Antes da internet, apagar uma pessoa era matar essa pessoa. Dizia-se depois que ela ou ele bateu as botas, que foi pro céu, escafedeu-se, saía nota discreta no jornal se fosse pobre, alguém sempre dizia nos velórios que tinha a vida toda pela frente mesmo não sendo flor colhida em botão.
O fato é que, desde sempre, pessoas são apagadas da vida uma das outras ainda vivas. Dá trabalho, mas acontece o tempo todo. Não se fala disso porque coisas ruins só acontecem na casa dos outros, na família dos outros, na vida dos outros, como o câncer que nunca vai machucar quem amo até que aconteça, ou como ter um filho gay ou uma sobrinha dependente química; para o filho, o silêncio do armário é destino; para a sobrinha, a reabilitação noutro estado garante o anonimato e a continuidade do bem estar aos olhos do público. Em todo caso, a ordem é preservada e nossas vidas podem seguir em frente, sem alarde porque ninguém precisa saber das anomalias da nossa vida privada.
No aquário onde pesquei essa história, tão comum no fim das contas, o filho mais amado dos oitos que foram gerados com amor graças a deus porque somos devotos de São José, não conseguiu superar a gravidade do amor de sua mãe para se integrar a mulher com quem se casara. A sombra alegre da mãe, como comprova quem a conhecesse, pesava tanto que a nora maldizia a fera em voz alta nas reuniões de domingo pensando talvez que arrebanharia afeto e força para fugir com o marido daquele ninho.
Com o tempo, e porque dizem que os filhos preenchem o vazio dos casamentos, a fêmea deu ao macho dois filhos que seriam felizes para sempre só porque tinham no DNA a sombra da matriarca. Por um tempo deu certo, sempre dá certo por um tempo usar os filhos para preencher vazios, não fosse afundar no álcool a solução para tantas pessoas que se apagam culpadas intuindo não ser escolha delas, mas agindo por gravidade alheia.
O marido trabalhava muito, e ficaria rico graças a deus porque somos fiéis a São Benedito, mas era promíscuo e escondia a falta de caráter nas garrafas que bebia. Chata essa história, insistir na esfera da vida privada, não queria me intrometer e trazer o desconcerto até aqui, para certo milhão de homens a promiscuidade é sinal de virilidade; para outro milhão de mulheres, também. Pode ser erro de estatística escamotear os números, pode incorrer em apedrejamento. É mais comum que se pensa mães abusivas criarem filhos abusivos, o guarda-chuva do patriarcado cobre-nos por igual e penetra gêneros diferentes porque somos pessoas.
O marido parecia amar tanto as garrafas quanto suas amantes, usava-as de igual forma. Nada preenchia o vazio deixado pelo amor da mãe. Em casa estamos protegidos dessa verdade, graças a Deus. Quanto mais ele bebia mais crescia a inquietação da esposa, a ausência, então brigavam e ele que a traía porque era justo. Brigavam mais, bebia mais. E ainda sim, e talvez por isso mesmo, porquê sofria, era mais protegido e amado daquele jeito estranho que se ama um pássaro na gaiola. Ogra dela, cuja proteção silenciava cala: acabe com isso logo e volte para a única mulher que te ama de verdade.
Entre todos os fios adoecidos dessa história, inverossímil porque nunca aconteceria de verdade por perto, faltava uma boa justificativa para que a felicidade fosse alcançada. Então aconteceu, a esposa deu de bandeja o motivo para o divórcio quando vitoriosa jogou na cara do queridinho da mamãe que tinha arrumado um amante.
Se ele podia, ela também. Parecia justo, eu preciso ser amada. Mas o tiro saiu pela culatra como deveria ser, e nem arranhou o tal guarda-chuva invisível do patriarcado. Seguindo a órbita gravitacional da mãe protetora e abusiva é preciso repetir porque a imagem sagrada que se faz das mães é outro mito, todos resolveram apagar a infame destituindo da razão a adúltera, lançando-a ao esquecimento.
Meu filho, o divórcio do casamento civil não basta, peça a nulidade do matrimônio na Santa Igreja, o Papa que é Deus na terra há de compreender porque também é homem, em casa todos testemunharemos a seu favor, que é homem de bem trabalhador e dizimista, será como se a degenerada nunca existisse e você pode até se casar de novo, com a mulher certa que deve ser temente aos céus que nem eu, você vai parar de beber porque fiz promessa à Santa Edwiges, aquela vadia não te merecia, mamãe te protege, não sou santa mas te amo tanto quanto mais perto e seguro garanto.
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