante para muitos, enquanto o transporte público aperta no bolso. “Não tenho nada. Não tenho carro, moto e nem mesmo uma bicicleta para andar”, conta Terezinha.
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