Afastada de suas atividades como sapateira em uma fábrica de Franca há quase três anos por conta de tratamento oncológico, que inclui sessões de quimioterapia e incontáveis idas a consultórios médicos e laboratórios, Cícera Aparecida Ramos, 57 anos, foi considerada há poucos dias pela perícia do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) apta a retomar o trabalho.
Contatado pela reportagem do GCN, o órgão alegou que a perícia a considerou inapta, mas que uma “pendência no sistema” teria gerado a decisão contrária.
O problema é que o documento pericial que Cícera tinha em mãos trazia cravado no rodapé que a sua solicitação de prorrogação de benefício por incapacidade foi indeferida por “não constatação de incapacidade laborativa”.
O resultado, no primeiro momento, caiu feito bomba na família humilde, moradora do Jardim Paulistano 1. E toda indignação e inconformismo deles foram validados quando, ao passar pelo médico do trabalho da empresa para a qual Cícera presta serviço, no último dia 3 de janeiro, o atestado de saúde ocupacional a considerava inapta.
Desesperado, o sapateiro Norivaldo Cândido Barbosa, 56, marido de Cícera, procurou a redação do GCN para denunciar o que chamou de “descaso e covardia” com sua mulher. “Não tem cabimento falar em voltar. Inclusive, neste momento, ela está lá no Hospital de Câncer fazendo quimioterapia. Ela perdeu um pouco do movimento do braço, por ter retirado glândulas em uma cirurgia. Também retirou a mama e, agora, trata um câncer de pulmão”, disse, na tarde da última terça-feira, 4.
Ao apurar a denúncia, a reportagem do GCN buscou ouvir o INSS para entender as razões que levaram o órgão a considerá-la apta ao trabalho mesmo diante de suas queixas e relatórios médicos descrevendo sua condição de saúde comprometida, e a consequente interrupção do pagamento de seu auxílio por incapacidade temporária.
"Pendências no sistema"
Ao contrário do que mostra o documento apresentado pela família de Cícera à reportagem, após checagem dos dados, a assessoria de comunicação do INSS informou que a sapateira foi, sim, considerada inapta a retomar o trabalho.
Informou ainda que o benefício que ela recebia desde fevereiro de 2019 e que havia sido interrompido ao final de dezembro, foi agora estendido até 28 de junho de 2022.
“A perícia médica considerou que a senhora Cícera estava incapacitada para o trabalho, mas, para a conclusão do processo, havia algumas pendências no sistema que foram resolvidas”, diz comunicado do órgão.
Após saber da resposta do INSS, Norivaldo comemorou, emocionado. “A gente fica muito feliz em saber disso. Não estamos tendo renda, fui demitido e agora faço bicos. Pagamos aluguel, ela tem que comer muitas frutas, os remédios são caros e é tudo muito difícil. Que Deus abençoe grandemente vocês da reportagem, que sem vocês eu não sabia o que fazer”, disse.
Ao chegar em casa, no início da noite desta sexta-feira, 7, o sapateiro checou o sistema “Meu INSS”, via aplicativo, e confirmou a alteração formal na decisão. “Na hora do almoço aparecia como indeferido o pedido, agora já está deferido, graças a Deus. A Cícera está repousando por conta da 'quimio', mas contei para ela e isso a deixou feliz demais. Ela está muito agradecida.”
Canal no YouTube
Quem quiser conhecer melhor a história de Cícera pode acessar o canal criado por ela no YouTube, o Canal da Cícera, onde ela registra uma espécie de “diário pessoal”.
Em vídeos postados quase diariamente, ela mostra sua rotina de tratamentos, receitas culinárias, passeios e paródias bem-humoradas de outros vídeos de redes sociais. Algumas das postagens ultrapassam 1,7 mil visualizações.
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