Trinta de outubro de 2021. Durante a tarde de um sábado nublado, um grupo com 28 bombeiros civis, a maioria de Batatais, Ribeirão Preto e Franca, desembarcava na gruta Duas Bocas, uma das 19 cavernas posicionadas na região rural de Altinópolis, para um treinamento. Para nove deles, aquela era a última vez que veriam a luz do sol. A chuva forte que caiu ao anoitecer os levou a se abrigar na caverna. Por volta da 0h40, o teto desabaria sobre parte do grupo.
Na data para não ser esquecida, 16 pessoas foram atingidas, cinco delas tiveram ferimentos considerados leves. Dois, o batataense Wallace Ricardo da Silva, 31, e o francano Antônio Marcos Caldas Teixeira, 28, foram resgatados com vida, ficaram hospitalizados por mais de uma semana, tiveram alta e se recuperam em casa.
Nove, entretanto, morreram: Celso Galina Júnior, líder do grupo, Jennifer Caroline da Silva, Jonatas Ítalo Lopes, Natan de Souza Martins, Rodrigo Triffoni Calegari, Ana Carla Costa Rodrigues de Barros, José Cândido Messias da Silva, Débora Silva Ferreira e Elaine Cristina de Carvalho. As vítimas tinham entre 18 e 53 anos.
Equipes de resgate de diferentes municípios da região participaram do atendimento às vítimas, em um trabalho desafiador dificultado pela presença de mata fechada, condições climáticas desfavoráveis – chovia muito –, e pelo solo íngreme e com muita lama.
Laudo pericial
Para investigar o acidente, um inquérito que apura as suspeitas de homicídio e lesão corporal culposos (quando não há intenção) foi instaurado na Delegacia de Altinópolis. No entanto, um laudo pericial da Polícia Técnica descartou ação humana e indicou a causa do acidente como indefinida.
O documento, assinado pelo perito criminal Hugo Morais, diz que não foram encontrados indícios de que tenha havido escavações ou o uso de máquinas ou ferramentas que pudessem abalar a estrutura da Duas Bocas. Os peritos encontraram somente fissuras e manchas de umidade nas paredes e no teto da gruta.
Durante as oitivas, o delegado que chefiava as investigações, Rodrigo Patto, colheu o depoimento de 12 pessoas: 11 bombeiros civis que sobreviveram ou estavam na cena do acidente, além do empresário Sebastião Abreu, dono da escola Real Life, que organizava o treinamento que terminou em tragédia.
A reportagem do GCN tentou ouvi-lo por seis vezes durante esta terça-feira, 30, mas ele não atendeu e/ou não retornou os contatos para falar, diante do laudo que apontou que o desabamento foi acidental, qual o sentimento que predomina nele e na equipe após passado um mês da tragédia, e para que também respondesse se, após o acidente, adotou alguma medida diferente em seus cursos e procedimentos.
O laudo que afasta causa de ação humana no acidente não extingue eventual responsabilidade civil por parte da empresa. Caso Abreu retorne os contatos, este texto será atualizado.
Na delegacia de Altinópolis, a informação é que Patto está afastado de suas atividades e que o caso foi assumido pelo delegado José Arnaldo de Lacerda Júnior, que não estava na unidade. A reportagem apurou que ele é quem deve relatar o caso e encaminhar os autos ao Ministério Público, já nos próximos dias.
Grutas fechadas
Após o recebimento de um laudo técnico elaborado por técnicos do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) e do IPA (Instituto de Pesquisas Ambientais) sobre as condições da gruta Duas Bocas, desde 11 de novembro, a Prefeitura de Altinópolis interditou os acessos a 19 grutas localizadas no município por tempo indeterminado.
O levantamento aponta que a geologia do local conta com planos de descontinuidades no teto, composto por arenito e de fácil absorção, e aponta a geometria irregular da superfície, condições que “favorecem a queda de blocos por desplacamento”.
O laudo recomenda ainda a realização de monitoramento constante e sistemático em todas as grutas do município, principalmente nos períodos chuvosos intensos, para que sejam identificadas possíveis novas áreas instáveis.
Um documento assinado pelo prefeito José Roberto Ferracin Marques (PSD) determinou que os acessos ao interior de todas as 19 grutas da cidade, que constam do relatório gerencial do Ministério do Meio Ambiente, fiquem fechados até que mais estudos sejam apresentados.
O chefe da Defesa Civil do município, Dirceu Soares, confirmou nesta terça que todos os acessos às cavernas seguem fechados e que nas principais há vigilância para que visitantes não entrem.
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