Conhecido por sua atuação como ativista pelos direitos humanos, o padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo na Arquidiocese de São Paulo, tem feito de seu perfil no Instagram vitrine em que expõe cidades, estabelecimentos e instituições que fazem campanhas contra a doação de esmolas. Nesta quarta-feira, 8, Franca foi destaque em pelo menos três publicações postadas pelo padre em sua conta na rede social, onde soma mais de 870 mil seguidores.
Em fogo aberto contra o que ele classifica como “aporofobia”, a aversão ou fobia em relação a pessoas pobres, padre Júlio reproduziu uma foto de uma placa instalada na entrada da Padaria Estrela, que orienta os clientes a, “para conforto e segurança de todos”, não doarem esmolas naquele local. “Aporofobia inacreditável”, escreveu o padre na legenda.
“A ação nunca deve ser isolada, (deve ser) sempre em conjunto com outros, ações que ajudem na convivência a se construir respostas, não para eles, mas junto com eles. A questão social é responsabilidade de todos, de todas as pessoas, dos empresários também. Não basta repelir, rechaçar, impedir a proximidade das pessoas, mas sim partilhar a vida com eles, todos nós precisamos de empatia, e não de antipatia”, disse o padre Julio Lancelotti em entrevista ao portal GCN.
O empresário João Batista Lima, sócio da padaria, confirmou que a placa existe. Segundo ele, a ação é uma tentativa de combater a degradação da região, transformada em “um antro de pedidores” que pedem dinheiro e objetos em tom de ameaça.
“Os clientes tinham que trazer para eles coisas da padaria. Eles pleiteavam dinheiro e outras coisas para as casas deles. Começamos a receber reclamações dos nossos clientes dizendo que estava difícil vir à padaria e que tínhamos que tomar uma providência. Mas a padaria não tem poder de fiscalização na parte externa. Então, fizemos uma placa pedindo para que não fizessem doação naquele local, para segurança e garantia de todos”, disse.
João Batista diz que funcionários da Estrela presenciaram casos em que pedintes deixaram o local ao fim do dia com 10 sacolas cheias de doações, indo embora a bordo de um Uber. O empresário ressaltou que a padaria tem suas próprias ações sociais. “Sempre fizemos e fazemos. Com a Pastoral do Menor, com as paróquias, com creches. Isso é natural nosso, um detalhe que sabemos fazer da porta para fora. As placas estão lá para criar a defensiva dos nossos clientes. E surtiu efeito, porque esses pedidores saíram de lá e a calçada tornou-se novamente livre. Não são placas agressivas. Estou só pedindo para não fazerem doações ali. Se o transeunte resolver fazer, é foro íntimo dele”, disse.
Durante a tarde, parte dos seguidores do padre Júlio “invadiu” os comentários da última postagem da Padaria Estrela no Instagram. Foram postadas mensagens repudiando o comportamento da direção do estabelecimento. “Que vergonha de vocês”, escreveu uma das internautas. “Neste Natal não dê dinheiro para empresas que rejeitam os pobres. Jesus Cristo agradece”, postou outro usuário.
Catedral
Em outros dois posts, o padre critica a atitude da Sé Catedral Nossa Senhora da Conceição de Franca, que instalou grades de ferro em seu entorno. O equipamento de proteção do prédio foi incluído em uma reforma feita no ano passado.
“A ação da igreja tem de ser sempre de acolher, nunca de rejeitar ou repelir. Para combater a aporofobia sempre temos que partir da hostilidade para a hospitalidade. O que todas as igrejas podem fazer é ter uma equipe de pastoral de rua, com convivência com as pessoas. Não adianta repelir, é preciso acolher, conviver e perceber os caminhos. Com uma mão, devemos partilhar o pão. Com a outra, lutar para que haja políticas públicas e uma ação de acolhimento verdadeiro destas pessoas; não de escondê-los em albergues, mas de termos respostas de moradia. É preciso conhecer as pessoas para saber os caminhos”, disse padre Júlio.
A reportagem do GCN tentou falar com a secretaria da catedral e com dois padres da paróquia para solicitar um posicionamento sobre o caso, mas não conseguiu contato na tarde desta quarta.
As três publicações referentes a Franca estão recebendo comentários de diversas partes do país e também de francanos no Instagram de padre Júlio. Todas elas, até a conclusão desta reportagem, no final da tarde desta quarta-feira, 8, endossavam as críticas tecidas pelo religioso.
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