SEQUELAS DA COVID

Com lacres de latinha e doações, francana consegue prótese um ano após amputação das pernas

Por Heloísa Taveira | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Dirceu Garcia/GCN
Márcia conseguiu as próteses através de doações: 'Pedi muito a Deus para me deixar viva. Se era esse o jeito que tinha de ficar viva, sem a perna, era o que eu queria'
Márcia conseguiu as próteses através de doações: 'Pedi muito a Deus para me deixar viva. Se era esse o jeito que tinha de ficar viva, sem a perna, era o que eu queria'

Embora a covid tenha provocado inúmeros problemas, alguns são mais incomuns. Márcia Afonso, de 48 anos, teve que amputar as duas pernas: a direita, em novembro de 2020, a esquerda, três meses depois. Tudo isso por conta de uma trombose que foi desencadeada pelo vírus e, um ano depois da primeira amputação, a dona de casa conseguiu as esperadas próteses.

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“Foi uma sequela da covid. O médico disse que talvez eu tivesse uma doença escondida, que eu não sabia, e aí a covid foi direto nesse problema”, disse Márcia. A notícia de que teria que amputar uma das pernas veio uma semana depois de receber alta do Hospital do Coração, onde ficou internada por dois dias, em outubro do ano passado. Apesar de estar recuperada da doença, sentia muita dor no pé.

“De quando eu fiquei sabendo que teria que amputar até chegar na amputação foram quatro dias. Como eu sofri muito com dor, uma dor muito forte, depois da amputação acho que foi um alívio. Tirou a dor, acabou.”

Márcia, que é casada e tem três filhos, só conseguia pensar que tinha que lutar pela vida, independente das circunstâncias. “Pedi muito a Deus para me deixar viva. Se era esse o jeito que tinha de ficar viva, sem a perna, era o que eu queria”.

A trombose atacou também o pé esquerdo e três meses depois da primeira amputação veio a segunda. O médico de Márcia deu a opção de amputar apenas metade do pé, mas dessa forma, o osso ficaria exposto e com chances de infecção. “Falei que eu não queria e que era para fazer a amputação mais acima. Aí sim conseguiria dar os pontos e colocar as próteses”.

A ideia dos lacres
Tentando se adaptar à nova realidade, Márcia buscava uma forma de retomar as atividades da melhor maneira possível. A dona de casa é do tipo que não consegue ficar parada e, mesmo sem um apoio, ainda dava um jeito de cozinhar, organizar a casa e até aprender a fazer crochê durante esse período.

“Fui tentando fazer as coisas sozinha. Falei: ‘preciso conseguir, não posso ficar na cama’. Aí comecei a passar para a cadeira sozinha, escondida. Meu marido não deixava porque tinha medo que eu caísse e machucasse. Mas casa foi inteira adaptada, cozinha, fogão, banheiro, então comecei a fazer tudo sozinha”.

Em um desses dias, Márcia e Jéssica, sua enteada, acharam em uma rede social a história de uma mulher que tinha conseguido as próteses com a ajuda de lacres de latinhas e começaram também a arrecadação. A repercussão foi tão grande que, além das doações de lacres, Márcia começou a receber doações em dinheiro.

“Depois da reportagem, começou a aparecer gente de tudo quanto é lugar com lacre para me doar e a partir daí vieram doações de todas as formas. Uma ONG de Franca conseguiu arrecadar R$ 5 mil e depois ainda organizam uma feijoada. No total, foram R$ 20 mil só dessa ONG, mas foi um pouquinho de ajuda de cada lado, além da própria empresa das próteses que me fizeram um desconto. Elas ficariam em R$ 50 mil, mas fizeram por R$ 40 mil.”

Foram meses de arrecadação até que a compra das próteses foi feita. Junto delas, o início da reabilitação, em Sorocaba - SP. Márcia ficou praticamente os últimos 30 dias todos com a ajuda de fisioterapeutas e profissionais multidisciplinares no centro de tratamento para conseguir dar os primeiros passos com as próteses. Apesar de ser um universo novo, ela se sentiu muito acolhida.

“Estava muito nervosa, mas o engraçado é que quando cheguei lá, o medo sumiu, porque é o nosso mundo. Todos são amputados ali, até grande parte dos funcionários. Não estamos acostumados a ver pessoas amputadas no dia a dia. Então fiquei à vontade. Vi casos piores que o meu lá, fui muito bem acolhida.”

Agora, o próximo passo é se acostumar com as próteses. Mesmo com todas as dificuldades, Márcia nunca perdeu a esperança e a vontade de viver. Em todos os momentos, vítimas da covid que não tiveram outras oportunidades passavam pela sua cabeça.

“É bem difícil, mas quantas pessoas morreram por covid, né? Não tiveram uma chance. Eu perdi minha mãe eu tinha 10 anos. Sofri muito por isso e a minha filha ia fazer 10 anos também, faltavam pouco meses para completar. Pensei: ‘Meu Deus, se ela ficar sem mãe, ela vai passar por tudo que eu passei’. Não podia deixar ela. Pedi muito para viver para ver ela crescer. Acho que só pensei nisso”, falou Márcia.

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