PROBLEMA URBANO

Policiais e limpadores de para-brisa se alternam no cruzamento da Presidente Vargas com a Major Nicácio

Por N. Fradique | Da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
N. Fradique
Polícia no cruzamento das avenidas Presidente Vargas com a Major Nicácio onde se concentram os limpares de para-brisa
Polícia no cruzamento das avenidas Presidente Vargas com a Major Nicácio onde se concentram os limpares de para-brisa

A polícia chega, eles saem. A polícia sai, eles voltam. Essa cena já é comum no cruzamento das avenidas Presidente Vargas com a Major Nicácio, onde adolescentes se concentram nos semáforos para limpar para-brisa de carros, preferencialmente, em troca de algum dinheiro.

O local, um dos pontos com maior fluxo de veículos em Franca, virou palco de denúncias de tentativa de agressões, furtos e receio das pessoas que circulam próximo dali.

O problema já é do conhecimento do Ministério Público, do Conselho Tutelar e principalmente da Secretaria de Ação Social da Prefeitura. Inclusive a prefeitura criou recentemente o programa “Minha Primeira Chance”, que oferece R$ 300 à família do adolescente, na tentativa e combater trabalho infantil e retirá-los dos semáforos. 

Após a realização de um censo pela Ação Social, foram identificadas 195 situações de exploração de trabalho infantil, mas nem todos aderiram ao programa, preferindo continuar nas esquinas. 
 
Um grupo de aproximadamente 15 desses menores segue nos semáforos.  Entre eles há um maior de idade. Ele se chama Wilkins Aurélio Almeida Ferreira, 19 anos, que mora no bairro Bonsucesso, zona oeste da cidade. Naquele bairro, moram pelo menos outros seis garotos que formam um grupo que diz trabalhar no cruzamento das duas avenidas na área central da cidade.

Wilkins diz que a Polícia vem pressionando o grupo para que deixe o local, principalmente após a denúncia na semana passada quando alguns menores foram acusados de tentar agredir um homem com pedaço de pau.

“Na real, a pressão da polícia é grande todos os dias, dizendo que a gente está fazendo coisas que a gente não fez. Hoje a polícia chegou falando que a gente estava fazendo ameaça à população, mas isso não ocorreu. Vieram oprimir a gente. Eu filmei tudo que a polícia falou pra gente”, disse o líder do grupo nesta sexta-feira, 17. Na semana passada Wilkins chegou a ser levado pela polícia militar até a CPJ (Central de Polícia Civil).

Questionado pela reportagem se os adolescentes ameaçam quem não aceita limpar o vidro do carro, Wilkins admitiu que nem todos os garotos pedem primeiro para fazer o serviço. “Se eu disser que são todas as vezes que a gente pede, vou estar mentindo. Falando por mim, eu sempre pergunto para o cliente antes, mesmo porque, na educação, eu consigo ganhar uma gorjeta. Mas tem caso sim, que os meninos já chegam jogando os produtos (de limpeza), e não pedem para limpar”.

Wilkins conta que tem uma filha de quatro anos, por isso trabalha de limpador de para-brisa de carro, mas não se considera líder do grupo. “Eu não me vejo nessa situação de ter que arcar com a consequência de ninguém. Se eu estou aqui, é para fazer o meu. Estou aqui porque eu preciso. Não estou aqui para fazer palhaçada com as pessoas. Venho até aqui a pé para levar o pão para dentro de casa, e não ficar com palhaçada. Eu não respondo por ninguém, eu respondo por mim”, disse.

Observado por mais três adolescentes enquanto conversava com a reportagem, o limpador de para-brisa disse que chegava a tirar até R$ 200 por dia trabalhando nos semáforos, mas que atualmente consegue metade disso.

Sobre as acusações de que seu grupo às vezes xinga, chuta os carros e desrespeita filhas de motoristas que estão dentro dos veículos, ele disse que não responde pelo outros colegas.  

Questionado como reage após realizar a limpeza e o motorista diz que não tem dinheiro, Wilkins disse que fala: “Deus abençoe e muito obrigado. Volte outro dia”. O jovem de 19 anos completa: “O pessoal tem medo da gente. Enxerga a gente como uma ameaça. A gente não é essa ameaça que eles estão posicionando”.

Para ter direito ao auxílio financeiro da Prefeitura, o jovem cadastrado no programa “Minha Primeira Chance” precisa ter frequência escolar, seja em escolas do munícipio ou do estado. É necessário também que as crianças e adolescentes participem dos cursos e das outras atividades oferecidas, como aulas de arte, cultura e esporte. 

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