Quanto vale ajudar ao próximo? Para os moradores da Vila Formosa, na zona central da cidade, custou seu sossego e liberdade. Desde a sua instalação em maio de 2021, o Centro POP, renomeado como Espaço Dignidade, trouxe brigas, furtos, sexo explícito e uso de drogas.
“Vejo briga, masturbação e sexo em frente à minha casa. Tenho conversado com o prefeito, e não estou vendo mudança. Estou vendo que cada vez está piorando mais. Se começar assim, vai virar uma cracolândia. Estou pedindo socorro, nem estou pedindo ajuda mais”, diz Solange Aparecida Borges, de 62 anos.
Solange é líder de um grupo de moradores, e sempre foi contra a instalação do espaço. “Nós, moradores do bairro, lutamos muito para que não viesse. Enfim, perdemos”. Com a derrota decretada, aos poucos as coisas foram se estabilizando. “Com o tempo foi dando uma melhorada. Eles fecharam o muro que nós pedimos, porque já estavam armando ao lado do Centro POP”.
Não demorou muito e a situação desandou. Franca virou “polo” de moradores de rua de outras cidades e até países. “Veio um pessoal de fora, veio um pessoal até da Venezuela (...) tem da Bahia, de São Paulo, Ribeirão Preto e tudo que é lugar. Estes que vieram agora são pessoas diferentes dos que entraram. Eles são mais sem educação, bem baderneiros”.
Solange mora há 50 anos na Formosa e a 40 metros do Centro POP. Ela reclama da falta de proteção à saúde, uma vez que os vizinhos não usam máscara ou qualquer proteção. “O nosso prefeito está em redes sociais pedindo tanto para nós termos cuidado, e ele mesmo não está cuidando da casa a qual ele colocou para cuidar dos filhos dele”.
Falta de segurança
A insegurança obrigou Lays Elisa Ravagnani, de 35 anos, a mudar seus hábitos. “Moro na rua Coronel Tamarindo, mesma rua do Centro POP. Ia sempre a pé nos comércios da avenida Hélio Palermo. Hoje não tem mais como ir nesses estabelecimentos a pé sem ser abordado por diversas pessoas. Por esse motivo, acabamos tirando o carro da garagem para andar dois quarteirões, pois assim nos sentimos um pouco mais seguros”.
Assim como Lays, a insegurança tomou de Maria Amélia Faleiros, de 52 anos. “Nós estamos desprotegidos. Todo mundo teve que colocar concertina e câmera. Não pode sair de uma vez no portão, porque eles estão sentados em frente à sua casa ou estão passando, e são mal-encarados”.
Para Maria Amélia, o prédio onde está o Centro POP poderia ser usado para outras finalidades. “Um local muito bom, um local muito bonito, um local muito grande, no qual o prefeito poderia ter feito uma Unidade Básica de Saúde (UBS), porque o entorno do nosso bairro não tem UBS. Ali daria muito bem uma creche, porque aqui não tem”.
Relembrando o passado
A Vila Formosa é um bairro que possui muitos idosos. Grande parte dos moradores passaram os melhores anos de sua vida na região. “Passei minha infância aqui e posso dizer que era um bairro tranquilo. Sempre jogava bola na rua. Nunca teve problema de assalto. Minha mãe nunca foi assaltada na casa dela”, relembra Carlos Cesar Resende.
O cirurgião-dentista é proprietário de um consultório na avenida Hélio Palermo. Carlos acompanha a decadência da região há anos. “Cada vez mais moradores de rua mal-encarados. Pessoas que não são necessitadas. Marginais mesmo, que são ladrões. Pessoas que falam abertamente que são ladrões, que estão aqui para fazer bagunça, para fazer o caos na nossa redondeza”.
Carlos cansou de ver uso de drogas perto de sua casa. Até sexo já presenciou. “Drogas nem se fale. Drogas é a céu aberto, à tarde, em qualquer horário que vocês vierem eles estão com drogas nas mãos ou fumando. Nós já presenciamos sexo explícito aqui no bairro. Um bairro de idosos tendo que se deparar com sexo explícito em frente suas casas”.
Histórico de reclamações
Não é a primeira vez que moradores da região reclamam da bagunça nas proximidades do Centro POP. “Está um inferno isso aqui. Briga toda noite, até de madrugada. Sai briga de faca. Você abre o portão e tem três cornetando e enchendo o saco pedindo as coisas. Agora, construíram um acampamento em frente ao local que distribui refeições”, disse o educador físico Daniel Finotti, em matéria publicada pelo portal GCN no dia 23 de outubro de 2021.
“Fomos levar nossa filha ao judô. Ficamos sem chão. Montaram barracas, tinha brigas, palavrões, (gente) fumando drogas e bebendo. Estamos com medo de ficar dentro do carro esperando ela sair do treino... Passa gente pedindo dinheiro, gritando. Agora entendo o que os moradores da Vila Formosa passam”, contou Marisa de Oliveira da Fonseca.
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Prefeitura de Franca
A instalação do Centro POP na Formosa não foi o único trabalho social realizado pela Prefeitura na tentativa de resolver a situação dos moradores de rua e combater uma possível favelização em Franca. O Cepel (Centro Popular de Esportes e Lazer) foi inaugurado na última quarta-feira, 26, entre os bairros Vila Gosuen e Santa Terezinha, zona Norte da cidade.
O centro de lazer no canteiro central entre as avenidas William Azzuz e Flávio Rocha é para evitar a formação de uma favela, que se iniciava em frente à Casa de Passagem, onde pelo menos dozes barracas estavam montadas. A reportagem do GCN passou pelo local no dia seguinte à inauguração (quinta-feira, 27) e pelo menos quatro barracas foram montadas novamente ao redor da praça.
Além das ações realizadas, a Prefeitura de Franca afirmou que realiza um acompanhamento ao público vulnerável. “Com relação à população em situação de rua a Secretaria de Ação Social realiza diariamente um conjunto de serviços continuados de atendimento, acompanhamento e encaminhamento visando a proteção social desse público”.
Nessa última sexta-feira, 28, os equipamentos públicos recebiam 40 pessoas na Casa de Passagem; 40 pessoas no Serviço de Pernoite; 48 pessoas no Serviço de Acolhimento modalidade Abrigo e 100 pessoas no Centro POP.
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