Ótima experiência audiovisual curta não recomendada para menores de 18 anos, o novo filme de Pedro Almodóvar dura 30 minutos. O cineasta domina com exatidão cada elemento cênico: da palavra no monólogo às cores contrastantes em harmonia surpreendente ao uso aberto do cenário que revela sua natureza artificial, mas sem perder o glamour da representação sofisticada.
Parece que a voz humana está fadada a ser reproduzida à distância, ao pé do ouvido apenas juras de amor com data de validade. Preso nos simulacros da tecnologia, o interlocutor é ausência.
Almodóvar recria o simulacro vasto e amplo das conversações, num galpão ou set de filmagem meio abandonado onde a única verdade percebida é a realidade sentida na representação magistral da protagonista que nos convence “falando sozinha” enquanto atua se entorpecendo de tranquilizantes. Se somos linguagem e tudo é representação, o que nos dá a sensação de estarmos vivos é a captura da essência fugaz do que supomos ainda humano em nós. Nesse rodopio estático, o que assistimos não é uma cena de filme, mas recorte da vida de uma pessoa que acontece ali diante dos nossos olhos.
Ao mostrar as estruturas que suportam artificialmente a montagem, o espectador percebe que a arte é o domínio da invenção, da criação que supera os artifícios do real. O diretor espanhol consegue transpassar as camadas de superficialidade que nos cercam, sempre revestidas por “discursos de verdade” e os desmascara por serem, no fim das contas, outros simulacros.
No curta, vemos uma única personagem em cena: a mulher que vive a plenitude da carreira profissional e também do amor na maturidade, mas que se perde de si no término de um relacionamento intenso de quatro anos. A trilha sonora encaminha nossa percepção para um desfecho trágico; a compra de um machado sugere que sangue será derramado. O modo como o diretor resolve o “derramamento de sangue” é genial porque muito simples: se eu destruir o símbolo do mal que me aflige também destruo o que ele representa?
A narrativa construída por Amodóvar especula sobre o que somos capazes de fazer quando perdemos a linha traçada pela paixão que o amor tinha restaurado em nós.
O figurino é outro código de linguagem a ser notado: o laranja dourado na abertura é icônico e contrasta com o tailleur feminino preto reservado para o reencontro com o/a amante que nunca mais virá: o término se dá por telefone, não se ouve a VOZ HUMANA no momento de maior fragilidade; a tecnologia mediando o impasse da tragédia anunciada.
Na falta do gozo, direito e conquista daquele momento em que a hipófise não controla os pensamentos, algo será destruído com volúpia e ódio – qual é mesmo a distância que separa o amor do ódio?
A personagem interpretada por Tilda Swinton, uma fênix laranja dourado, é tão encantadora quanto humana. É dela a única voz que ouvimos no curta, A VOZ HUMANA à beira de um ataque de nervos, e é com ela que vamos queimar tudo.
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