“O café é tão grave, tão exclusivista, tão definitivo, que não admite acompanhamento sólido”, escreveu Mario Quintana.
Apresentar-se como apreciador de café é redundância. É como afirmar que o ar puro é bom e a água cristalina é saudável. Café é vida, inteligência.
Talvez por herança dos fechamentos noturnos nas redações, o café incorporou-se ao meu ciclo metabólico de tal forma que começo o dia com uma boa xícara de café e vou bicando ao longo do dia. É mais que uma bebida energética. É um rito, uma renovação de astral, pretexto para uma conversa.
Nem por isso tive a coragem, ainda, de experimentar o mais caro e exótico de nossos cafés, o Jacu, produzido a partir dos grãos eliminados no cocô da ave que tem esse nome. O jacu é um grande barista da natureza. Faz a digestão de grãos por ele selecionados e elimina a casca e polpa, o que resulta num sabor peculiar, o café Jacu. Higienizado e torrado, é um produto de exportação, coisa chique. Um quilo desse café refinadíssimo custa em torno de R$ 860 reais. Uma única dose do tipo expresso não sai por menos de R$ 70 nas cafeterias.
Pensei que era Jacu o café a ser servido pela prefeitura de Franca e a Acif para o evento internacional de cidades criativas.
Mas não é. Ainda assim, o café comum, de coador ou de máquina, foi orçado em R$ 36 mil, inclusos na conta o cafezinho na recepção do evento e o coffe break (intervalo). Isso para três dias de evento com um público de 300 pessoas. Segundo os cálculos da matéria do repórter N. Fradique, do GCN, seriam gastos mais de R$ 120 por dia por pessoa apenas em cafezinho, pão de queijo e similares.
Como o café não é Jacu, realmente houve um erro de cálculo. No mínimo. Tanto é que os promotores, debruçados sobre as planilhas, decidiram não formalizar o convênio de repasse de uma verba de R$ 70 mil aprovada por 7 a 6 na Câmara Municipal que ajudaria a custear a festa do café.
E o evento sobre economia criativa? Vai ser tocado de qualquer forma, ainda bem. Mas os recursos para o cafezinho virão de outra forma, não do bolso do cidadão francano.
Nunca a criatividade foi tão necessária para enfrentar os desafios das cidades atuais e do futuro. Precisamos de ideias novas, inspiradoras, de boas conexões neurais entre os dois hemisférios cerebrais. Dessa harmonia resultam ações superiores, equilibradas, de bom senso.
Por isso, é bom que os organizadores e os inscritos não se esqueçam do café antes das atividades. Faz bem para o cérebro. Ajuda a tomar decisões racionais e a dosar as emoções.
O café é tão essencial que deveria ser um item da pauta. Duas sugestões de tema: O poder do café nos negócios; Variedades de café para potencializar a criatividade. Aguardemos as discussões. Se possível, com um bom cafezinho. Do simples mesmo, aquele do dia a dia, que custa R$ 3,50 ou menos em boas padarias de Franca.
Wilson Marini é jornalista e editor do portal GCN.
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