A nostalgia é perigo iminente para o espírito alerta, vem na calmaria depois de tudo impiedosa, promete prazer na dor, o pior parece entretenimento, mina a perseverança, nada constrói ou propõe, quase não perturba e por isso mesmo é bem-vinda, causa indelével dissabor como faca cravada, pulsa metálica onde o coração falha, é abraço de medusa, a mão temida de midas, salmo na voz de sereias, o fogo mortífero nas línguas da hidra, o torpor da morte na fogueira das vaidades, a resposta ao convite do silêncio no mausoléu
A nostalgia é prima-irmã da saudade nascem disformes no desvão das impressões e crescem maculadas até a foz da razão
A saudade guarda o inteiro do vivido, o verniz na superfície dos sentidos, o que seria melhor sem fim, guardado, imagens aromas cores qualquer detalhe, números latitudes e longitudes ou uma previsão do tempo, sensação térmica de um instante agrega valor a quase tudo, anima o coração triste e livra da culpa o arrependido, encurta distâncias e move o intransponível, aproximando amantes amargurados pela dúvida, guarda a promessa de continuação e propõe, desfecho transitório quando agir não convém, senão por conveniência e rima
Nostalgia & Saudade é um poema do livro Depois eu conta: diário dos miseráveis (Penalux, 2021)
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