O jabuti é um animal da fauna latino-americana que aparece em lendas indígenas, africanas e orientais. Em todas assume símbolo cosmogônico, por ter o casco em forma de cúpula como o céu, e o abdome aplainado como a terra. No âmbito da literatura, Mário de Andrade faz em “Macunaíma” várias alusões a ele e deu o título de“Clã dos Jabutis”a um livro de poemas pouco conhecido, mas valioso no contexto da literatura modernista.
A expectativa de vida dos jabutis é maior que a dos humanos. Em condições favoráveis, passa dos cem. Eles bebem pouca água e se deslocam lenta e suavemente. O nome é de origem tupi e pode significar duas coisas: “o que é resistente” e “o que bebe pouco”. O feminio de jabuti é jabota e este é o nome da protagonista do livro “Jabota Pitanga e a paineira”, de Elaíse Marie, pseudônimo de Elaíse Mello Barbosa, incansável defensora de tudo o que vive sobre a face da Terra.
Pela magia ficcional da Autora, essa jabota antropomórfica de oitenta anos conversa o tempo todo com sua dona e amiga, a menina Lisandra, de dez. Certo dia, a alfabetizada Jabota Pitanga lê numa folha de jornal (que o vento tinha levado para o quintal) notícia sobre árvore centenária. Isso a faz rememorar promessa feita na infância ao pai, a de entregar à velha árvore certa bolinha que tinha pertencido ao avô. A protagonista confia seu desejo de cumprir o prometido à menina, que convence o pai a levar ambas até o lugar- “ entre os km 406 e 407 da rodovia Cândido Portinari”, conforme cita o jornal.
Enquanto esperam chegar o dia, Jabota conta muitas histórias sobre a cidade de Franca. Em pequenos capítulos relata o que tinha visto em sua existência e o que lhe haviam contado o pai e o avô. Quando nosso ouvido recebe com interesse o que a voz do outro informa, guardamos para sempre o que foi dito. Nesse contexto Jabota explica a razão de querer chegarao lugar mencionado: seus antepassados haviam vivido ali. E, há pouco tempo, por conta da duplicação da rodovia, a paineira de muitas lembranças quase tinha sido assassinada por motoserras. Se isso tivesse acontecido, parte do passado teria sido destruído.
A saga criada por Elaíse Marie expõe de maneira poética e pedagógica a “biofolia, sentimento de amor à vida, o que nos conecta à natureza e a todos os seres vivos do planeta.” Também nos estimula a refletir sobre o valor da memória na preservação da história. E, tanto quanto a personagem que entrega algo do passado ao presente, o discurso cumpre esse papel de mostrar ao leitor a cidade desde seus primóridos, a vida até mesmo antes do homem, todo o legado que recebemos e que nos cabe levar adiante. Isso é profundo.
Na vida real, onde se nutre o enredo, há de se destacar a força da união em torno de um objetivo. Foi graças a notíciário intensivo da mídia, e movimentação nas redes sociais, que as pessoas se uniram na defesa da vida da paineira. O professor de biologia Mateus Domingos Mendes da Silva teve papel importante nesse acontecimento. Seu post defendendo a vida do patrimônio vegetal foi curtido por mais de dez mil pessoas, somando dois mil e tantos comentários e seiscentos compartilhamentos. O educador também se manifestou na Câmara Municipal, fazendo aprovar um decreto que protegia a árvore. A repercussão do assunto chegou ao governo do Estado. O desenho da rodovia foi modificado para não esbarrar na paineira.
Livro infantil não é fácil de escrever. Elaíse conseguiu fazer isso com criatividade, conectando vida humana, animal e vegetal. A leveza da escrita, a informação em doses equilibradas, a linguagem adequada somam-se em qualidade à sutil eleição de personagens femininas para falar de vida, luta, conhecimento, manutenção da memória. Livro infantil não é fácil de ilustrar. Ana Laura Alvarenga traduziu com imagens delicadas o texto, associando tons terrosos, verdes e róseos à temática do meio ambiente. Pintou com delicadeza oriental a paineira florida.
Avançou o desenho além da página num movimento de liberdade. Fez uso metafórico de pequenos detalhes como os óculos de aros enormes de Lisandra e sua mãe, no banco do carro. Um livro pede muitas parcerias. Por isso, cumprimentos à revisora Grácia Carloni; à escritora Vanesa Maranha pela consultoria, a Victor Prado, designer editorial, e a Artefato Edições que se uniram na produção desse livro bonito e estimulante.
Ouso aqui sugerir a Elaíse Mello Barbosa, que coordena com tanta dedicação e competência o grupo Verdejar, Comitê do Grupo Mulheres do Brasil, que leve Elaíse Marie a continuar a história, pois afinal Jabota já cumpriu sua missão. Minha proposta é que a Autora cuide agora de fazer falar a Paineira, que deve ter muitas histórias para contar. As crianças (e adultos) que lerem o livro vão querer saber!
Antes de colocar o ponto final nesse comentário, gotaria de lembrar alguns escritores brasileiros que amaram as árvores. José de Alencar e o tronco do ipê. Augusto dos Anjos e o pé de tamarindo. Joaquim Nabuco e as mangueiras. Olavo Bilac e as velhas árvores inominadas. Gilberto Freyre e as jaqueiras, os jambeiros. Ary Barroso e os coqueiros que dão coco e onde a lua vem brilhar. José Mauro de Vasconcellos e seu pé de laranja-lima traduzido para 36 idiomas. Carlos Drummond de Andrade diante da solitária amendoeira. Rubem Alves deslumbrado com os ipês e flamboaiãs de Campinas. Rubem Braga e Roberto Carlos tratando cajueiros distintos com o mesmo afeto.
Junte-se a eles, Elaíse Marie. Dê voz à Paineira. Ela é como certas árvores que parecem irmãs das crianças eternas que são os poetas. Estes sabem ouvi-las tanto quanto às estrelas porque estão sempre conectados à Vida.
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