BALTAZAR GONÇALVES

Uma zona de conforto

Por Baltazar Gonçalves | especial para o GCN
| Tempo de leitura: 2 min

Já entendi que o isolamento é o núcleo da doença, dizia para si mesma antes de sentir coragem.

Durante dois anos a pandemia foi a melhor desculpa para não sair de casa. Usou e abusou da internet, missa pai eterno de manhã, pornografia à tarde e filmes nos streams e o escambau. Não leu um livro sequer, mas pra isso tinha desculpa porque livro tá caro no Brasil. Se injeção na testa for de graça a gente não reclama, aprendi em casa.

A culpa da minha degradação não é minha, a culpa é da Lei de Gérson: pessoas e empresas a obter vantagens de forma indiscriminada sem se importarem com questões éticas ou morais. Sou fruto podre nesse meio apodrecido, os pensamentos dela aos borbotões.

Quase dois anos sem sair de casa, vou pra rua.

No fundo, seu desejo eram pasteis de feira, andar na multidão, perder-se fora de si nos olhos dos outros. Talvez encontrasse o amor da sua vida com a boca molhada de gordura saturada. Sempre me ferro com as expectativas que faço, namoro virtual para quem chega aos 40 hoje é um monótono tom de cinza.

Muitas tentativas depois, passou do portão, caminhou refletindo sobre o autoengano em que vivia. A rua vazia, a cidade oca, a cabeça fervilhando.

Precisava encontrar alguém que a reconhecesse viva e talvez se percebesse viva, para esse propósito um estranho servia. Ela estava cheia de si mesma quando intuiu na porta de um restaurante encontrar dentro alguém que notasse sua presença no mundo. Posso usar o banheiro? Onde fica? Ah sim! Direita ou esquerda? Foi atravessada pela voz do atendente que fazia sinais engolindo as palavras por baixo da máscara sem olhar.

Obrigada! decidiu continuar representando boa educação.

Chegou no fim do corredor e olhou em volta, entrou nessa porta. Cadê o espelho, porra! Banheiro sem espelho?! No cômodo apertado sem vontade de estar, compreendeu que “zona de conforto” é o inferno entre quatro paredes. Sem a menor vontade concluiu qualquer coisa como “melhor ter ficado”.

Enfim e quase aliviada encontrou essa moldura na parede estreita, buscou seu reflexo sem perceber que aquilo não passava de um quadro cujo conteúdo fora removido talvez porque desbotado e velho sem significados para os donos do lugar. Poxa vida, custava enquadrar um pôr do sol aqui? Custava uma paisagem singela astronômica? Custava qualquer Marilyn ou qualquer James Dean em preto e branco? Merda, porque me sinto sempre no lugar errado? Ressentindo o passado, com medo do presente e ansiosa pelo que virá? Zona de conforto...

Curioso estar ausente revelador, foi justamente no vazio de um quadro sem qualquer imagem que ela pode ver-se completamente. Então colocou de volta sua máscara no rosto, cobriu o vazio e voltou para casa no mesmo caminho. O de sempre no mesmo lugar, sem presença, atordoada.

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