Sabe aquele aniversário de 15 anos, casamento ou reunião que estava marcado para acontecer durante a pandemia? Pode acontecer meses, anos, depois. O setor de eventos, um dos mais afetados durante o isolamento social, provocado pela pandemia do coronavírus, busca conciliar os novos contratos, com aqueles que precisaram ter a data adiada. Consequência disso, algumas empresas possuem eventos marcados até 2024.
“A pessoa vai fazer o orçamento comigo, se eu tiver a data disponível, eu faço o orçamento. Se eu não tiver a data disponível, nem pego. Porque temos uma grande demanda”, disse Rodrigo Luciano, conhecido como DJ Villas Boas.
A decisão foi adotada após alta na procura por locação e montagem de iluminação, estrutura e som para festas particulares. “Toda semana, quase todos os dias, tem orçamento para a gente montar. Para quem trabalha na área profissional, a procura está grande.”
Os empresários do setor de eventos, além de tentar atender a alta demanda, precisam lidar com a nova realidade imposta pela pandemia. Muitas empresas reduziram seu quadro de funcionários e, nessa retomada, ainda não conseguiram recompô-lo.
“A empresa ainda está desestruturada, então optamos pelos contratos que a gente já tinha em andamento e, automaticamente, os contratos são maiores”, disse o diretor comercial da TB Estruturas, Alexandre de Freitas Pimenta.
A empresa tinha cerca de 120 colaboradores. Devido aos impactos econômicos causados pelo isolamento social, o número caiu para 40. Alexandre estima cerca de seis meses para voltar à normalidade.
O "novo normal" está fazendo com que noivos, por exemplo, agendem o casamento para daqui a três anos. Juliana Tognati Garcia é cerimonialista e atende até quatro eventos mensalmente, aos fins de semana. “Muitos noivos estavam parados, querendo se casar, e eu já estou tendo procura até para 2024.”
Quem não está disposto a adiar a cerimônia por tanto tempo sofre para conciliar as datas em que todos os fornecedores estão disponíveis. E está cada vez mais comuns festas durante a semana e em datas incomuns, como o pós-Natal.
Esse é o caso de um casal de clientes de Juliana. Ela conta que a noiva mudou a data do casamento para conseguir fechar com todos os fornecedores. “Tenho um casamento no dia 26 de dezembro, de uma noiva, que, inclusive, não estava conseguindo data para conciliar todos os fornecedores em um dia.”
Onde começam os problemas
O esperado baile de 15 anos ou casamento começa, quase sempre, pela escolha do salão de festa. É aí também onde tem início a dor de cabeça: até o local da comemoração está difícil de encontrar. “(A procura) Está maior que antes. Esse ano não tenho data mais, no ano que vem ainda tenho”, afirma o proprietário da Alkateia Espaço de Eventos, Kairo Oliveira Lima.
Kairo disse que o espaço recebe na faixa de cinco a seis eventos por mês, sempre aos fins de semana. Quem deseja alugar o local precisa desembolsar de R$ 10,9 mil a R$ 12,9 mil.
De acordo com Marcelo Calheiros, diretor da Ildeu Imóveis, houve um crescimento de 30% na procura por locações para aniversários, casamentos e confraternizações. “Com o avanço da vacinação e a flexibilização, aumentou bastante a procura para realização das confraternizações de empresas e famílias.”
Inflação assombra
Um dos fatores apontados por Rose Bastianini, proprietária do Buffet Bastianini, para conseguir manter a empresa ativa durante o período pandêmico foi não pagar aluguel. “A minha sorte é que não pago aluguel no meu prédio, no meu barracão e nem na minha casa, porque muitos que pagam aluguel precisaram devolver o barracão.”
Segundo Rose, os efeitos da pandemia ainda são sentidos, mesmo com a retomada. Os contratos que foram firmados antes do período pandêmico estão tabelados com os preços de 2019 e 2020. De lá para cá, os produtos ficaram muito mais caros, e a empresária está tendo dificuldade para repassar este reajuste aos clientes.
“Eu tinha 189 contratos fechados. E todos esses contratos no valor que fechei em 2019, 2020, mas estou executando apenas agora em 2021, sem acréscimo, e tudo cresceu muito”, conta.
Rose coloca carnes, castanhas e queijos como os vilões no mercado. “Tenho um casamento domingo, tenho seis tipos de queijo. Um queijo parmesão pago R$ 330 ou R$ 340 a peça, vou gastar numa festa com 250 pessoas, três peças. Só esse queijo para mim é quase R$ 1 mil”, calcula.
O Buffet Bastianini realiza uma média de seis festas dentro de uma semana, totalizando até 18 eventos ao final do mês. O serviço mais barato é contratado por R$ 65 por pessoa e o mais caro por R$ 155.
Os efeitos também estão sendo sentidos pelos músicos. O baterista Glenio Salerno acredita que bandas maiores terão grandes dificuldades, devido ao valor do cachê cobrado. “Nessa volta pós-pandemia, acho que vai ser muito raro, muito difícil, para essas bandas maiores, porque o cachê deu uma defasagem muito grande nesse período.”
Glenio toca em duas bandas - Aurah e Walk. O cachê num bar varia entre R$ 800 e R$ 1 mil, enquanto numa festa, de R$ 3 mil a 5 mil.
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