Adoçado ou amargo. Cappuccino, duplo, expresso ou tradicional. Quem não gosta de um cafezinho coado na hora? A segunda bebida mais consumida pelo brasileiro sofreu um aumento nas prateleiras dos supermercados. Em Franca, não foi diferente.
Um pacote de 500 gramas de café arábica de determinada marca era encontrado a R$ 6,90 em outubro de 2021. O mesmo produto está sendo vendido a R$ 14,90 em janeiro deste ano. Uma alta superior a 115%. Já em outra marca, o pacote de 500 gramas do arábica custava R$ 5,90. Atualmente, o consumidor precisa pagar R$ 12,90 pelo mesmo item. Um aumento de 118%.
“Senti que o preço simplesmente dobrou e acabou pesando no orçamento. Se pararmos para pensar, é abusivo o valor que se encontra o café”, afirma a pedagoga Roselane Cristiana de Morais, de 44 anos.
A moradora da Vila Tótoli, na zona Leste de Franca, diz que café cura até dor de cabeça. “Tomo café todos os dias, a toda hora. Às vezes estou com dor de cabeça, tomo uma xícara de café e logo passa. Muitos falam que o café tira o sono, para mim é o contrário, se estou sem sono, passo uma xícara de café e logo durmo. Como dizem, café é um vício”.
Apesar do alto valor, Roselane descarta retirar o item do carrinho de compras. “Não pretendo trocar de maneira alguma meu café por outra bebida. Mesmo o valor sendo abusivo, não fico sem meu cafezinho diário, semanal, mensal e anual”, brinca.
A cafeteria Canto da Vó, na avenida Presidente Vargas, trabalha com cafés especiais. “Compramos o café verde que é torrado por um mestre de torra. Pagamos nas sacas anteriores R$ 900 (a unidade). Hoje, a mesma saca vai estar R$ 1,6 mil”, conta o proprietário, Vagner Mesquita.
Mesquita está segurando ao máximo o preço para não repassar aos clientes. “A gente tem feito uma técnica de segurar os preços para não afugentar os nossos consumidores porque eles não têm responsabilidade sobre esta alta de preços e o salário não subiu desta forma. Então, a gente tem que assimilar parte desse preço, diminuir nosso lucro e tocar a vida”.
Quem é o culpado?
A saca de café na Cocapec (Cooperativa de Cafeicultores e Agropecuaristas) custava entre R$ 500 e R$ 600 em 2019. Hoje, o mesmo produto, está sendo comercializado entre R$ 1,4 mil e R$ 1,5 mil. Um reajuste de 150% em seu valor.
Diferentemente de outros anos, o alto valor na produção afetou o consumidor final. Um dos culpados foi o clima. Após a baixa colheita em 2021, a expectativa foi depositada em 2022, que, infelizmente, já decepcionou. “Deveria ser o ano da ‘supersafra’ como costumamos dizer. No entanto, a estiagem e as geadas severas que nos atingiram simplesmente dizimaram grande parte dessa produção que viria agora”, lamenta o cafeicultor Paulo Henrique Faleiros.
Paulo Henrique possui uma plantação em Ribeirão Corrente, município a 34 km de Franca. “No meu caso em especial, acompanhando o cronograma das nossas lavouras, em 2022 deveríamos colher entre 4 e 5 mil sacas de café, mas estamos trabalhando duro para ver se conseguimos colher 1,5 mil sacas”, completou.
Há quem diga que a instabilidade do clima já afetou a plantação de 2023. “Passamos por duas secas históricas comprometendo muito os cafezais da nossa região. Tivemos três geadas, o que irá trazer ainda mais perdas para as safras de 2022 e 2023. Muitas lavouras sofreram danos fisiológicos e a planta não teve uma floração normal”, diz Marcelo Jordão Filho, engenheiro agrônomo e pesquisador da Fundação Procafé.
Adilson Machado Junior é coordenador de Operações de Café da Cocapec. Para ele, ainda é cedo para avaliar o prejuízo que seus cooperados terão na colheita deste ano. “É um período subjetivo para cravar o quanto vai ser essa perda, seja ao nível regional ou nacional, mas sabemos que a produção vai sofrer pelos problemas climáticos”.
Como se não bastasse, a economia também foi vilã do consumidor. As commodities de café são cotadas em dólar e regidas pela Bolsa de Valores de Nova York. A valorização da moeda americana no Brasil encareceu o produto internamente. Outro fator foi a instabilidade do mercado. Empresários começaram a investir em commodities de café para ter um retorno seguro. A alta procura aumentou o preço do produto. Commodities são mercadorias em estado bruto com produção em larga escala.
Além da mudança de preço nas cotações, a inflação bateu na porta da indústria. “Tem o transporte do produto pronto, o frete, a embalagem usada na indústria e a própria mão de obra com o reajuste salarial do período. Os custos de industrialização aumentaram”, relembra Adilson.
Visão da Apas
O preço do café apresenta tendência de alta nos supermercados nos próximos seis meses, como consequência da redução na produção e por conta dos baixos níveis de estoques internacionais, aponta estimativa da Apas (Associação Paulista de Supermercados).
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