SONIA MACHIAVELLI

Fratura de fêmur

Por Sonia Machiavelli | especial para GCN
| Tempo de leitura: 5 min

A imagem da múmia do faraó Tutankámon num livro de história e as aulas da professora Branca no então IEETC foram para mim, aos onze anos, portais que me introduziram em mundos antigos e inimagináveis. Eles me povoavam através de seus vestígios, encontrados por especialistas empenhados em escavações e estudos. O mundo e a humanidade assumiam em meu espírito outra dimensão, ora magnífica, ora misteriosa. Hoje, meu neto da mesma idade já acumulou conhecimento que vai muito além daquele no qual eu apenas me iniciava. E me surpreende com fatos que encontra nos livros e sites especializados. Quando vou com o milho, ele já vem com o fubá. Assim é a contemporaneidade acelerada, onde tudo muda rapidamente. Nascemos em um tipo de mundo, crescemos em outro e quando os netos chegam já estamos naquele totalmente diverso do que acolheu nossos filhos. Daí o esforço que devemos empreender para acompanhar as mudanças. Pobre daquele que acredita na estabilidade das coisas. Estará condenado a constantes frustrações.

Despertado no primeiro ano do curso ginasial, o interesse por mundos que nos haviam precedido nunca me abandonou e, na verdade, só cresceu. Quando chegou a hora de me decidir por um curso universitário, meu maior interesse era a antropologia. Mas o curso só existia então na USP, para onde eu não poderia ir. Decidi-me pelas letras, outra das minhas paixões. O que não significou que deixasse de ler tudo o que me caísse às mãos sobre a ciência que estuda o homem, seus aspectos somáticos, sua cultura considerada no sentido mais amplo: conhecimentos, crenças, leis, costumes, manifestações de arte. Etc. Acho que comecei com Durkheim que analisou as formas de organização social de povos primitivos. Segui com Lévi-Strauss e seu estruturalismo, procurando retirar da observação dos fatos modelos que pudessem ser comparados. Li alguma coisa de Feuerbach, autor que definiu o homem como “nada mais que parte e produto da natureza”. Mas quem mais me impressionou foi a norte-americana Margareth Mead (1901-1978).

Reencontrei-a na Internet, que nos oferece às vezes a possibilidade de resgatar temas que deixamos adormecidos nas gavetas da memória. Ela dedicou sua vida ao estudo do ser humano no ambiente físico e cultural em que vivia. Avaliou e registrou em teses as modificações que o ambiente imprimia no indivíduo e aquelas que o indivíduo operava no ambiente. Neste campo tudo lhe interessava: relações entre cultura e personalidade, a socialização de crianças, a sexualidade, os papéis diferenciais de gênero e as conexões entre cultura coletiva e personalidade individual. Uma de suas muitas contribuições aos estudos antropológicos foi demonstrar a influência do aprendizado sociocultural sobre o comportamento de homens e mulheres. Dona de estilo autoral elegante, claro, preciso na comunicação de fatos complexos, Mead tornou-se personalidade pop ao levar suas ideias a públicos cada vez maiores. Foi reconhecida como grande influenciadora do movimento hippie e sua capacidade de expor conhecimento com leveza e carisma foi além do que se poderia esperar de uma acadêmica. Ela falava “com” seus interlocutores e não “para” eles, o que representava enorme diferença.

O fato a que me referi acima relata passagem ocorrida em uma de suas conferências. Um de seus ex-alunos perguntou-lhe sobre um marco a ser considerado “o primeiro sinal de civilização em uma cultura”. É possível que o jovem pensasse na descoberta de como fazer anzóis, polir pedaços de pedras e transformá-las em instrumentos cortantes, moldar panelas de barro- coisas assim táteis, objetivas, sensoriais. A resposta foi surpreendente. De acordo com a antropóloga, o que sinalizava o início da civilização não era um artefato e sim uma atitude: “ O primeiro sinal de civilização numa cultura antiga está num fêmur quebrado e curado, encontrado em escavações.” E explicou. Entre selvagens, fraturar o fêmur, maior osso do esqueleto, era quase sentença de morte. Se não pela fratura em si, certamente pelo fato de que não podendo andar, o ferido sucumbiria à sede e à fome ou seria devorado por predadores. Mas se houvesse quem o alimentasse, hidratasse e levasse a local seguro; e depois lhe fizesse companhia por pelo menos seis semanas, tempo necessário para que o osso cicatrizasse, sobrevivia. “Ajudar alguém a passar por dificuldade é o ponto de partida da civilização”. Ou seja, o sentimento de compaixão nascido naquela situação específica, que o fêmur encontrado revelava ao olhar da antropóloga, apontava para o início de uma empatia que seria vital para a convivência social. Aquele homem que ajudava o outro, um bom samaritano “avant la lettre”, deixava de ser selvagem e trilhava os primeiros passos para se tornar civilizado.

 Ao lado de seu talento para a pesquisa científica, Margareth Mead possuía um forte viés literário, que aparecia em centenas de frases recolhidas por admiradores que as reuniram em livro. Transcrevo algumas. “Não teremos sociedade se destruirmos o meio ambiente./É mais fácil mudar a religião de um homem do que mudar sua dieta./Toda vez que liberamos uma mulher, liberamos um homem./ Uma cultura ideal é aquela que cria um lugar para todo ser humano./ A oração não consome energia artificial, não queima combustível fóssil, não polui; nem a música, nem o amor, nem a dança./O que as pessoas dizem, o que fazem e o que dizem que fazem é algo completamente diferente./Os pais são necessidades biológicas, mas acidentes sociais./E quando nosso bebê se move e luta para nascer, ele impõe humildade: o que começamos agora é dele.”

Entretanto, a que mais me toca neste momento, talvez por conta das inquietações extraordinárias que a maioria dos brasileiros enfrenta atualmente, é esta: “ Quando olhamos para as diferentes civilizações e vemos estilos de vida muito diversos aos quais o homem teve de se adaptar e para cujo desenvolvimento ele deve ter contribuído, sentimos nossa esperança na humanidade e suas potencialidades renovadas.”

É isso, minha gente. Apesar dos selvagens que vão e vêm, destruindo conquistas e indiferentes à vida, uma força maior deve se impor. É a força da solidariedade, que brota do reconhecimento de que somos humanos e o que acontece a um, acaba dizendo respeito a todos. A empatia, a compaixão, a fraternidade nos mantêm no curso da existência. Janeiro vai terminando. Agora, faltam apenas oito meses para que tenhamos uma chance de mudar o cenário de morte instaurado no país em 2018. O Brasil está fraturado e essa fratura não pode continuar sem cuidados. Precisamos urgentemente que nosso país retorne ao modo civilizado.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários