PERFIL

Os desafios da enfermeira Bruna, 27 anos, que se tornou secretária de saúde em plena pandemia

Por Melissa Toledo | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Arquivo pessoal
'Havia pessoas esperando por leitos, e me senti muito fragilizada', lembra ela sobre o pico da curva da pandemia em maio de 2021
'Havia pessoas esperando por leitos, e me senti muito fragilizada', lembra ela sobre o pico da curva da pandemia em maio de 2021
Quando criança, como tantas outras, ela tinha predileção por brincar de professora. Entre as imaginárias aulas, nutria encanto por servir, cuidar e dar atenção ao próximo. O comportamento da infância se refletiu na escolha profissional. Bruna Francielle Toneti, 27, secretária de Saúde de Batatais, sempre teve certeza de que o ofício que escolheria para a vida estaria ligado à área de saúde e educação.
 
O que não era tão simples de prever é o tamanho dos desafios que a carreira lhe proporcionaria agora. No 11º mês de pandemia da Covid-19 no país, em janeiro de 2021, ela assumiu a pasta da Saúde em Batatais ciente da complexa missão que se apresentaria.
 
“Já sabia que tínhamos um grande desafio em relação à pandemia, pela minha prática diretamente no campo e na assistência. Mas, em termos de gestão pública, eu carecia de experiência, até porque poucas oportunidades temos na vida profissional de estar à frente de um cargo tão importante como uma secretaria de Saúde. Então, era um grande desafio profissional”, afirma.
 
Ainda em 2020, então como chefe de enfermagem do pronto atendimento da Santa Casa de Batatais, ela atendeu o primeiro paciente com diagnóstico positivo para o novo coronavírus. “Era um momento incerto, que não sabíamos muito o que estava por vir”, diz ela.
 
No ano seguinte, já como secretária e com a pandemia recrudescida, coube a Bruna conduzir o gigante desafio de saúde pública do município. Tudo parecia acontecer ao mesmo tempo. Enquanto se comemorava, por exemplo, a conquista de mais um leito para o município, era preciso angariar novos profissionais. A busca incessante por vacinas ocorria enquanto se buscava suprir as unidades com medicamentos. Precisava de mais testes. Era preciso mais, e mais oxigênio. 
 
Tudo era urgente e, em meio ao “sobe-desce” de emoções, um momento em especial ainda mexe com a memória e os sentimentos de Bruna. “Era noite, 22 horas, eu caí em prantos em minha sala na secretaria. Os estoques de oxigênio estavam comprometidos, eu precisava conseguir mais, e a dificuldade era muito grande. Pela janela, eu via a cruz da Igreja Matriz enquanto fazia cálculos sobre quantas horas tínhamos de oxigênio e tentava, ao telefone, não apenas conseguir, mas coordenar a busca, entrega e instalação. Havia pessoas esperando por leitos, e me senti muito fragilizada”, lembra ela sobre o pico da curva da pandemia, em maio do ano passado.
 
Até chegar ao posto que desempenha hoje, Bruna percorreu um caminho que começou tendo a USP (Universidade de São Paulo) como porta de entrada.
 
Da Escola de Enfermagem no câmpus de Ribeirão Preto, ela saiu bacharelada e licenciada. Na mesma universidade, se tornou mestre em ciências da saúde pelo programa de pós-graduação em enfermagem fundamental.
 
Além da saúde, aquela vocação para o ensino a fez especialista em tecnologias educacionais para a prática docente no ensino da saúde pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz.
 
E o sonho infantil da licenciatura, ela concretiza hoje no Claretiano – Centro Universitário, onde leciona no curso superior de enfermagem e na pós-graduação em enfermagem em saúde da família e enfermagem do trabalho.
 
Já o talento para a pesquisa foi – e ainda é – desenvolvido do grupo de estudos da reabilitação de pacientes cirúrgicos e oncológicos da USP, onde ela atua como pesquisadora.
 
A carreira que trilha pode ter os pés fincados na vocação para cuidar do próximo e ensinar, mas é na inspiração e no amor que tem pela família que ganhou campo e floresceu. 
 
Ela conta que seu grande espelho para a enfermagem foi a sua irmã, a enfermeira Adrielle Naiara Toneti, 31, igualmente graduada e pós-graduada pela USP. Foi também de casa que vieram apoio e incentivo aos estudos.
 
Os pais Rita de Cássia e José Adalberto são trabalhadores rurais, moram em um sítio, e sempre colocaram os estudos em posição de prioridade para as filhas. “Eles sempre nos incentivaram a estudar, nós tivemos muito apoio para que pudéssemos, minha irmã e eu, a cada dia conquistar e valorizar aquilo que a gente conseguia e tinha”, disse.
 
Ao começar 2022, Bruna se vê novamente cara a cara com mais um – não tão novo, mas mais incerto do que nunca – desafio.
 
Há três dias (5, 6 e 7 de janeiro) Batatais registra recordes progressivos de novos casos positivos de Covid-19. A cidade de 63 mil moradores contabilizou 455 novos casos no período.

“Tenho muito receio em relação ao cenário epidemiológico atual. No ano passado, tínhamos dificuldades em termos de gravidade clínica. Agora, a dificuldade está relacionada à quantidade de pessoas infectadas. O cenário é nebuloso.”

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