Às vezes, alguns episódios da vida parecem não ter um lado bom. Um acidente de moto que, por sorte, não tira a vida, mas faz sacrificar de toda uma rotina, pode ser um desses episódios. Kennia Batista, de 33 anos, viveu na pele um desses traumas e teve de amputar a perna direita há 11 anos. Mesmo após o acidente, acumulou conquistas: se formou em medicina veterinária, teve dois filhos e é campeã nacional de pole dance.
No dia 20 de setembro de 2010, pela rodovia que liga São Tomás de Aquino (MG) a Itirapuã, Kennia voltava de São Sebastião do Paraíso (MG) e, ao fazer uma curva, colidiu de frente com um veículo que vinha na direção contrária. Em consequência do acidente, ela precisou amputar a perna.
Foram cerca de oito anos de dificuldades, se locomovendo somente com a ajuda de muletas. “Tive infecções, os pontos da minha perna abriram, e demorou para poder me reabilitar. Como fiz muitas campanhas, depois de muito tempo consegui a prótese”, disse Kennia.
No tempo em que ficou sem as próteses, Kennia se formou no curso em que sempre quis: medicina veterinária. Antes do acidente, ela cursava educação física – trabalhava no comércio de dia para pagar a mensalidade e estudava à noite. A veterinária não era possível na época, por conta do valor.
Quando sofreu o acidente, ela trancou a faculdade de educação física, mas se dedicou a estudar para conseguir uma bolsa no curso que realmente queria. Kennia entrou na faculdade através no programa ProUni, pelas cotas para PCDs (pessoas com deficiência).
No segundo ano de faculdade, veio a notícia: Kennia estava grávida. Mesmo assim, continuou nas aulas presenciais, ainda sem prótese, até o primeiro filho nascer. “Tranquei por um ano e depois voltei com tudo”, falou.
“No penúltimo ano, fiquei grávida da minha filha mais nova, achei que não fosse conseguir terminar. Me separei do pai deles, ainda grávida dela, mas tudo isso só serviu de impulso para conseguir. Fiz o último semestre levando ela com apenas 3 meses para as aulas. Ao fim da gravidez, consegui enfim, comprar a prótese, e fomos nos adaptando.”
O pole dance
O pole dance foi algo que nunca passou pela cabeça de Kennia. Ela conheceu o esporte através de uma amiga que praticava e sempre a convidou para participar. “Eu achava que era impossível fazer sem uma perna”, falou.
A primeira vez na dança aconteceu após muita insistência. Não da amiga, mas da própria professora de pole dance. “Essa minha amiga me disse que o sonho da professora dela era treinar alguém com deficiência, mas que precisaria ser uma pessoa bem resolvida com isso, porque, afinal de contas, no pole dance a gente tem que usar roupas muito coladas, até mesmo para dar aderência.”
No início, a médica veterinária se recusou de todas as formas e deu várias desculpas, mas se impressionou com a professora de pole dance, que teve uma lesão no pé e precisou usar uma botinha para dançar. “Ela gravou um vídeo treinando com uma perna só e a outra imobilizada. Disse que eu já estava treinando para saber como ia me ensinar. Aí não resisti, tive que ir. Foi amor à primeira vista”, disse Kennia.
Atualmente, ela treina duas vezes por semana, e foi campeã na categoria PCD do Poleart Brazil, campeonato nacional de pole dance. O evento aconteceu em agosto de 2021. Tudo isso conciliado junto à profissão de médica veterinária, em que atende animais de pequeno porte e exóticos.
Superação
Mesmo com os desafios, a deficiência se tornou um motivo ainda maior para seguir em frente. Ao longo desses 11 anos, o principal empecilho foi a dúvida das pessoas em geral em relação à sua capacidade. “Claro que existem algumas limitações, hoje são menores, mas não vejo como uma dificuldade. Hoje faço tudo o que quero fazer, a minha deficiência não me impede de nada.”
Além disso, Kennia busca mostrar forças para incentivar os filhos: João Gabriel, de 6 anos, e Maria Helena, de 3. Como consequência de seu empoderamento, inúmeras outras mulheres se inspiram na sua história de vida.
“Eu recebo muitas mensagens de mulheres aprendendo a se amar verdadeiramente. Quero levar para o mundo o quanto é importante o amor próprio, e o quanto nós, pessoas com deficiência, também temos sonhos, trabalhamos e sentimos desejos, assim como todas as outras pessoas.”
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.